Quem diz "vinho brasileiro" está quase sempre falando daqui. O Vale dos Vinhedos é um recorte pequeno da Serra Gaúcha, uns 80 km² espremidos entre Bento Gonçalves, Garibaldi e Monte Belo do Sul, colonizado por vênetos a partir de 1875, que em 2002 ganhou a primeira Indicação de Procedência de vinho do país e, em 2012, a primeira e até hoje única Denominação de Origem. Na prática: o Merlot e o espumante que levam o selo do Vale precisam ser feitos com uva daqui, com rendimento limitado por hectare e aprovados em painel de prova.
A rota funciona porque é curta. Em dois dias de carro você visita seis vinícolas, anda de Maria Fumaça, almoça polenta brustolada numa casa de pedra de 1880 e ainda volta para dormir em Caxias do Sul, a 40 km, ou em Porto Alegre, a 120. O que muda em relação a qualquer outra rota de vinho do mundo é o preço da visita e a comida que vem junto: aqui a degustação custa o que um par de taças custa num bar de São Paulo, e ninguém sai da vinícola sem passar por um café colonial.
O que se bebe: espumante primeiro, Merlot depois
O produto que dá certo no Vale é o espumante. O clima frio e úmido, que atrapalha a maturação de tintos encorpados, é exatamente o que uma base de Chardonnay e Pinot Noir precisa: acidez alta e álcool baixo. Garibaldi se vende como a capital nacional do espumante e tem razão histórica, porque a Peterlongo engarrafou o primeiro espumante brasileiro ali em 1913 e a Chandon escolheu a cidade para a sua única filial fora da França em 1973. Nas provas cegas internacionais, é o espumante do Vale, não o tinto, que costuma trazer medalha.
Entre os tintos, o Merlot é a uva da DO. Ele amadurece antes da Cabernet, escapa das chuvas de março e dá um vinho macio, de fruta vermelha, que combina com a comida gordurosa da região. Se quiser o que os produtores bebem em casa, peça um Merlot da safra mais recente, não o reserva mais caro da prateleira. Espere pagar entre R$ 60 e R$ 150 por garrafa na vinícola, e o dobro disso na carta de um restaurante de capital, o que faz da loja da vinícola o único lugar do Brasil onde comprar vinho nacional é vantagem. Nosso guia sobre por que a mesma garrafa custa 4x mais no bar explica a conta, e ela vale igual para o vinho.
O que se come: a mesa da colônia
A cozinha do Vale é a cozinha do imigrante vêneto adaptada ao Rio Grande: fartura, gordura e pouca cerimônia. O prato-símbolo é o galeto al primo canto, frango jovem de uns 25 dias assado no espeto, sequência que nasceu em Caxias do Sul na década de 1950 e virou o "rodízio" da serra: vem com sopa de capeletti, polenta brustolada, radicci com bacon, salada de maionese e sagu com vinho no fim. Custa entre R$ 70 e R$ 110 por pessoa nas galeterias tradicionais e não há como sair com fome. Se você acha rodízio de churrascaria uma cilada, leia como o rodízio funciona antes, porque aqui a lógica é a mesma, com menos carne e mais massa.
O café colonial é a outra instituição: mesa posta com cucas, salames, queijos, geleias, pães e pelo menos três tipos de bolo, servida das 15h às 19h, por R$ 60 a R$ 90 por pessoa. Não é lanche, é a refeição da tarde, e quem almoça galeto e emenda no café colonial não janta. Nas vinícolas maiores o almoço é harmonizado, o que no Vale quer dizer que a taça acompanha o prato sem cerimônia de sommelier.
Como andar pela rota
A porta de entrada é Bento Gonçalves. Dali saem três roteiros que cabem em um dia cada: o Vale dos Vinhedos propriamente dito (a estrada RS-444, que enfileira as vinícolas grandes), os Caminhos de Pedra (a estrada rural com as casas dos primeiros imigrantes, moinhos e cantinas familiares no distrito de São Pedro) e a Maria Fumaça, o trem a vapor que liga Bento a Garibaldi e Carlos Barbosa em 23 km de ferrovia, com música, vinho e espumante servidos a bordo. Compre o trem com antecedência nos fins de semana; lota.
Carro é obrigatório fora do centro de Bento. Não há transporte público entre as vinícolas, e o motorista da vez não bebe, o que é uma pena numa rota de vinho. A alternativa é contratar um roteiro com condutor, que custa em torno de R$ 250 a R$ 400 por pessoa no dia inteiro com visitas incluídas. Quem chega de avião aterrissa em Caxias do Sul (o mais perto, 40 km) ou em Porto Alegre (120 km pela BR-116 e pela RS-470).
As cidades da rota
Na ordem do roteiro. As que estão no diretório levam à lista de restaurantes, bares e cafeterias com endereço e telefone.
A capital da rota e a cidade com mais vinícolas do país. Centro pequeno, com a Rua Coberta para a noite e o Pipa Pórtico na entrada. Base natural para dormir dentro do Vale.
Capital nacional do espumante, 15 km de Bento. Chandon, Peterlongo e Cooperativa Garibaldi abrem para visita; a Maria Fumaça para aqui.
O lado silencioso do Vale: 2.500 habitantes, igreja no alto do morro, cantinas familiares e a melhor vista de vinhedo da região ao pôr do sol.
A maior cidade da serra, a 40 km. É onde nasceu o galeto e onde acontece a Festa da Uva, nos anos pares. Tem o único aeroporto da região e a cena de restaurantes mais ampla.
A capital fica a 120 km, e é de onde a maioria dos visitantes sai de manhã. Vale um dia extra pela cena de bares e pelo Mercado Público.
Onde parar
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1
Miolo Wine Group · Bento Gonçalves
A maior vinícola do Vale e a mais organizada para receber: visita guiada, tanques e caves, degustação por faixa de preço e restaurante próprio.
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2
Casa Valduga · Bento Gonçalves
Espumantes pelo método tradicional e o restaurante mais concorrido da rota; reserve o almoço antes de sair de casa.
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3
Lidio Carraro e Pizzato · Bento Gonçalves
As duas vinícolas de família que os enófilos procuram: produção pequena, uva própria e vinhos de guarda que não chegam ao supermercado.
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4
Cave Geisse · Pinto Bandeira
Fora do Vale, a 20 km de Bento, o espumante mais premiado do Brasil, feito por um chileno que trocou a Chandon por uma serra própria.
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5
Maria Fumaça · Bento Gonçalves → Carlos Barbosa
Duas horas de trem a vapor com espumante, suco e música italiana. É turístico e é ótimo mesmo assim.
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6
Caminhos de Pedra · Bento Gonçalves
Casas de pedra e madeira de 1880, moinho, cantina e a Casa da Ovelha; almoço em família e queijo de leite de ovelha na saída.
Quando ir
A colheita é a época que a rota foi feita para mostrar: vinhedo carregado, pisa da uva nas vinícolas e o cheiro de mosto no ar. Também é alta temporada e hotel cheio.
A maior festa da colônia italiana do país, com desfiles, pavilhões e a rua de gastronomia. A próxima é em 2028.
Frio de verdade, lareira nas vinícolas e vinho tinto fazendo sentido. É a segunda alta temporada, e a melhor para quem prefere mesa a vinhedo.
Vinhedo florido, preço baixo e pouca gente. A melhor relação custo e vista do ano.