Paraty foi o porto por onde o ouro de Minas saía para Portugal no século 18, e no caminho de volta os navios levavam a cachaça dos engenhos da baía, que ficou tão conhecida que "parati" virou o nome genérico da bebida em todo o país. Quando o ouro acabou e a estrada mudou, a cidade ficou parada por 150 anos, o que a salvou: o centro histórico, de pedra irregular e casario branco com portas coloridas, é Patrimônio da Humanidade desde 2019, junto com a Ilha Grande, no primeiro título misto (cultural e natural) do Brasil.
A cachaça continuou. Em 2007 Paraty ganhou a primeira Indicação Geográfica de cachaça do país, e os alambiques familiares, que sobreviveram no vale do rio Perequê-Açu, abrem para visita, prova e almoço. Ao lado, a cozinha caiçara, do pescador da Mata Atlântica, com peixe, banana verde e a farinha de Paraty-Mirim. E o mar da Costa Verde, que vai de Angra dos Reis, a 100 km, até Ubatuba, já em São Paulo.
A cachaça: alambique de cobre e cana da baía
Cachaça de Paraty é de alambique de cobre, cana da própria região e envelhecimento em madeiras nacionais como jequitibá, amburana e bálsamo. A IG obriga o processo artesanal e a origem da cana, e é isso que separa a garrafa de R$ 60 a R$ 150 dos alambiques da cachaça industrial de coluna que custa R$ 15 no mercado. Os produtores mais visitados são o Engenho D'Ouro, a Maria Izabel (a única com a cana à beira-mar, em Corumbê), a Coqueiro, a Paratiana e a Corisco, todos a entre 10 e 25 minutos do centro, com visita gratuita ou por até R$ 30 e loja na saída.
A prova certa é a branca, sem madeira, para sentir a cana, e depois duas envelhecidas de madeiras diferentes: a amburana é doce e adocica a bebida, o jequitibá é neutro e deixa a cachaça falar. A gabriela, cachaça com cravo, canela e mel, é a bebida da casa em Paraty e vem de cortesia em muitos restaurantes. O guia de drinks clássicos explica a caipirinha, mas aqui ela é pedida com a cachaça do alambique que o bar escolheu, e vale perguntar qual.
A mesa caiçara
O prato de Paraty é o peixe azul-marinho: peixe fresco cozido com banana verde, cujo tanino escurece o caldo e dá o nome, servido com pirão da própria banana. É um prato de pescador que não existe fora do litoral entre Paraty e Ubatuba, e nos restaurantes do centro custa entre R$ 90 e R$ 160 para dois. O camarão casadinho, dois camarões grandes recheados com farofa de camarão pequeno e grelhados juntos, é o outro prato local, e a moqueca caiçara é feita sem dendê e sem leite de coco, com azeite, tomate e coentro.
A farinha de mandioca de Paraty-Mirim, das casas de farinha do quilombo do Campinho e das comunidades caiçaras, é a base de tudo e vende-se no centro em saco de papel. O centro histórico tem dos restaurantes mais caros do estado fora da capital, sobretudo durante a Flip, a festa literária de julho ou agosto, e dos mais baratos nos bairros fora do calçamento: a regra é atravessar o rio para comer bem por R$ 50. Em Trindade, a vila de pescadores a 25 km, os restaurantes de praia fazem o mesmo peixe por menos.
Como andar pela rota
Paraty fica a 250 km do Rio de Janeiro e 330 de São Paulo, pela BR-101, a Rio-Santos, que é a estrada mais bonita e mais lenta do Sudeste. Não há aeroporto comercial; o mais perto é o de Angra dos Reis, para voos fretados, e o do Rio. Ônibus direto saem das duas capitais. No centro histórico não entra carro, o que é a melhor coisa da cidade e a pior para a mala.
O roteiro de três dias: dia 1 centro histórico, cais e escuna pela baía, com parada em ilhas para nadar; dia 2 alambiques de manhã e Trindade à tarde; dia 3 Paraty-Mirim, o Caminho do Ouro (a trilha calçada de pedra do século 18, com guia) ou o Saco do Mamanguá, o único fiorde tropical do país. Angra dos Reis, a 100 km, é a porta da Ilha Grande, com a Vila do Abraão, Lopes Mendes e os restaurantes de peixe de barco. Quem vem de São Paulo pode fazer o caminho por Ubatuba, a 75 km, com a mesma cozinha caiçara e praias que não perdem para as fluminenses.
As cidades da rota
Na ordem do roteiro. As que estão no diretório levam à lista de restaurantes, bares e cafeterias com endereço e telefone.
O centro histórico, os alambiques, o cais das escunas e a Flip. Patrimônio da Humanidade e a base da rota.
Vila de pescadores a 25 km, dentro da Serra da Bocaina, com as melhores praias da região e o peixe mais barato.
A praia de igreja e as casas de farinha do quilombo do Campinho, na estrada para Trindade.
A 100 km, a porta da Ilha Grande e a cidade grande da Costa Verde, com cais, mercado de peixe e a cena de restaurantes do Frade.
De barco a partir de Angra ou Mangaratiba: Vila do Abraão, Lopes Mendes e o peixe de barco. Sem carro.
A 75 km, já em São Paulo, com a mesma cozinha caiçara, o Projeto Tamar e mais de 100 praias.
A 250 km pela Rio-Santos. É de onde a maioria dos visitantes sai, e onde a cachaça de Paraty está em toda carta de bar boa.
Onde parar
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1
Alambique Maria Izabel · Paraty
A cana à beira-mar, em Corumbê, e uma das cachaças mais premiadas do país. Visita com hora marcada.
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2
Engenho D'Ouro · Paraty
O alambique mais visitado, na estrada do Caminho do Ouro, com museu, prova e restaurante.
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3
Centro histórico · Paraty
Calçamento de pé-de-moleque, casario branco de portas coloridas e a maré que entra pelas ruas na lua cheia.
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4
Escuna pela baía · Paraty
Cinco horas, quatro paradas para nadar, almoço a bordo opcional. R$ 80 a R$ 150 por pessoa.
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5
Caminho do Ouro · Paraty
A trilha de pedra do século 18 na Serra da Bocaina, com guia, e a cachoeira do Tobogã na volta.
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6
Saco do Mamanguá · Paraty
O único fiorde tropical do mundo, de barco ou caiaque, com as comunidades caiçaras nas margens.
Quando ir
Desde 1982, o festival dos alambiques no centro histórico, com prova, música e comida caiçara. A época certa para a rota.
A Festa Literária Internacional lota a cidade por cinco dias; pousada e restaurante em preço de pico.
Sem chuva de verão, mar calmo, preço de baixa temporada. A melhor época para alambique e praia no mesmo dia.
Chuva de fim de tarde, cidade cheia e as escunas lotadas. Vale pela água morna de Trindade.