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O café solúvel cresceu 11,9% enquanto você discutia a temperatura da água do coado

O café solúvel cresceu 11,9% enquanto você discutia a temperatura da água do coado

O pó instantâneo que a cafeteria de especialidade finge que não existe é o produto que mais avança no Brasil e no exterior: 19,7 mil toneladas consumidas aqui em oito meses e 65,3 mil embarcadas para fora. E o tipo mais caro é justamente o que cresce mais rápido.

SaborCidade · · 6 min de leitura

Existe uma hierarquia não escrita no mundo do café brasileiro, e todo mundo conhece: no topo, o grão de fazenda com nota de prova e data de torra; no meio, o pó tradicional do supermercado; e lá no fim, com cara de parente pobre, o solúvel — aquele vidro que sua avó tem no armário e que o barista olha de lado. Pois os números acabaram de embaralhar a fila. O parente pobre está crescendo mais rápido que quase todo mundo.

Segundo o relatório da Abics, a associação da indústria brasileira de café solúvel, o consumo interno do produto somou 19,7 mil toneladas nos oito primeiros meses do ano — alta de 11,9% sobre o mesmo período do ano passado. As exportações foram ainda melhor: 65,3 mil toneladas, o equivalente a 2,83 milhões de sacas de 60 kg, 12,8% acima das 57,9 mil toneladas embarcadas de janeiro a agosto de 2025.

Não é só volume — é o solúvel caro que está puxando

Aqui está o dado que estraga a piada de quem torce o nariz. O crescimento não veio do pó mais barato: veio dos dois tipos, e o mais caro cresceu mais. O spray dried avançou 11,7%; o freeze dried, 13,3%.

Vale traduzir o técnico-chique, porque a diferença é real e aparece na xícara. No spray dried, o extrato de café é pulverizado dentro de uma torre de ar quente e seca na queda — é rápido, é barato e é também onde se perdem os aromas mais delicados, porque volátil que encontra calor vira memória. No freeze dried, o liofilizado, o extrato é congelado e a água sai por sublimação, passando direto de gelo para vapor sob vácuo, sem nunca virar líquido. Custa mais, demora mais e preserva muito mais aroma — por isso o grânulo é aquele pedaço irregular escuro, e não um pó fino uniforme.

Quando a categoria premium cresce mais que a popular, o recado é o de sempre: o brasileiro não desistiu do solúvel, ele subiu de faixa dentro do solúvel. É o mesmo movimento que aconteceu com cerveja, com chocolate e com azeite — só que ninguém escreveu ensaio sobre isso, porque envolve um vidro com tampa dourada.

O solúvel brasileiro em 2026 (dados da Abics, acumulado até agosto):

• Consumo interno: 19,7 mil toneladas, alta de 11,9%
• Exportações: 65,3 mil toneladas (2,83 milhões de sacas), alta de 12,8%
• Só em agosto: 7,7 mil toneladas embarcadas, +24,9% sobre agosto do ano passado
Freeze dried (liofilizado): +13,3%  |  spray dried: +11,7%
• União Europeia: +44,2% no ano, 13,1 mil toneladas
• Estados Unidos: -6,1% no acumulado, mas +86,8% em agosto, o primeiro mês cheio sem o tarifaço

A geopolítica entrou na sua xícara

Duas canetadas explicam boa parte do salto. A primeira foi o acordo provisório de comércio entre Mercosul e União Europeia, que entrou em vigor em maio e abriu espaço num bloco que já é o principal destino do solúvel brasileiro — resultado: 44,2% de alta no ano, para 13,1 mil toneladas. A segunda foi a retirada do tarifaço americano: os Estados Unidos ainda acumulam queda de 6,1% no ano, mas agosto, primeiro mês completo depois da liberação, veio 86,8% acima do mesmo mês do ano anterior. É o tipo de número que só aparece quando havia demanda represada esperando do outro lado da alfândega.

Com exceção de janeiro, todos os meses de 2026 igualaram ou superaram os volumes do ano passado — e junho chegou a 38,9% de alta. A indústria já fala abertamente em recorde histórico, tanto em exportação quanto em consumo interno. Para um país que exporta majoritariamente grão verde, ou seja, matéria-prima para que outros ganhem a margem, vender café já industrializado é a diferença entre ser fornecedor e ser fabricante.

O problema chega em 2027, e ele tem nome de sigla

Agora a parte que ninguém comemora. Historicamente, a indústria de solúvel conta com um crédito presumido de PIS/Cofins sobre a compra do café verde — 7,4% do valor da matéria-prima, criado justamente para estimular a industrialização aqui dentro. Com a reforma tributária, o benefício já caiu para 6,66% neste ano e será extinto por completo a partir de 2027.

E o café não entrou na Cesta Básica Nacional com alíquota zero de CBS e IBS? Entrou. Só que desonerar a venda não é a mesma coisa que baratear a compra: o crédito servia para reduzir o custo do insumo, e a alíquota zero na ponta não devolve esse dinheiro para a fábrica. Na prática, a partir do ano que vem entra na estrutura de custo um valor que antes era compensado — e custo que entra na indústria raramente fica na indústria.

A associação diz estar conversando com governo e Congresso em busca de transição ou compensação. Até agora, nenhum sinal de recuo. Traduzindo para o seu armário: o vidro de solúvel tem chance concreta de ficar mais caro em 2027, e dessa vez não será culpa do clima, da geada nem da bolsa de Nova York. Será planilha.

O que isso muda no balcão da cafeteria

Muda mais do que o pessoal do V60 gostaria de admitir. O solúvel não disputa o mesmo cliente do coado de R$ 18 — ele disputa o momento. Escritório sem máquina, viagem, plantão da madrugada, xícara rápida antes de sair de casa: são ocasiões em que ninguém vai moer grão, e é nelas que o instantâneo ganhou terreno enquanto o mercado de especialidade discutia perfil de torra.

Cafeteria inteligente já entendeu isso e vende sachê liofilizado do próprio grão na saída, com o mesmo cuidado de curadoria que coloca no coado. É margem alta, não exige barista e leva a marca da casa para dentro da mala do cliente — o que nenhuma xícara consumida no salão faz. Chamar isso de traição ao café de verdade é confundir método de extração com qualidade de matéria-prima: solúvel ruim é feito de café ruim, e não o contrário.

O Brasil passou décadas vendendo grão cru para o mundo torrar, industrializar e revender com margem. Agora exporta 2,83 milhões de sacas na forma de pó pronto e cresce em dois dígitos em casa. O café mais desprezado do armário é justamente o que está fazendo o país subir na cadeia — e ele nem precisou de um nome de fazenda no rótulo para isso.

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