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600 visitas, 540 endereços e a conta sempre paga — como se elege o melhor restaurante de São Paulo

600 visitas, 540 endereços e a conta sempre paga — como se elege o melhor restaurante de São Paulo

O guia mais antigo da gastronomia paulistana chegou à 30ª edição com 43 categorias, 18 jurados convidados e uma regra que explica quase tudo: o crítico chega sem avisar e paga o que comeu. Veja o que o resultado deste ano diz sobre a cidade.

SaborCidade · · 6 min de leitura

Todo ano acontece a mesma cena: sai a lista dos melhores restaurantes da cidade, meia São Paulo comemora, a outra metade jura que o júri não entende nada e três pessoas perguntam, com toda razão, quem foi que decidiu isso. A edição 2026 do guia da Veja São Paulo saiu neste fim de semana e é a de número 30 — o que faz dela um bom motivo para responder a pergunta que interessa mais do que a própria lista: como se elege o melhor restaurante de uma cidade com dezenas de milhares deles?

A regra que sustenta o resto

Comece pela parte menos glamourosa e mais importante. A equipe de gastronomia circula o ano inteiro, chega sem avisar, come, bebe e paga a conta — as despesas são reembolsadas depois pela editora. Só isso já separa um guia de crítica de um guia de convite, e é a diferença entre ser cliente e ser hóspede.

Parece detalhe. Não é. Quando o crítico avisa que vai, o restaurante monta o time A: o chef está na praça, o prato sai no ponto, o garçom decora o cardápio. Quando ele chega numa terça chuvosa sem dizer nada, o que aparece no prato é o que aparece para você. Nos últimos doze meses foram mais de 600 estabelecimentos visitados nessas condições.

Do funil de 600 ao pódio de três

Dos 600 e poucos visitados, entraram no guia deste ano 540 endereços — os que alcançaram no mínimo três estrelas, a nota que a casa considera "bom". Ou seja: o filtro de entrada é largo, porque a lista de visitas já é uma pré-seleção. O corte que dói vem depois.

São 43 categorias em 2026, divididas em quatro frentes: Restaurantes, Bares, Comidinhas e Bom e Barato, cada uma com um titular responsável pela curadoria. Em cada categoria entram três indicados — e só aí a votação começa, com o reforço de 18 jurados convidados, quase todos jornalistas de gastronomia de outras redações.

Aqui está a parte que ninguém lê e que muda a leitura do resultado: os convidados votam em 24 das 43 categorias. As outras 19 — incluindo Chef do Ano, Estreia do Ano, Novidade do Ano, Bar Revelação e Bom e Barato — são decididas apenas pelo time da casa. E, em paralelo a tudo isso, roda o voto popular, que costuma dar resultado diferente. Não é erro do público nem esnobismo do júri: são duas perguntas distintas. O crítico responde "onde se come melhor". O público responde "onde eu gosto de ir". Raramente é o mesmo endereço.

O guia de 2026 em números:

30ª edição: a primeira saiu em 1996, como guia de bolso, e nunca faltou — nem na pandemia
600+ estabelecimentos visitados sem aviso prévio nos últimos doze meses
540 endereços entraram no guia, todos com no mínimo três estrelas
43 categorias, com três indicados em cada uma
18 jurados convidados, que votam em 24 categorias; as outras 19 ficam com o time interno
2 estreias na premiação: Melhor Trilha Sonora (para os listening bars) e Chef de Rotisseria

O que a lista de 2026 conta sobre a cidade

Um guia não é só um ranking: é um retrato de para onde a cidade andou. E o retrato deste ano tem duas pontas que valem mais que a lista inteira.

Na primeira, o Melhor Boteco é o Bar do Luiz Fernandes, aberto em 1970 na zona norte, tocado hoje pelo filho dos fundadores ao lado de duas filhas, de 29 e 25 anos, com mesa de metal, banqueta de plástico e um bolinho de carne de R$ 13 que é o item mais antigo da casa. Cinquenta e seis anos de operação e o prêmio chega agora.

Na outra ponta, o Melhor Japonês é o Miyabi, que abriu em agosto de 2025 e trocou de cozinha em novembro. Serve um menu único num balcão de dezesseis lugares, em duas rodadas por noite, às 19h e às 21h30. Um ano de vida e já está no topo.

Essas duas casas não competem por nada. Elas só mostram que São Paulo comporta as duas lógicas ao mesmo tempo: a que leva meio século construindo clientela de bairro e a que se impõe em doze meses com trinta e duas cadeiras por noite. Quem diz que a cidade "perdeu a alma" não olhou a primeira. Quem diz que "só o novo importa" não olhou a segunda.

Reincidência: o sinal que quase ninguém vê

Se você vai usar a lista como mapa, olhe menos o vencedor e mais o histórico. Casas que ganham repetido estão dizendo algo que o prêmio de estreia não diz: que a cozinha aguenta.

Este ano, o Holy Burger chegou ao tricampeonato de Melhor Hambúrguer, a Pine Co. também é tricampeã em sorvete, a Mission Chocolate soma quatro títulos em quatro anos, a Amay Patisserie foi eleita doceria do ano pela quarta vez consecutiva, o Osso levou Melhor Carne pela quarta vez e o Pato Rei repetiu como Melhor Café. Consistência ao longo de anos é mais difícil que um pico — e é o que separa o restaurante do evento.

Vale também reparar nas categorias novas. A premiação de Melhor Trilha Sonora nasce porque os listening bars, bares em que o sistema de som é o cardápio principal, viraram gente grande na cidade. E o prêmio inédito de Chef de Rotisseria reconhece uma cozinha que passou décadas sendo tratada como "comida pronta": frango assado, torta, carne fatiada no balcão. Guia bom é assim — ele muda as caixinhas quando a cidade muda.

Como usar a lista sem virar refém dela

Três avisos honestos. O primeiro: o guia é patrocinado — tem apresentação da prefeitura e patrocínio de banco, frigorífico e aplicativo de delivery, o que é normal no modelo e não interfere na crítica, mas você merece saber quem paga a impressão enquanto o crítico paga o jantar.

O segundo: qualquer lista é o gosto de um time específico num período específico. Ela não é sentença. Restaurante premiado pode te decepcionar numa quarta-feira e a casa que não entrou pode ser a melhor refeição do seu ano.

O terceiro, e mais útil: 540 endereços é um mapa bem maior que 43 vencedores. O ouro dessas publicações quase nunca está no pódio — está nas duzentas casas listadas no meio do caminho, perto da sua casa, que você nunca abriu a porta para conhecer.

Prêmio de gastronomia não diz onde você vai comer bem — diz onde um time de gente que come fora todo dia comeu bem. A lista é o começo da conversa, não o fim dela.

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