
Um café de Minas saiu por R$ 134 mil a saca em Tóquio — e o preço do grão comum está caindo
Um gesha natural da Fazenda Santuário Sul, de Carmo de Minas, foi arrematado por US$ 200 a libra num leilão beneficente da Alliance for Coffee Excellence, recorde para um café brasileiro. No mesmo mês, o preço internacional do café comum recuou quase 9%. Entenda por que as duas notícias não se contradizem — e o que elas significam para quem paga o espresso no balcão.
Você paga R$ 7 num coado de padaria e já acha caro. Agora imagine pagar pelo grão cru — antes de torrar, moer e passar — o equivalente a R$ 134,6 mil por saca de 60 quilos. Foi o que uma torrefação japonesa topou pagar, na sexta-feira (16), por um café do sul de Minas Gerais.
O lote era um gesha natural da Fazenda Santuário Sul, em Carmo de Minas, na Mantiqueira, do produtor Luiz Paulo Dias Pereira Filho. Saiu por US$ 200 a libra-peso (cerca de 454 gramas) no leilão beneficente Lendas da Excelência, da Alliance for Coffee Excellence (ACE), realizado em Tóquio durante a SCAJ 2026, a feira mundial de cafés especiais do Japão. Quem arrematou foi a Snow Beans Coffee. É o maior preço já pago por um café brasileiro em leilões da ACE, segundo a Associação Brasileira de Cafés Especiais (BSCA).
Como um café chega a US$ 200 a libra
O leilão reuniu 12 produtores de seis países — Brasil, Costa Rica, El Salvador, Guatemala, Honduras e Nicarágua — que a ACE considera "lendas": gente que acumulou tantos prêmios no Cup of Excellence, o principal concurso de cafés especiais por país, que foi promovida a hors-concours e não pode mais competir. Luiz Paulo, quarta geração de cafeicultores em Carmo de Minas, soma 23 lotes finalistas no concurso e recebeu o título em 2025.
O lance inicial era de US$ 30 a libra. Terminou em US$ 200, quase sete vezes mais. O recorde brasileiro anterior era de US$ 143 a libra, de um gesha da Fazenda Primavera, de Angelândia (MG), vendido em 2018. O novo preço fica cerca de 40% acima.
O segundo brasileiro do pregão também passou da marca antiga: um café da variedade arara, natural, da Fazenda Sertãozinho, em Botelhos (MG), produzido pela Orfeu Cafés Especiais, saiu por US$ 151 a libra para a saudita Black Sip Coffee Roasters, de acordo com a Revista Espresso. O lance mais alto do leilão, porém, não foi nosso: um gesha lavado da Finca El Puente, de Honduras, chegou a US$ 333 a libra.
"Vendermos por US$ 200 a libra mostra que todo o trabalho feito pelo produtor é reconhecido globalmente", disse Luiz Paulo, em nota divulgada pela BSCA.
• Gesha natural da Fazenda Santuário Sul (Carmo de Minas-MG): US$ 200/libra, ou R$ 134.581,67 por saca de 60 kg (dólar a R$ 5,087)
• Tamanho do lote: 10 kg, total de US$ 4.409,24 (cerca de R$ 22,4 mil)
• Lance inicial: US$ 30/libra; recorde brasileiro anterior: US$ 143/libra (2018)
• Arara natural da Fazenda Sertãozinho (Botelhos-MG): US$ 151/libra
• Maior lance do pregão: US$ 333/libra, gesha de Honduras
• Na outra ponta: o indicador composto da Organização Internacional do Café caiu 8,7% de agosto para setembro; o arábica natural brasileiro, 9,9%
Fontes: BSCA, Alliance for Coffee Excellence, Forbes Brasil, Notícias Agrícolas, Revista Espresso e relatório de setembro da OIC.
Antes que alguém diga "olha o preço do café"
Calma. Esse número não tem nada a ver com o pacote do supermercado. Primeiro, porque o lote tinha só 10 quilos — a conta de R$ 134 mil por saca é uma conversão, não um caminhão de café vendido a esse preço. Segundo, porque o leilão era beneficente: os produtores doaram as caixas, e a ACE vai dividir a arrecadação entre projetos sociais nas comunidades produtoras e ações de educação sobre café pelo mundo.
E terceiro, porque o café comum está indo na direção contrária. Segundo o relatório de setembro da Organização Internacional do Café (OIC), citado pela Revista Espresso, o indicador composto do grão verde caiu 8,7% em um mês, para uma média de 262,18 centavos de dólar por libra. O arábica natural brasileiro teve a maior queda entre os grupos acompanhados: 9,9%. O motivo é a oferta: o Brasil exportou 2,92 milhões de sacas de arábica natural em agosto, o maior volume para o mês já registrado.
Ou seja: no mesmo outubro, o café de commodity barateia e o café de vitrine bate recorde. Não é contradição — são dois mercados que só dividem o nome. Um tem preço de bolsa; o outro, nome de produtor e nota de prova.
A conta da xícara
Façamos uma conta do SaborCidade, só para dar escala. A US$ 200 a libra, o quilo do grão cru desse gesha sai por volta de R$ 2.240. Uma dose de coado usa uns 15 gramas de café torrado — o que exige perto de 18 gramas de grão cru, porque o café perde peso na torra. Só a matéria-prima de uma xícara, portanto, ficaria em torno de R$ 40, sem barista, sem aluguel, sem leite, sem margem.
Com o arábica comum no mercado físico brasileiro — o indicador Cepea/Esalq estava em R$ 1.577 a saca no começo do mês — a mesma dose custa menos de R$ 0,50 em grão. É uma diferença de umas 85 vezes. Por isso nenhum café de leilão vai parar no cardápio fixo da cafeteria da sua rua: quando aparece, é em degustação, em quantidade mínima e com preço de evento.
O que isso muda para quem toma café no Brasil
Diretamente, quase nada no seu bolso. Indiretamente, bastante. Recorde em leilão é propaganda — e propaganda das boas — para a Mantiqueira de Minas, para o sul de Minas e para o café especial brasileiro, que por décadas foi visto lá fora como volume, não como qualidade. Quando torrefações de Tóquio e da Arábia Saudita disputam um café mineiro, as fazendas vizinhas vendem melhor os lotes de US$ 5 ou US$ 10 a libra. Esse é o café que, depois, chega às boas cafeterias daqui.
A variedade arara é um caso interessante. Ela foi lançada em 2012 a partir do trabalho do antigo Instituto Brasileiro do Café e da Fundação Procafé, com seleção acompanhada pelo agrônomo José Braz Matiello a partir de plantas de fruto amarelo achadas em 1987, no Paraná. Em 2025, apareceu em 16 dos 30 lotes premiados no Cup of Excellence brasileiro. É ciência agrícola nacional virando sabor.
Como aproveitar sem pagar R$ 40 por xícara
Peça na cafeteria um coado de origem única e pergunte de onde vem o grão. Se a casa souber dizer a fazenda, a região e a variedade, você está no lugar certo. Mantiqueira de Minas, Cerrado Mineiro, Matas de Minas e Alta Mogiana têm muito café premiado vendido a preço de gente. O guia café especial vs. tradicional explica o que separa um do outro; o de cafeterias ajuda a escolher onde pedir.
E fique de olho no preço do café comum. Se o grão continuar caindo nas próximas semanas, o cafezinho e o pingado — que subiram mais de 15% em um ano na padaria paulistana, segundo o levantamento do Procon-SP — deveriam parar de subir. Repasse na alta é rápido. Na baixa, costuma ter preguiça.
O café de US$ 200 é a manchete. O café de R$ 7 é a sua manhã — e é nele que vale exigir que a queda do grão chegue ao balcão.
