
R$ 80 para entrar e R$ 30 o prato — a matemática do maior festival de comida do país
A 16ª edição do Rio Gastronomia abre hoje o Jockey Club, na Gávea, com mais de 40 restaurantes, 30 aulas de chef, nove alambiques e uma roda-gigante. Vale a conta? Depende de quantos pratos você aguenta.
Você paga R$ 80 só para atravessar o portão. Antes de comer nada, antes de ouvir uma nota de música, antes de sentar. Para quem está acostumado a festival de comida de shopping com entrada franca, isso soa como assalto à luz do dia. Só que do outro lado do portão a lasanha de costela do Heaven, a moqueca da Casa Magnólia e o hambúrguer de wagyu da Curadoria custam R$ 30 — todos eles, mesmo preço, tabela fixa. A partir daí, o festival deixa de ser um passeio e vira um problema de aritmética. Um problema que vale a pena resolver antes de sair de casa.
O tamanho da coisa
O Rio Gastronomia chega à 16ª edição ocupando o Jockey Club Brasileiro, na Gávea, de hoje até 4 de outubro — três fins de semana, sempre de quinta a domingo. São mais de 40 estabelecimentos servindo ao mesmo tempo, mais de 30 aulas gratuitas com cozinheiros que normalmente você só vê pela TV, cerca de 20 estandes de produtores fluminenses, nove alambiques do interior do estado com bar de caipirinha anexo e uma roda-gigante de 20 metros que já virou tradição desde 2021.
É o maior evento de gastronomia do Brasil em escala, e a escala importa: numa única noite você consegue comer em casas que, no calendário normal, exigiriam reserva com semanas de antecedência, três táxis diferentes e uma conta bem menos simpática.
• Entrada: a partir de R$ 80 (quinta e sexta) e R$ 88 (sábado e domingo), inteira, no 1º lote
• Prato RG: R$ 30 fixos em todas as casas — o ingresso promocional ainda dá 10% de desconto neles
• Crianças até 10 anos: não pagam ingresso
• Roda-gigante: R$ 25 o individual, R$ 80 a cabine para quatro
• Espaço kids: R$ 60 a primeira meia hora, R$ 20 cada meia hora adicional, R$ 120 o day use com direito a sair e voltar
• Descontos: 50% para assinantes do grupo organizador, 30% para clientes Claro e para cartões BB Elo
• Horários: quinta e sexta das 17h à meia-noite (nesta sexta, das 18h), sábado das 12h à meia-noite, domingo das 12h às 23h
A matemática que ninguém faz na fila
Vamos abrir a conta de uma pessoa numa quinta-feira. Ingresso a R$ 80, três Pratos RG a R$ 30 — um salgado, um principal, uma sobremesa — dá R$ 170. Some uma cerveja e uma caipirinha de alambique e você fecha em torno de R$ 200 por cabeça. Não é barato. Só que o mesmo cardápio no endereço original de cada casa sairia por bem mais, e viria com couvert, taxa de serviço e estacionamento.
O ponto de equilíbrio é o terceiro prato. Quem entra, come um, tira foto e vai embora pagou R$ 110 por um prato de R$ 30 — péssimo negócio. Quem entra às 17h, come três ou quatro, assiste a uma aula de chef e fica para o show da noite diluiu o ingresso em cinco ou seis horas de programação. É o mesmo raciocínio do rodízio, invertido: aqui o prato é barato e a porta é cara, então o que você precisa maximizar é o tempo dentro, não o volume de comida.
E existe um detalhe que quase ninguém coloca na planilha: os shows estão incluídos no ingresso. Samuel Rosa abre a programação musical hoje. Nas próximas semanas passam Mãeana, Marcelo D2, Blitz, Silva, Ferrugem, Arlindinho, Bento e Flor Gil. Ingresso de show de qualquer um desses nomes, sozinho, custa mais que os R$ 80 da entrada — e não vem com jantar junto.
Quem está servindo
A lista de estreantes é a parte interessante do cardápio deste ano. A Ferro e Farinha, do chef nova-iorquino Sei Shiroma, tricampeã do prêmio local de melhor pizzaria, monta estande próprio pela primeira vez e elegeu a Classic NY como sua pizza do festival. A Casa Magnólia entra com uma moqueca de cherne, camarão, leite de coco e dendê que virou o Prato RG da casa. O Eleninha, eleito melhor bar da cidade no ano passado, aposta nos dumplings do chef Itamar Araújo. O BBQ Lagoa leva brisket e cupim defumado, e o Kata Sushi chega com os tubos de sushi que viralizaram.
Entre os veteranos, o Giuseppe Grill emenda a sexta edição consecutiva com arroz de costela e bife de tira de picanha; o San chega ao quarto ano; o Babbo Osteria divide estande com o Francese; e o Teva volta depois de cinco anos ausente, provando que dá para vender comida vegana em feira sem pedir licença. Vale reparar numa coincidência de calendário: duas pizzarias do festival, a Ferro e Farinha e a Bento, pertencem ao clube pequeno das casas brasileiras que a Itália resolveu levar a sério — e a Bento acabou de entrar no top 100 mundial do ranking napolitano.
As aulas são de graça (e é aí que está o pulo do gato)
Mais de 30 chefs passam pelo auditório ao longo dos três fins de semana, e nenhuma dessas aulas cobra ingresso além da entrada. Claude Troisgros, que participa do festival desde a primeira edição, divide a bancada com a filha Carola, confeiteira — a primeira vez que os dois dão aula juntos ao vivo. Kátia Barbosa, João Diamante, Bela Gil, Paula Prandini, Jessica Trindade, Monique Gabiatti e Sei Shiroma também passam por lá.
Aula de chef em escola de gastronomia custa de R$ 250 a R$ 600 a sessão. Aqui, você paga a entrada e senta. Se o objetivo é aprender alguma coisa e não só comer, esse é o item de maior retorno do festival — e o menos disputado, porque a maioria do público fica no gargalo dos estandes.
Como não se dar mal
Três conselhos práticos de quem já pagou ingresso caro em festival de comida. Primeiro: vá na quinta ou na sexta, logo na abertura. É mais barato, a fila do estande que você quer ainda não existe e os pratos mais concorridos não acabaram. Sábado à noite é o pico — bonito de ver, péssimo de comer.
Segundo: escolha os estandes antes de entrar. Com 40 casas e estômago para três ou quatro pratos, você vai deixar 90% do festival sem provar de qualquer jeito. Melhor deixar por escolha do que por indecisão na fila.
Terceiro: o Prato RG a R$ 30 é o melhor negócio do lugar, e é nele que as casas concentram a melhor relação entre porção e preço. Os itens fora dessa tabela custam o que custariam no restaurante — e nesse caso você está pagando preço de restaurante em copo descartável, de pé, com música alta.
Festival de comida é assim: o ingresso compra o acesso, não o jantar. Quem entende isso come muito bem por R$ 200. Quem não entende paga R$ 110 por uma porção de dumpling e vai embora achando que a gastronomia carioca está cara.