A picanha ficou mais cara de novo — e o motivo é uma vaca que não nasceu

A picanha ficou mais cara de novo — e o motivo é uma vaca que não nasceu

O preço da carne bovina deve subir até 7% até agosto de 2026, com reajustes mensais de 2% a 3%. A causa não é especulação de açougueiro: é uma conta que começou há dois anos, quando o Rio Grande do Sul abateu fêmeas demais numa crise agrícola — e hoje faltam bezerros.

SaborCidade ·

Você chega no açougue, pede a picanha de sempre, e o preço por quilo subiu outra vez. Não foi o açougueiro que resolveu ficar ganancioso do dia para a noite. O motivo dessa alta começou a ser plantado — ou melhor, deixou de ser plantado — há mais ou menos dois anos, quando uma vaca que deveria ter virado bezerro foi parar no abatedouro em vez do pasto.

O preço da carne bovina deve subir até 7% até o fim de agosto de 2026, segundo projeções do setor, com reajustes mensais estimados entre 2% e 3% nos próximos meses. No acumulado de 12 meses, a alta já soma 12,24%, puxada especialmente pelo peito (+17,04%) e pela capa de filé (+16,69%). A picanha, o corte mais cobiçado do churrasco brasileiro, subiu 7,68% no período — menos que a média, mas ainda assim doendo no bolso de quem organiza o domingo de fogo de chão.

O ciclo pecuário que ninguém vê até chegar a conta

A explicação técnica vem do que o setor chama de ciclo pecuário: a pecuária de corte trabalha com uma defasagem de anos entre a decisão de criar (ou abater) uma fêmea e o efeito no volume de carne disponível para abate. Júlio Barcellos, coordenador do Nespro — Núcleo de Estudos em Sistemas de Produção de Bovinos de Corte e Cadeia Produtiva, da UFRGS —, já projetava esse cenário desde outubro do ano passado: quando pecuaristas abatem fêmeas em vez de guardá-las para reprodução, a conta chega dois, três anos depois, na forma de menos bezerro nascendo e menos boi gordo pronto para o abate.

No Rio Grande do Sul, essa dinâmica ganhou um acelerador extra: a crise agrícola do estado, somada à falta de crédito para o produtor rural, levou parte dos pecuaristas a abater mais matrizes do que o recomendável, numa tentativa de fazer caixa no curto prazo. O resultado, hoje, é um rebanho reprodutivo mais enxuto — e menos animal nascendo para repor o que sai do sistema.

Por que a picanha custa mais:

• Alta projetada da carne bovina: até 7% até agosto de 2026
• Reajuste mensal estimado: 2% a 3% por mês nos próximos meses
• Alta acumulada em 12 meses: 12,24%
• Peito: +17,04% · Capa de filé: +16,69% · Picanha: +7,68%
• Exportações brasileiras de carne bovina: 357 mil toneladas em outubro de 2025, recorde mensal desde 1997
(Fonte: Nespro/UFRGS, dados de mercado do setor pecuário)

O Brasil vendendo o boi para o mundo — e ficando com menos

A alta interna também tem um componente de sucesso, ironicamente. As exportações brasileiras de carne bovina bateram recorde mensal em outubro de 2025: 357 mil toneladas, o maior volume desde o início da série histórica, em 1997. Quando o boi brasileiro vira produto de exportação valorizado — puxado por demanda da China e de outros mercados asiáticos —, o mesmo animal que abasteceria o açougue da esquina compete, na balança do frigorífico, com o comprador internacional que paga em dólar.

É a mesma lógica que já apertou o preço do café, da soja e de outras commodities agrícolas brasileiras: o Brasil produz volume recorde, exporta volume recorde, e o consumidor interno sente o aperto porque parte do que seria consumido aqui virou contêiner no porto de Santos. Ninguém erra fazendo esse comércio — é bom para o agronegócio e para a balança comercial —, mas o efeito colateral chega direto no seu churrasco de fim de semana.

Um espelho do que já aconteceu nos Estados Unidos

O Brasil não está sozinho nessa curva. Nos Estados Unidos, a carne resfriada subiu 11% e a carne moída 14% nos últimos 12 meses — e, mesmo assim, as vendas por lá cresceram 74% para carne resfriada e 89% para carne moída no mesmo período. Ou seja: o consumidor americano viu o preço subir e comprou mais, não menos. É sinal de que a proteína bovina, mesmo mais cara, continua sendo item que o consumidor não abre mão fácil — o que, para quem vende carne, é a pior notícia possível: significa que dá para continuar subindo o preço sem perder cliente.

O evento que reuniu o setor para discutir esse cenário — o 21º Encontro Nespro e o 2º Congresso de Criadores, realizado em maio em Porto Alegre — reforçou o diagnóstico: a reposição do rebanho brasileiro é lenta, o crédito rural segue apertado no Sul, e a demanda — interna e externa — não dá sinal de arrefecer. Ou seja: o alívio no preço não vem no curto prazo.

O que fazer com o churrasco de domingo

Na prática, isso significa repensar o corte, não abandonar o churrasco. Cortes que subiram menos que a média — como a própria picanha, relativamente, frente ao peito e à capa de filé — continuam sendo a opção mais equilibrada entre preço e tradição. Vale também considerar cortes de segunda que ganharam técnica de preparo nas redes sociais nos últimos anos, como a fraldinha e o miolo de acém, que entregam sabor por um custo por quilo bem menor.

E vale fazer as contas antes de reclamar só do açougueiro: quem decide se cria ou abate uma vaca hoje está decidindo, sem saber, o preço da picanha de daqui a dois anos. A cadeia da carne tem memória longa — e cobra a conta de decisões tomadas muito antes de você notar a etiqueta mudar.

O boi que devia nascer não nasceu, e é isso que está na sua nota fiscal. Churrasco no Brasil sempre foi ritual de fartura — só que, por enquanto, a fartura ficou mais cara de sustentar.

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