R$ 25 bilhões de gringo em cinco meses — e por que sua conta subiu em julho

R$ 25 bilhões de gringo em cinco meses — e por que sua conta subiu em julho

Turistas estrangeiros gastaram valor recorde no Brasil entre janeiro e maio, 11% acima do ano passado, enquanto 54% dos bares e restaurantes esperam faturar mais nas férias. Boa notícia para o setor. Para quem vai jantar fora em Gramado neste inverno, a leitura é outra.

SaborCidade ·

Você já tentou jantar sem reserva em Gramado em julho? Ou conseguir mesa num restaurante de Campos do Jordão num sábado de inverno sem ter ligado com uma semana de antecedência? Se tentou, já sabe: existe um Brasil gastronômico que funciona normalmente onze meses por ano e um outro, paralelo, que aparece em julho e vira outra coisa — nos preços, no tempo de espera e, com frequência, na qualidade do que sai da cozinha.

Os números do setor explicam essa mudança de temperatura melhor que qualquer reclamação de fila. Entre janeiro e maio de 2026, turistas estrangeiros gastaram R$ 25 bilhões no Brasil — valor recorde para o período e 11% acima dos mesmos cinco meses de 2025. E 2025 já tinha sido o melhor ano da série histórica: mais de 9 milhões de estrangeiros, 37% acima de 2024.

Julho é o inverno mais lucrativo do calendário

Some o turista de fora ao turista de dentro e você tem a explicação da lotação. Segundo levantamento da Abrasel, 54% dos donos de bares e restaurantes projetam vendas acima de um mês comum nas férias escolares de julho. Desses, 44% estimam alta de até 20% e outros 10% acreditam em crescimento acima disso. Na comparação com julho do ano passado, 58% esperam faturar mais.

Paulo Solmucci, presidente-executivo da Abrasel, aponta o mecanismo: cidades associadas ao inverno — Gramado, Campos do Jordão, Monte Verde — recebem mais visitantes e transformam essa sazonalidade em oportunidade para reforçar o caixa e compensar os meses fracos.

E o setor vinha bem antes disso. Em maio de 2026, bares e restaurantes registraram crescimento médio de 12% sobre o mesmo mês de 2025, com o Rio Grande do Sul liderando a 17%, seguido de Sergipe (16,1%) e Tocantins (15,1%).

O inverno gastronômico brasileiro em números — 2026:

• Gasto de turistas estrangeiros: R$ 25 bilhões (jan-mai), recorde e +11% sobre 2025
• Entrada de estrangeiros em 2025: mais de 9 milhões (+37% sobre 2024)
• Férias de julho: 54% dos bares e restaurantes esperam faturar acima de um mês comum
• Desses, 44% projetam alta de até 20%; 10%, acima de 20%
• Comparação anual: 58% esperam faturar mais que em julho de 2025
• Setor em maio de 2026: +12% na média nacional (RS +17%, SE +16,1%, TO +15,1%)
Fontes: Ministério do Turismo, Abrasel, ANR

O que a alta temporada faz com a cozinha

Aqui vem a parte que o comunicado de faturamento não conta. Um restaurante dimensionado para 80 clientes por noite que passa a receber 150 não vira um restaurante melhor — vira o mesmo restaurante com o dobro de pressão sobre a mesma chapa, o mesmo forno e, na maioria dos casos, uma equipe reforçada às pressas com gente contratada há duas semanas.

As consequências são previsíveis e você já as viveu. O ponto da carne fica menos preciso, porque quem está na chapa está fazendo dez ao mesmo tempo. A mise en place — o preparo antecipado de tudo que a cozinha usa no serviço — é feita em maior volume e mais cedo, o que significa ingrediente cortado há mais tempo. O prato demora mais e chega menos quente. E o garçom que deveria explicar o cardápio está cobrindo cinco mesas a mais do que consegue.

Nada disso é desonestidade. É física de operação. Só que o preço, esse costuma acompanhar a demanda com muito mais agilidade do que a estrutura acompanha o volume.

O cardápio de alta temporada e o direito de saber o preço

É legítimo um restaurante cobrar mais em período de pico? É — mercado é mercado, e a mesma casa vai enfrentar um agosto vazio. O que não é legítimo, e acontece bastante, é a falta de clareza: cardápio sem preço impresso, "sugestão do chef" cotada só na hora, couvert que aparece na mesa sem ninguém avisar que é cobrado e taxa de serviço apresentada como obrigatória.

Vale a lembrança, sem drama: pelo Código de Defesa do Consumidor, o preço tem que ser informado de forma clara e ostensiva antes do consumo. Couvert não pedido e não avisado é venda casada. A taxa de serviço de 10% é praxe e merecida quando o serviço foi bom — mas é opcional, não compulsória, e nenhuma casa pode tratá-la como item obrigatório da conta.

Como comer bem no mês em que todo mundo come fora

Algumas escolhas mudam bastante a experiência. Fuja do horário de pico dentro do pico: jantar às 19h ou às 22h em vez das 20h30 é a diferença entre ser atendido por uma cozinha organizada e por uma cozinha em pânico. Almoço, então, costuma ser o melhor negócio do inverno — mesma cozinha, metade da pressão, preço frequentemente menor.

Prefira a casa que vive da cidade, não do turista. Restaurante de rua principal de cidade serrana em julho trabalha com cliente que nunca vai voltar — e cardápio desenhado para quem não volta tende a ser genérico e caro. Ande três quarteirões para fora do centro turístico e pergunte onde o pessoal que trabalha no comércio almoça. Essa resposta vale mais que qualquer ranking.

Desconfie do cardápio grande em alta temporada. Casa lotada com 60 itens não está fazendo 60 pratos bem. Está esquentando a maior parte. Menu curto em julho é sinal de gente que sabe o que a própria cozinha aguenta.

E reserve. Não é frescura — é o que separa comer no lugar que você escolheu de comer no lugar que sobrou.

O setor está vivendo o melhor inverno da série histórica, e isso é genuinamente bom: emprego, caixa e fôlego para atravessar os meses magros. Só não confunda um restaurante cheio com um restaurante bom — em julho, todos estão cheios.

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