Vinho é planta de clima frio. Uva precisa de inverno para dormir. Todo manual de viticultura diz isso, e o Vale do São Francisco ignorou. No semiárido entre Petrolina, em Pernambuco, e Juazeiro, na Bahia, o rio garante a água, o sol garante a maturação o ano inteiro e o produtor decide quando colher cortando a irrigação. Resultado: duas safras por ano, às vezes duas e meia, e um vinhedo que pode estar sendo podado de um lado enquanto o outro está carregado.
Não é uma curiosidade de laboratório. O Vale produz uma parcela importante do vinho fino brasileiro, com espumante moscatel doce e tintos de Syrah que estão na prateleira de qualquer supermercado do Nordeste, e ganhou a Indicação de Procedência do INPI em 2022. A rota é isso somado ao que já existia antes do vinho: a maior região exportadora de manga e uva de mesa do país, o rio que separa duas cidades e as une pela ponte, e uma cozinha de bode que faz um ex-vegetariano reconsiderar.
O vinho: doce, jovem e sem vergonha disso
O que o Vale faz melhor é o espumante moscatel, doce, leve, de 7 ou 8 graus, que custa entre R$ 30 e R$ 60 e vende mais do que qualquer tinto da região. Quem torce o nariz para vinho doce deveria prová-lo às 14h, a 38 graus, com uma manga cortada ao lado; o contexto explica o produto. Entre os secos, a Syrah é a uva que se adaptou ao calor e dá um tinto de fruta madura e álcool alto, para beber jovem. O Chenin Blanc é o branco de referência.
As vinícolas ficam a 40 e 60 km das cidades, na beira do rio. A Rio Sol, em Lagoa Grande, é a mais estruturada para visita, com passeio de barco pelo vinhedo. A Terranova, do grupo Miolo, fica em Casa Nova, do lado baiano. A Bianchetti Tedesco, em Petrolina, é a única com produção orgânica. A visita com degustação custa em geral entre R$ 30 e R$ 80, e o roteiro de barco pelo rio com parada nas vinícolas, chamado de Vapor do Vinho, sai de Petrolina.
A mesa: bode, peixe de rio e manga de sobremesa
O prato do Vale é o bode. Petrolina tem o Bodódromo, um polo de restaurantes dedicado ao caprino, onde o bode vem assado, guisado, na buchada ou no sarapatel, com pirão e macaxeira, por R$ 60 a R$ 90 a porção que serve dois. A carne aqui é de animal criado solto na caatinga, magra e de sabor forte, e nada tem a ver com o cabrito de leite dos restaurantes do Sudeste. Peça o bode assado na primeira noite e a buchada na segunda, nessa ordem.
O rio dá o resto: tilápia, surubim e tucunaré fritos nas barracas da Ilha do Rodeadouro e da Ilha do Fogo, que se alcançam de barco em minutos a partir da orla de Petrolina. A sobremesa não precisa de cozinha: manga Tommy no ponto, uva de mesa colhida no dia e o doce de umbu, a fruta do sertão que só dá aqui. Para entender o que muda na mesa do Nordeste inteiro, leia a página da região.
Duas cidades, um rio
Petrolina e Juazeiro são uma cidade só cortada por uma fronteira estadual, ligadas pela Ponte Presidente Dutra. Petrolina tem o aeroporto, os hotéis, a orla reformada e a cena de restaurantes maior; Juazeiro tem a orla mais antiga e o mercado. A distância entre os dois centros é de 5 km, e a única razão para não atravessar a pé é o sol. Voos regulares chegam de Recife, Salvador, São Paulo e Brasília.
Um roteiro de três dias fecha assim: dia 1 orla e Bodódromo, dia 2 vinícolas de Lagoa Grande e Santa Maria da Boa Vista, dia 3 Casa Nova, Sobradinho e as ilhas do rio. Quem tiver um dia a mais sobe até o Parque Nacional da Serra da Capivara, a 300 km, que não tem nada a ver com vinho e é a coisa mais impressionante do Nordeste.
As cidades da rota
Na ordem do roteiro. As que estão no diretório levam à lista de restaurantes, bares e cafeterias com endereço e telefone.
A capital do Vale: aeroporto, orla, Bodódromo e a saída dos barcos. Base para toda a rota.
Do outro lado da ponte, o lado baiano: mercado, orla antiga, a estátua de Padre Cícero e o acesso à Terranova e a Sobradinho.
A 45 km de Petrolina, é a cidade das vinícolas do lado pernambucano: Rio Sol, Santa Maria e vinhedos de mesa a perder de vista.
Do lado baiano, a 60 km, abriga a Terranova/Miolo e as praias de água doce do lago de Sobradinho.
A cidade mais antiga do Vale, com mercado de fim de semana e vinícolas de menor porte.
Onde parar
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1
Bodódromo · Petrolina
A rua dos restaurantes de bode. Bode assado, buchada, sarapatel e a cerveja que vem congelando. Vá com fome e sem pressa.
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2
Vinícola Rio Sol · Lagoa Grande
Visita com barco pelo vinhedo à beira do rio, degustação e loja. A mais fotogênica do Vale.
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3
Terranova (Miolo) · Casa Nova
A vinícola do grupo gaúcho no sertão baiano: espumantes moscatel e Syrah, com visita e degustação.
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4
Ilha do Rodeadouro · Petrolina
Barracas de peixe frito com os pés na areia do rio. Tilápia inteira, surubim, caldeirada e um pôr do sol que dispensa filtro.
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5
Mercado do Produtor · Juazeiro
Manga, uva, goiaba, umbu, queijo de coalho e o pequi que o resto do país não conhece, no atacado e no varejo.
Quando ir
Sempre há vinhedo carregado em alguma vinícola, porque a colheita é programada pela irrigação. Pergunte antes qual está no ponto.
Petrolina e Juazeiro fazem uma das maiores festas juninas do Nordeste, com forró na orla e comida de milho em toda esquina. Hotel lota.
As temperaturas caem para 30 graus de dia e 18 à noite. É a época mais confortável para andar de vinhedo.
A cidade cheira a manga. Fruta a R$ 2 o quilo na feira e o sertão no calor máximo.