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Abriram 420 mil negócios de comida em um ano — e 277 mil fecharam a porta no mesmo período

Abriram 420 mil negócios de comida em um ano — e 277 mil fecharam a porta no mesmo período

Levantamento da ABIA com a Wise Sales mostra o food service brasileiro em 1,2 milhão de estabelecimentos e R$ 287,9 bilhões em vendas. O dado que ninguém comenta é a rotatividade: para cada dez CNPJs abertos, quase sete sumiram — e 288,7 mil deixaram de ser MEI para virar gente grande.

SaborCidade · · 6 min de leitura

Você conhece aquele ponto na sua rua que já foi açaí, depois hamburgueria, depois marmitaria fitness e agora tem um cartaz de "aluga-se" com o telefone escrito à mão. Também conhece o contrário: a lanchonete que começou numa janela de garagem, foi para um salão de verdade e hoje tem três funcionários de uniforme. Essas duas histórias moram na mesma estatística — e ela acaba de ser publicada.

Um levantamento da ABIA (Associação Brasileira da Indústria de Alimentos) com a plataforma Wise Sales mapeou o que aconteceu com os CNPJs de comida do Brasil no ano passado. O resultado é um setor que cresce, fatura alto e devora gente na mesma velocidade.

Os números da porta giratória

Foram cerca de 420 mil novas empresas abertas: 354 mil microempreendedores individuais e outras 65,8 mil já fora do regime MEI. Parece festa. Só que no mesmo intervalo houve 220,5 mil MEIs encerrados e mais 56,6 mil empresas fechadas fora desse regime — quase 277 mil desistências.

Faça a conta que o release não faz: sobrou um saldo de pouco mais de 143 mil negócios. Para cada dez portas que abriram, quase sete fecharam. O food service não é um setor que só cresce; é um setor que respira muito rápido.

E não é pouca coisa que está girando. O canal movimentou R$ 287,9 bilhões em vendas e responde por 28,3% do faturamento da indústria de alimentos no mercado interno. Quase um terço de tudo o que a indústria vende no Brasil passa por um balcão, uma cozinha ou um motoboy — não pela gôndola do supermercado.

Por que é tão fácil entrar (e por isso mesmo tão fácil sair)

A explicação está na palavra que os economistas usam sem dó: barreira de entrada. No food service ela é baixíssima. Você formaliza um MEI pelo celular em vinte minutos, aluga uma cozinha compartilhada por diária, sobe no aplicativo e no dia seguinte está vendendo. Não precisa de fachada, nem de salão, nem de licença de vitrine.

Isso tem um lado bom e um lado cruel. O bom é que o setor virou a porta de entrada do empreendedorismo brasileiro — o laboratório onde se testa um produto com investimento enxuto. O cruel é que a mesma facilidade que deixa você entrar deixa entrar todo mundo, inclusive quem nunca fez planilha de custo e descobre no quarto mês que estava vendendo a R$ 28 um prato que custa R$ 31.

Delivery, formalização simplificada e digitalização empilharam-se para criar um país com mais de 1,2 milhão de estabelecimentos de comida, contando de restaurante tradicional a dark kitchen, microconfeitaria de apartamento e hamburgueria que só existe dentro do aplicativo.

A migração que é a boa notícia escondida

Tem um número no estudo que vale mais que o das aberturas: 288,7 mil negócios migraram de MEI para categorias empresariais mais estruturadas. Traduzindo do economês: quase 290 mil donos de cozinha estouraram o teto de faturamento do microempreendedor — ou decidiram que precisavam contratar, emitir nota maior, comprar direto da indústria — e assumiram um CNPJ de gente grande.

Isso é o oposto de precarização. É gente que entrou pequeno, testou, errou, ajustou e cresceu. "O empreendedor entra pequeno, testa modelos, ajusta sua operação e, quando encontra consistência, evolui para negócios mais complexos", resume Caio Saad, CEO da Wise Sales. Cleber Sabonaro, gerente de Inteligência Competitiva da ABIA, diz que o setor deixou de falar só em abertura para falar em porte e modelo de gestão.

Para você, que come fora, a diferença aparece na prática: cozinha com ficha técnica erra menos o ponto, mantém o preço estável e não desaparece na semana seguinte com o seu vale-presente na mão.

O food service brasileiro em números:

420 mil novas empresas abertas em um ano — 354 mil MEIs e 65,8 mil fora do regime
277,1 mil encerramentos no mesmo período (220,5 mil MEIs + 56,6 mil empresas)
288,7 mil negócios migraram de MEI para estruturas empresariais maiores
R$ 287,9 bilhões movimentados pelo canal, ou 28,3% do faturamento da indústria de alimentos no mercado interno
1,2 milhão de estabelecimentos de comida no país
47,65% deles no Sudeste, 21,96% no Nordeste e 15,47% no Sul

O mapa está saindo da capital

O Sudeste ainda concentra 47,65% das operações, o que não surpreende ninguém. O que surpreende é o Nordeste com 21,96% — mais de um em cada cinco negócios de comida do Brasil — e o Sul com 15,47%.

A interiorização tem explicação logística e não romântica: internet melhor, entrega viável em cidade média, sistema de gestão que antes era privilégio de rede agora custa uma assinatura mensal. O mesmo software que organiza estoque numa rua dos Jardins organiza estoque em Sobral. Quando a ferramenta chega, o negócio consegue nascer estruturado — e a cidade de 80 mil habitantes ganha uma hamburgueria com controle de custo, não só com chapa quente.

O que o consumidor tem a ver com isso

Tudo. Essa porta giratória existe porque você mudou. Continua comendo fora, mas ficou seletivo: compara preço, olha avaliação, abandona carrinho, testa uma casa nova e some se a entrega atrasar. O estudo aponta exatamente isso — conveniência, rapidez, experiência e confiança entraram na decisão junto com o preço.

O resultado é um mercado em que abrir é barato e permanecer é caríssimo. Pressão de custo, falta de mão de obra qualificada, comissão de aplicativo e um cliente com o bolso apertado formam um filtro que não perdoa amadorismo. A tecnologia — cardápio calibrado por dado, precificação revista toda semana, estoque no automático — virou menos um luxo e mais um extintor de incêndio.

Há uma leitura prática nisso para quem vai almoçar hoje. Quando você escolhe o restaurante que está há oito anos na mesma esquina em vez do que abriu anteontem com cardápio de QR code e nome em inglês, você não está sendo conservador. Está escolhendo, sem saber, o lado certo de uma estatística brutal.

Abrir um negócio de comida no Brasil nunca foi tão fácil — e é justamente por isso que 277 mil deles não chegaram ao fim do ano. O setor não precisa de mais gente entrando; precisa de mais gente ficando.

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