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O café teve a maior queda desde o Plano Real — e a sua cafeteria não ficou sabendo

O café teve a maior queda desde o Plano Real — e a sua cafeteria não ficou sabendo

O café moído acumulou queda de 17,2% em doze meses, a maior desde que o real existe, empurrada por uma safra que deve ser a maior da história. Só que o grão que a cafeteria compra — o especial — subiu 16,9% no mesmo intervalo. Sua xícara não caiu porque ela nunca esteve na mesma prateleira.

SaborCidade · · 7 min de leitura

Você foi ao supermercado nas últimas semanas e teve uma sensação estranha: o pacote de café estava mais barato. Não um pouquinho — visivelmente mais barato do que aquele susto de 2025, quando meio quilo virou item de orçamento familiar. Aí você passou na cafeteria da esquina, pediu o de sempre, e o preço estava exatamente onde estava. Ou pior.

Você não está delirando, e não é a cafeteria sendo mesquinha por esporte. São dois mercados diferentes usando a mesma palavra. E os números desta temporada explicam a distância entre eles com uma clareza quase cruel.

A maior queda desde que o real existe

Comecemos pelo dado que fez manchete. Segundo o IBGE, o café moído acumulou deflação de 17,2% nos doze meses até julho — a maior queda registrada desde o início do Plano Real, em julho de 1994. Não é uma acomodação de preço; é a maior devolução de alta que essa mercadoria já teve em mais de trinta anos de moeda estável.

E é bem distribuída pelo país. Em Belo Horizonte a queda em doze meses foi de 23,51%; no Rio, 21,33%; em Curitiba, 20,49%; em São Paulo, 18,38%. Nas pontas mais tímidas ficaram São Luís, com 8,13%, e Aracaju, com 7,48%. Na prática paulistana, o pacote de 500 gramas custou em média R$ 25,51 em junho — 17,55% a menos do que um ano antes.

Antes que alguém comemore demais, o gerente do IPCA no IBGE, Fernando Gonçalves, já colocou o freio: "O café estava com base alta. Está caindo, mas ainda não devolveu o que subiu." A tradução é simples e desagradável: aquele mesmo pacote de 500 gramas custava R$ 22,65 em janeiro de 2025. Você está pagando menos do que no auge, e ainda mais do que antes da festa começar. O preço não voltou — ele só parou de fugir.

Por que caiu: o Brasil vai colher o maior café da sua história

A explicação está no campo, e é generosa. No segundo levantamento da safra, divulgado em maio, a Conab projetou 66,7 milhões de sacas para 2026 — alta de 18% sobre o ano anterior e um volume que supera em 5,74% o recorde anterior, as 63,08 milhões de sacas de 2020. O arábica, que é o grão da xícara boa, salta 28% e chega a 45,8 milhões de sacas. O conilon, mais usado em blends e solúveis, sobe 0,8%, para 20,9 milhões.

Não é só área plantada: a produtividade média nacional deve subir 13% e chegar a 34,4 sacas por hectare, numa área total de 2,34 milhões de hectares. Minas Gerais sozinha responde por 33,4 milhões de sacas, com alta de quase 30%. É bienalidade positiva do arábica somada a chuva na hora certa da florada — a combinação que todo cafeicultor pede em oração e que raramente vem junta.

Mais grão disponível, indústria remontando estoque, supermercado com prateleira cheia: o resultado é a deflação que você viu. E o consumidor respondeu na hora. A Abic mediu alta de 2,44% no consumo interno no primeiro quadrimestre de 2026, com 4,9 milhões de sacas, depois de o mesmo período de 2025 ter registrado queda de 5,31% por causa do preço. Quando o café baixa, o brasileiro volta a encher a garrafa térmica. Não é sofisticado, é fisiológico.

O detalhe que a manchete não conta: nem todo café caiu

Aqui está a parte que interessa a quem toma café fora de casa. A Abic acompanha oito categorias de café. Cinco caíram — e três subiram. O café tradicional recuou 15,51% em um ano, com o quilo a R$ 55,34 em abril. Mas os cafés especiais subiram 16,9%. O descafeinado subiu 21%. O solúvel avançou 0,55%.

Leia de novo: o segmento que despencou é o do pacote de supermercado. O segmento que encareceu quase 17% é exatamente aquele que a cafeteria de bairro usa no moedor, aquele do rótulo com origem, altitude, nota de degustação e pontuação. A cafeteria não está ignorando a queda do café. Ela está comprando outro café, que não caiu.

Faz sentido do lado da lavoura, aliás. Segundo o Cepea, os preços do arábica avançaram em agosto sustentados por dois fatores: estoques certificados baixos na Bolsa de Nova York e, principalmente, qualidade inferior dos grãos da safra 2026/27. Chuvas fortes em junho e julho nas principais regiões produtoras atrapalharam a secagem e aumentaram a participação de bebidas inferiores. Ou seja: tem muito café, mas tem menos café bom. E é o café bom que vai para o espresso da sua rua.

O café brasileiro em dois mercados, em 2026:

Café moído no varejo: queda de 17,2% em 12 meses até julho, a maior desde o início do Plano Real (IBGE)
Por capital: Belo Horizonte -23,51%, Rio -21,33%, Curitiba -20,49%, São Paulo -18,38%, São Luís -8,13%, Aracaju -7,48%
Mas os cafés especiais subiram 16,9%, o descafeinado 21% e o solúvel 0,55% (Abic)
Safra 2026: 66,7 milhões de sacas projetadas pela Conab, alta de 18% e recorde histórico; arábica +28%
Consumo interno: +2,44% no primeiro quadrimestre, 4,9 milhões de sacas, depois de -5,31% no mesmo período de 2025
Fora de casa: no IPCA-15 de agosto, o café moído caiu 2,31%, enquanto a alimentação fora do domicílio subiu 0,42% e o lanche, 0,75%

A conta do balcão, sem romantismo

Vale entender o que acontece do outro lado da máquina, porque a cafeteria também não está nadando em dinheiro. Numa xícara, o grão nunca foi o item caro. O que pesa é o aluguel do ponto, a máquina, o barista, o leite, a embalagem, a energia e o cartão. Por isso a queda do saco de café não aparece no cardápio na mesma proporção — ela é uma fração pequena de um custo que subiu em quase todas as outras linhas.

Os índices oficiais confirmam essa assimetria. No IPCA-15 de agosto, o café moído — item de supermercado — recuou 2,31% no mês. No mesmo índice, a alimentação fora do domicílio subiu 0,42%, com a refeição em 0,25% e o lanche acelerando para 0,75%. É a fotografia exata do descompasso: o que você leva para casa está barateando, o que você consome sentado está encarecendo.

O que não dá para aceitar é o discurso. Quando uma cafeteria justifica um aumento dizendo que "o café subiu muito", em 2026 essa frase precisa de qualificação. Subiu o especial. O tradicional teve a maior queda em três décadas. Se a casa serve especial de origem rastreada, ela tem razão e deveria dizer isso no cardápio com orgulho. Se ela serve blend comercial e cobra como especial, aí é outra conversa.

O que fazer com isso na próxima xícara

Primeiro: faça o café em casa sem culpa. Este é, provavelmente, o melhor momento em anos para comprar grão bom no varejo. O pacote está mais barato, a oferta está alta e a Conab divulga o terceiro levantamento da safra no dia 24 — se confirmar o recorde, a tendência é de mais alívio no repasse à indústria.

Segundo: se for pagar caro fora, pague por informação. Peça para ver o pacote. Origem, produtor, altitude, data de torra. Café especial de verdade tem data de torra e não tem vergonha de mostrar. Se o rótulo não diz nada, você está pagando preço de especial por commodity — e num ano em que a commodity caiu 17%, isso é uma escolha ruim.

Terceiro: prestigie quem baixou. Algumas casas repassaram a queda do grão para o coado, mantendo o espresso e as bebidas com leite no preço. Coado bem-feito, de grão bom, é o melhor negócio do balcão brasileiro neste momento — e é justamente o item que o marketing insiste em tratar como o café dos pobres.

O Brasil vai colher o maior café da sua história e o supermercado já baixou o preço. Se a sua xícara não baixou, a pergunta não é sobre a safra — é sobre o que exatamente está dentro dela.

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