
Três xícaras, uma diferente: o mineiro que virou tricampeão brasileiro de prova de café
Jacques Carneiro, da Unique Cafés, de Carmo de Minas, venceu no sábado (3) o Campeonato Brasileiro de Cup Tasters ao acertar seis de oito triangulações em 7 minutos e 28 segundos. Vai ao Mundial de 2027. O teste que ele domina é o mesmo que você pode fazer no balcão da sua cafeteria.
Você já pediu dois cafés diferentes na mesma cafeteria e achou que eram iguais? Não se culpe. Agora imagine fazer isso oito vezes seguidas, contra o relógio, com três xícaras na sua frente — duas idênticas e uma intrusa — e precisar apontar a diferente. É isso que fazem os provadores do Campeonato Brasileiro de Cup Tasters. E é nisso que um mineiro de Carmo de Minas acaba de ganhar pela terceira vez.
Jacques Pereira Carneiro, cofundador e diretor de inovação da Unique Cafés, venceu a final no sábado (3), em Reduto, na Zona da Mata mineira, segundo a Revista Espresso. Acertou seis dos oito conjuntos de xícaras em 7 minutos e 28 segundos. Com o título, representa o Brasil no World Cup Tasters Championship de 2027, que ainda não tem data nem sede definidas pela Specialty Coffee Association (SCA).
Como funciona a prova
O nome técnico é triangulação. Cada competidor recebe oito "triângulos" de três xícaras. Em cada um, duas têm o mesmo café e uma tem outro. Ele prova, cheira, compara e empurra para fora a xícara que acha diferente. Ganha quem acerta mais. Se empatar, vence quem terminou mais rápido.
Parece fácil até você descobrir que os organizadores não colocam um café de supermercado ao lado de um especial. A graça está em diferenças sutis: o mesmo grão com torra um pouco diferente, duas fazendas vizinhas, dois processos de secagem. É como distinguir dois tons de branco numa parede — com a boca.
A edição foi organizada pela Associação Brasileira de Cafés Especiais (BSCA), de 1º a 3 de outubro, dentro da primeira edição do Arábica Coffee Festival. Bruno Megda, de Cabo Verde (MG), ficou em segundo, e José Augusto Naves, da Naves Comércio de Café, de Varginha (MG), em terceiro. O pódio inteiro é mineiro, o que diz bastante sobre onde está o paladar treinado do café brasileiro.
• Campeão: Jacques Carneiro (Unique Cafés, Carmo de Minas-MG), 3º título nacional
• Resultado da final: 6 de 8 triangulações em 7min28s
• 2º lugar: Bruno Megda (Cabo Verde-MG); 3º: José Augusto Naves (Varginha-MG)
• Local: Reduto (MG), no 1º Arábica Coffee Festival, de 1º a 3 de outubro; organização da BSCA
• Prêmio: vaga no Mundial de 2027 (SCA, data e sede a definir)
• Melhor brasileiro na história do Mundial: Dionatan de Almeida, campeão em 2024, em Chicago
• Próximo encontro do setor: Semana Internacional do Café, 11 a 13 de novembro, em Belo Horizonte
Fontes: Revista Espresso, BSCA e organização da SIC 2026.
Vinte anos entre o primeiro e o terceiro título
O primeiro título de Carneiro veio em 2006. Rendeu vaga no Mundial de 2007, onde terminou em terceiro — por muito tempo a melhor colocação de um brasileiro. A marca só caiu em 2024, quando Dionatan de Almeida, de Três Pontas (MG), virou o primeiro brasileiro campeão mundial da modalidade, em Chicago.
O segundo título é deste ano mesmo. Em março, Carneiro venceu a edição anterior do campeonato, no Festival Mantiqueira de Minas, e foi ao Mundial disputado dois meses depois em Bangcoc, na Tailândia. Por isso o Brasil teve dois campeonatos nacionais em 2026 — e, desta vez, com o Mundial ainda sem data, o campeão terá meses para se preparar, e não semanas. "Desta vez, estava mais solto e conhecedor das regras para poder definir estratégias diferentes para cada rodada", disse ele à Revista Espresso.
Para 2027, o plano é treinar cerca de cinco horas por semana só de prova sensorial. "Quero alcançar uma boa colocação", afirmou. Cinco horas semanais de degustação às cegas é mais tempo do que muita gente passa escolhendo o que vai almoçar no mês.
Por que isso importa para a sua xícara
Cup tasting não é só esporte de nicho. O provador é quem decide, na fazenda, na cooperativa e na torrefação, qual lote vira café especial e qual vai para o blend comum. Quem acerta triangulação acerta também a consistência: percebe quando a torra de hoje saiu diferente da de ontem antes que o cliente perceba.
É a mesma habilidade que separa a cafeteria boa da que só tem máquina cara. O barista que prova o espresso antes de abrir a casa, ajusta a moagem e descarta a primeira extração ruim está fazendo uma versão caseira do que Carneiro faz no palco. Se quiser entender as diferenças que esses provadores enxergam, o nosso guia de café especial versus tradicional é um bom começo.
Faça o teste na sua cafeteria
Você não precisa de campeonato para treinar. Muitas cafeterias de café especial oferecem a degustação em sequência — duas ou três xícaras pequenas de origens diferentes, servidas lado a lado. Peça, prove do mais leve ao mais intenso e tente descrever o que muda: acidez (aquela sensação que lembra fruta), corpo (o peso na boca), doçura, final.
Outra opção é pedir o mesmo grão em dois métodos de preparo, um coado e um espresso, por exemplo. A diferença é maior do que parece, e ajuda a entender por que o mesmo pacote rende xícaras tão distintas. E se você estiver em Minas em novembro, a Semana Internacional do Café, de 11 a 13, em Belo Horizonte, abre o último dia ao público e tem salas de prova com cafés do Cerrado Mineiro, do Espírito Santo e do Campo das Vertentes.
O Brasil produz mais café do que qualquer país e ainda bebe, em boa parte, sem prestar atenção. Ter um tricampeão de prova não muda o preço do pacote no mercado. Muda, com sorte, a pergunta que você faz no balcão.
Três xícaras, uma diferente. Acertar não é dom — é treino. E o treino começa na próxima vez em que você pedir café e realmente provar.
