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A guerra do delivery chegou ao Cade — e o cupom de R$ 250 é isca, não presente

A guerra do delivery chegou ao Cade — e o cupom de R$ 250 é isca, não presente

Em pouco mais de 48 horas, o iFood denunciou a Keeta por preço predatório e o tribunal do Cade negou o pedido da Keeta contra as cláusulas da 99Food. Enquanto os gigantes discutem quem subsidia mais, o dono do restaurante assina contrato de exclusividade — e você acha que ganhou desconto.

SaborCidade · · 8 min de leitura

Você abriu o aplicativo esta semana e viu aquilo: um cupom absurdo, 80% de desconto, frete zero, uma marmita de R$ 40 saindo por R$ 9. Sua primeira reação foi achar que enfim alguém resolveu ser generoso com quem janta em casa. Sua segunda reação, se você é do tipo desconfiado, foi perguntar quem está pagando isso. A resposta virou processo.

No apagar das luzes de agosto, o iFood protocolou no Cade uma representação contra a Keeta — o braço brasileiro da chinesa Meituan, a maior operadora de delivery do mundo em volume de pedidos — acusando a rival de prática de preço predatório. Na quarta-feira, dia 2, o tribunal do Cade negou um pedido da própria Keeta contra as cláusulas de exclusividade da 99Food. Em três dias, o delivery brasileiro deixou de ser uma disputa de marketing e virou um caso de defesa da concorrência com três empresas se acusando mutuamente. E, no meio do ringue, sem microfone, está o restaurante que faz a sua comida.

O que exatamente foi para a mesa do Cade

Comecemos pela denúncia do iFood. A empresa pede a abertura de processo administrativo com base no artigo 36 da Lei 12.529/11 — o artigo que trata de infração à ordem econômica — e sustenta que a Keeta opera com prejuízo por pedido no Brasil, bancando a operação com capital da matriz chinesa para ganhar mercado e eliminar concorrentes. A representação cita cupons de até R$ 250 e descontos que chegam a 80%, e vem acompanhada de uma análise econômica encomendada à consultoria Compass Lexecon, que teria documentado a perda relevante por pedido.

Além de pedir o processo, o iFood quer duas coisas mais duras: uma medida preventiva que obrigue a Keeta a parar imediatamente de vender abaixo do custo, e acesso periódico aos dados de custo e precificação da rival, para que o órgão antitruste faça um monitoramento independente. Lucas Pittioni, vice-presidente jurídico do iFood, resumiu assim: "É uma pena que tenhamos que desviar recursos que poderiam ser empregados para o setor evoluir, para fazer frente a uma guerra de subsídios que não se sustenta pelo mérito."

A Keeta respondeu chamando o movimento de estratégia monopolista, alegou que cupom é prática comum do mercado — inclusive do próprio iFood, via Clube iFood — e disse que sequer havia sido notificada. Tradução do juridiquês: "quem tem 'clube' com desconto não pode reclamar de desconto alheio". O argumento é conveniente, mas não é besta.

O outro processo, o que quase ninguém viu

Na quarta-feira veio a segunda rodada, e dessa vez quem perdeu foi a Keeta. Ela havia pedido ao Cade uma medida preventiva para derrubar o que chama de "cláusulas de banimento" nos contratos da 99Food com restaurantes — cláusulas de exclusividade que, segundo a denúncia, impedem a casa parceira de vender por plataformas concorrentes sob pena de multa. O tribunal negou o pedido no dia 2, permitindo que a 99Food mantenha os acordos vigentes enquanto a apuração continua. O relator, conselheiro Diogo Thomson de Andrade, determinou que a Superintendência-Geral aprofunde a investigação sobre esses contratos.

O histórico é uma novela em si: o inquérito foi aberto em março deste ano a partir de representação da Keeta, arquivado pela Superintendência-Geral em junho e reaberto em 1º de julho depois de recurso da própria Keeta. Cada um só enxerga o pecado do outro.

Vale lembrar o precedente que ninguém cita nesses comunicados: em acordo firmado com o Cade em 2023, o iFood ficou proibido de assinar exclusividade com redes de 30 ou mais restaurantes, e, para grupos menores, a exclusividade tem prazo máximo de dois anos. A regra existe porque esse filme já passou uma vez.

A conta que o dono do restaurante faz

Agora a parte que interessa a quem tem cozinha e não tem departamento jurídico. A tabela oficial do iFood para 2026 é pública: no Plano Básico, com entrega própria da casa, a comissão é de 12% sobre o valor do pedido, mais 3,2% de taxa de pagamento online e mensalidade de R$ 110 para quem fatura acima de R$ 1.800 por mês. No Plano Entrega, em que a logística é do aplicativo, a comissão sobe para 23%, mais os mesmos 3,2% e mensalidade de R$ 150. Some ainda a taxa de serviço de R$ 0,99 a R$ 2,49 por pedido — essa cobrada de você, cliente, e que fica integralmente com a plataforma.

Do outro lado, a 99Food voltou ao Brasil oferecendo comissão zero e mensalidade zero nos dois primeiros anos, cobrando só a entrega e os 3,2% do pagamento digital. E a Keeta chegou prometendo taxas menores que as do mercado — sem prometer taxa nenhuma. O CEO da operação no Brasil, Tony Qiu, foi bem direto sobre isso em entrevista à Exame: "Taxa zero é insustentável no longo prazo. Teremos taxas, mas serão menores do que as praticadas hoje no mercado."

Guarde essa frase. Ela é a coisa mais honesta dita nessa guerra toda, e vem justamente de quem está queimando dinheiro. Ninguém está construindo uma rede de 120 mil entregadores cadastrados e prometendo R$ 5,6 bilhões de investimento em cinco anos para ficar cobrando zero.

O tabuleiro do delivery em setembro de 2026:

iFood — Plano Básico: 12% de comissão + 3,2% de pagamento online + R$ 110/mês. Plano Entrega: 23% + 3,2% + R$ 150/mês. Taxa de serviço ao cliente: R$ 0,99 a R$ 2,49 por pedido
99Food — comissão e mensalidade zero nos dois primeiros anos; cobra entrega e 3,2% de pagamento digital
Keeta — R$ 5,6 bilhões previstos de investimento no Brasil em cinco anos e 120 mil entregadores cadastrados; promete taxa menor, não taxa zero
Na denúncia do iFood: cupons de até R$ 250 e descontos de até 80%, com prejuízo por pedido apontado em análise econômica encomendada à Compass Lexecon
O precedente de Hong Kong, citado pelo iFood: depois da saída da Deliveroo, a comissão local teria subido de 15% para algo entre 30% e 35% em um ano

Hong Kong é o argumento — e o fantasma

O trecho mais interessante da representação do iFood não é sobre o Brasil. É sobre Hong Kong. Segundo a denúncia, depois que a Deliveroo deixou aquele mercado, a comissão cobrada dos restaurantes saltou de 15% para a faixa de 30% a 35% em um ano, com a Keeta passando dos 50% de participação. E há a menção ao Kuwait, onde um concorrente local teria encerrado as operações dois meses depois da chegada da chinesa.

Pode-se dizer, com razão, que é o líder de mercado contando a história que lhe convém. Mas o mecanismo descrito não é ficção: é o manual clássico do subsídio de conquista. Primeiro o cupom, depois o hábito, depois a fatura. O cliente que hoje paga R$ 9 na marmita é o mesmo que, daqui a três anos, vai pagar R$ 52 nela — e o restaurante que hoje comemora o volume é o mesmo que vai descobrir que 30% do pedido não é dele.

É por isso que a discussão no Cade importa mais do que parece. Não se trata de escolher time entre um app verde, um amarelo e um chinês. Trata-se de definir se o preço que você vê hoje na tela é um preço ou uma promessa.

Enquanto os gigantes brigam, o setor encolhe o delivery

Tem um detalhe que desmonta o roteiro de todo mundo: o restaurante brasileiro está usando menos aplicativo, não mais. Pesquisa da Abrasel com 2.176 empresários mostra que a fatia de bares e restaurantes que opera com delivery caiu de 78%, em 2022, para 71% em 2025. E, na divisão do faturamento de entrega, os marketplaces ficam com 54%, mas o WhatsApp já responde por 26%, o aplicativo ou site próprio por 12% e o velho telefone por 8%. O WhatsApp está presente em 63% das casas.

Isso quer dizer que uma parcela relevante do setor já entendeu a matemática: a comissão de dois dígitos é sustentável para quem tem margem de indústria, não para quem tem margem de cozinha. O mesmo setor que faturou R$ 495 bilhões em 2025, contra R$ 455 bilhões em 2024, cresceu apenas 0,92% em termos reais em doze meses, descontada a inflação — ou seja, o volume subiu e o dinheiro no bolso quase não. Quem trabalha nessa faixa não tem 23% para dar.

O que fazer com isso na hora da fome

Três atitudes práticas, e nenhuma delas é moralista. Primeiro: aproveite o cupom, sim — a guerra é deles e o desconto é real enquanto durar. Só não organize sua vida em torno de um preço que uma das partes já admitiu ser insustentável.

Segundo: quando o restaurante for perto, peça direto. O WhatsApp da casa, o telefone, o site próprio, ou o velho ato de descer e buscar. Cada pedido feito fora do app é a diferença entre a cozinha ficar com 100% do seu dinheiro ou com 74%. Se você gosta do lugar e quer que ele exista no ano que vem, esse é o voto mais eficiente que você tem.

Terceiro: repare no cardápio. Quando o mesmo prato custa mais caro no aplicativo do que no balcão, não é o dono sendo esperto — é a comissão aparecendo. E quando ele custa o mesmo, alguém está absorvendo aquele percentual, e não é a plataforma.

O cupom de R$ 250 não é um presente: é o primeiro capítulo de um contrato que você não assinou, mas vai pagar.

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