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O pó de café caiu 17% no ano, o cafezinho subiu 5,5% — e o dólar da eleição virou a nova desculpa

O pó de café caiu 17% no ano, o cafezinho subiu 5,5% — e o dólar da eleição virou a nova desculpa

O dólar saltou 9% no dia seguinte ao segundo turno e, segundo o Cepea, segurou o preço do café no Brasil mesmo com o grão despencando lá fora. Mas a conta do balcão não fecha: o café moído acumula queda de 17,24% em 2026 no IPCA-15, enquanto o cafezinho servido fora de casa subiu 5,54%. Entenda o que o câmbio muda de verdade na sua xícara.

SaborCidade · · 6 min de leitura

Prepare-se: nas próximas semanas, alguém vai justificar o aumento do seu espresso com "o dólar disparou". É verdade que disparou. Na segunda-feira (26), primeiro dia útil depois do segundo turno, a cotação Ptax do dólar ficou em R$ 5,50, contra R$ 5,04 na sexta anterior — um salto de 9,2% num único pregão, segundo o Banco Central. Na terça (27), recuou para R$ 5,33.

E o café sentiu. O Cepea, centro de pesquisa da Esalq/USP, avaliou nesta quarta (28) que o dólar em alta está sustentando os preços do café no mercado brasileiro. Antes de aceitar a desculpa, porém, vale olhar o que aconteceu com o pó no supermercado e com o cafezinho no balcão ao longo do ano. Os dois números contam histórias bem diferentes.

Lá fora o grão cai; aqui o dólar segura

O movimento é quase didático. O indicador Cepea/Esalq do arábica tipo 6, a referência do café negociado em São Paulo, valia US$ 320,90 por saca de 60 kg na sexta (23). Na terça (27), estava em US$ 301,76 — queda de 6% em dólar. Em reais, porém, foi de R$ 1.601,95 para R$ 1.610,19: praticamente parado, até um pouco mais caro.

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Ou seja: o produtor brasileiro recebe menos dólares por saca, mas cada dólar vale mais reais. Quem compra o grão aqui dentro — torrefação, cafeteria, padaria — não viu o alívio que o mercado internacional prometia. No mês, o arábica acumula alta de 2,11% em reais, segundo o Cepea. O robusta (conilon), usado em blends mais baratos e no café solúvel, fechou a terça em R$ 967,97 a saca.

E o mercado internacional prometia, sim. Segundo relatório do Rabobank divulgado no dia 19 e citado pela Revista Espresso, o arábica negociado em Nova York caiu 15,1% em setembro, com o mundo saindo da preocupação com quebra de safra para a perspectiva de sobra. A Organização Internacional do Café estima superávit de 3 milhões de sacas no ano-cafeeiro 2025/26, depois de quatro anos de déficit. O Brasil exportou 3,89 milhões de sacas em setembro, alta de 3,1% sobre um ano antes, segundo o Cecafé.

O pó caiu. O cafezinho, não.

Aqui está a parte que ninguém vai contar no balcão. O IPCA-15 de outubro, a prévia da inflação oficial, divulgada pelo IBGE, mostra o café moído com queda de 1,16% no mês e de 17,24% no acumulado de 2026. O pacote do supermercado está, em média, quase um quinto mais barato do que em janeiro.

O cafezinho — o item que o IBGE acompanha para o café servido em bares, padarias e lanchonetes — fez o caminho oposto: alta de 5,54% no ano, mais que a inflação geral do período, de 4,15%. Em outubro, caiu 0,77%, um respiro tímido. A alimentação fora de casa como um todo sobe 5,07% em 2026.

Café em outubro de 2026 — os números

• Dólar Ptax: R$ 5,04 (sexta, 23) → R$ 5,50 (segunda, 26) → R$ 5,33 (terça, 27)
• Arábica Cepea/Esalq: US$ 320,90 → US$ 301,76 por saca (-6%), mas R$ 1.601,95 → R$ 1.610,19 em reais
• Arábica em Nova York em setembro: -15,1% (Rabobank)
• Superávit mundial previsto para 2025/26: 3 milhões de sacas, após quatro anos de déficit (OIC)
• IPCA-15 de outubro — café moído: -1,16% no mês e -17,24% no ano
• IPCA-15 de outubro — cafezinho: -0,77% no mês e +5,54% no ano
• Inflação geral (IPCA-15) acumulada no ano: 4,15%

Fontes: Banco Central (Ptax), Cepea/Esalq-USP, IBGE (IPCA-15 de outubro), Rabobank e OIC via Revista Espresso, Cecafé e Canal Rural.

Por que o cafezinho não acompanha o pó

Não é só ganância — mas também não é só dólar. No preço de uma xícara servida, o grão é a menor parte. Façamos a conta do SaborCidade: um coado usa cerca de 15 gramas de café torrado, o que pede perto de 18 gramas de grão cru, porque o café perde peso na torra. Com a saca do arábica a R$ 1.610, o quilo do grão cru sai a uns R$ 26,80. A matéria-prima de uma xícara fica em torno de R$ 0,48.

Agora aplique os 9% do dólar sobre isso, mesmo supondo que o câmbio passasse inteiro para o grão (não passa): dá uns R$ 0,04 a mais por xícara. Quatro centavos. O resto do preço do seu espresso de R$ 7 é aluguel, salário, energia, leite, açúcar, copo, máquina, impostos e margem — e esses custos sobem com a inflação de serviços, não com a bolsa de Nova York.

É por isso que o cafezinho tem "efeito catraca": sobe quando o grão sobe, e não desce quando o grão desce. Quando o arábica bateu recorde, em 2025, o balcão repassou. Quando o grão caiu 17% no supermercado, o balcão segurou. Em setembro, quando o IBGE registrou a maior queda do café desde o Plano Real, a cafeteria já não tinha ficado sabendo. Se agora alguém usar o dólar de uma segunda-feira para reajustar de novo, a conta está mal contada.

O que fazer na prática

Em casa, o momento é bom. O pó está muito mais barato do que no começo do ano, e o dólar não deve desfazer essa queda de um dia para o outro: entre a saca e a gôndola há torrefação, estoque e contrato. Se você toma três cafés por dia na rua, vale refazer a conta do nosso guia de café na cafeteria versus em casa — e, se for passar em casa, o guia do coado resolve.

Na cafeteria, pague pelo que tem valor. Café especial, barista que sabe extrair, grão de origem rastreável: isso custa mais e justifica preço. O que não justifica é o espresso de blend comercial subir porque "o dólar disparou". Se a sua padaria reajustar o pingado esta semana, pergunte — com educação — se o pó dela também ficou 17% mais barato este ano.

Na semana passada, contamos aqui que um café de Minas foi vendido a R$ 134 mil a saca em Tóquio enquanto o grão comum caía. O dólar não muda essa história. O café de vitrine segue com preço de vitrine; o café de commodity segue barateando, só que mais devagar.

O grão já baixou. Falta o cafezinho perceber.

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