A Estrada Real é a soma dos caminhos que a Coroa portuguesa obrigou a usar para escoar o ouro e o diamante de Minas até o litoral, entre o fim do século 17 e o começo do 19. São 1.600 km de trilhas oficiais entre Paraty, Rio de Janeiro, Ouro Preto e Diamantina, e a cozinha que nasceu nelas é a que o Brasil chama de comida mineira: a do tropeiro, feita para durar na viagem, com feijão, farinha, toucinho, carne de porco na banha e o que a roça desse.
A rota gastronômica é o trecho central: Tiradentes e São João del-Rei, no Caminho Velho; Ouro Preto, Mariana e Congonhas, no Caminho Novo; e Diamantina, no fim do Caminho dos Diamantes. Tudo a menos de 300 km de Belo Horizonte, que não é da Estrada Real, mas é onde a cozinha de Minas foi para o boteco e inventou o Comida di Buteco. Não dá para fazer tudo em um fim de semana. Dá para fazer um pedaço bem feito.
O que se come: a cozinha do tropeiro no fogão a lenha
O feijão tropeiro é o prato-síntese: feijão cozido e escorrido, farinha de mandioca, torresmo, linguiça, ovo, couve e cheiro-verde, misturados na panela e servidos com arroz e, se a casa for boa, com uma banana frita e um bife de porco. O frango com quiabo e o angu são o outro almoço obrigatório, e o tutu à mineira, feijão batido com farinha até virar creme, é o que a maioria dos visitantes descobre que nunca tinha comido de verdade. Tudo isso nas cidades da rota custa entre R$ 50 e R$ 90 por pessoa em restaurante de fogão a lenha, e sai em travessa que serve dois.
Há uma cozinha de sobremesa e de goiabada com queijo, de doce de leite em pedaço e de licor de jabuticaba que cada cidade da rota reivindica como sua, e uma de cachaça de alambique que é a bebida oficial do caminho. A cachaça de Minas é a mais numerosa e a mais premiada do país, e a região de Tiradentes, Bichinho e Coronel Xavier Chaves tem alambiques abertos a visita a 15 minutos do centro histórico. O guia de drinks clássicos explica o que é uma caipirinha bem feita; aqui se aprende o que é uma cachaça bem feita.
Tiradentes: o festival e a cidade
Tiradentes tem 7 mil habitantes e mais restaurantes de qualidade por metro quadrado do que qualquer capital. O motivo é o Festival de Cultura e Gastronomia de Tiradentes, que acontece em agosto desde 1998 e leva chefs de todo o país para cozinhar nas ruas de pedra por dez dias. Fora do festival, a cidade vive de fim de semana: pousadas em casarões, a Maria Fumaça que vem de São João del-Rei em 35 minutos por uma ferrovia de 1881, e um centro que se anda em 20 minutos.
A conta é de cidade turística: R$ 80 a R$ 150 por pessoa nos restaurantes autorais, metade disso nos de comida mineira tradicional. O vizinho Bichinho, distrito de Prados, é onde ficam os ateliês de móveis e os alambiques, e onde o almoço custa menos. São João del-Rei, a 12 km, é a cidade grande do trecho, com o trem, as igrejas de Aleijadinho e uma cena de bares e restaurantes que serve os moradores, não os turistas, o que se nota no preço.
Ouro Preto, Mariana e Diamantina
Ouro Preto, a 100 km de BH, é Patrimônio da Humanidade desde 1980 e é uma cidade universitária, o que significa restaurante bom e barato para estudante ao lado de restaurante caro para turista, nas mesmas ladeiras. O prato local é o tutu, e a bebida é a cachaça, mas a cidade também tem a maior tradição de repúblicas estudantis do país e uma vida de boteco intensa. Mariana, a 12 km, é mais tranquila e mais barata, e o trem turístico entre as duas passa pela mina da Passagem.
Diamantina, a 290 km de BH, é o fim do Caminho dos Diamantes e a cidade de Juscelino Kubitschek e de Chica da Silva: Patrimônio da Humanidade desde 1999, casario colonial intacto, a Vesperata (concerto de sacadas, de abril a outubro) e uma cozinha própria, mais sertaneja, com o queijo do Serro, o pequi e a carne de sol. É a cidade mais distante da rota e a que menos parece com as outras. No caminho, Sete Lagoas serve de parada de almoço; de BH, a pista é a BR-040 e a BR-259.
As cidades da rota
Na ordem do roteiro. As que estão no diretório levam à lista de restaurantes, bares e cafeterias com endereço e telefone.
A capital gastronômica da rota: festival em agosto, restaurantes autorais, pousadas em casarão e a Maria Fumaça. Base para o Caminho Velho.
A 12 km, a cidade grande do trecho, com o trem, as igrejas de Aleijadinho e a cozinha mineira a preço de morador.
Patrimônio da Humanidade, cidade universitária e capital da cachaça e do tutu. Base para o Caminho Novo, a 100 km de BH.
A primeira capital de Minas, a 12 km de Ouro Preto: mais calma, mais barata e com o trem entre as duas.
Os Profetas de Aleijadinho, a meio caminho entre BH e São João del-Rei. Parada de meio dia.
O fim do Caminho dos Diamantes, a 290 km de BH: Vesperata, queijo do Serro e a cozinha mais sertaneja da rota.
A capital dos botecos e a base logística de toda a rota: aeroporto, Mercado Central e o Comida di Buteco, que nasceu aqui em 2000.
Para quem vem do Rio, é a entrada de Minas e fica a 2 horas de Tiradentes e de Ouro Preto.
Parada de almoço no caminho de BH para Diamantina, com as lagoas e a Gruta Rei do Mato.
Onde parar
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1
Festival de Cultura e Gastronomia de Tiradentes · Tiradentes
Dez dias em agosto, desde 1998, com chefs de todo o país nas ruas de pedra. O maior evento gastronômico de Minas.
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2
Maria Fumaça São João del-Rei → Tiradentes · São João del-Rei
12 km em 35 minutos por uma ferrovia de bitola estreita de 1881, com locomotivas originais. Sextas a domingos.
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3
Alambiques de Bichinho e Coronel Xavier Chaves · Prados
Cachaça de alambique de cobre, com visita, prova e loja, a 15 minutos de Tiradentes.
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4
Mercado Central · Belo Horizonte
Queijo, cachaça, doce, fígado com jiló no balcão e o boteco de meio-dia. A síntese de Minas num prédio.
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5
Vesperata · Diamantina
Concerto de bandas nas sacadas dos sobrados da Rua da Quitanda, de abril a outubro, aos sábados. Reserve mesa.
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6
Mina da Passagem · Mariana
A maior mina de ouro aberta a visita do mundo, a 120 metros, com o trem turístico Ouro Preto–Mariana passando na porta.
Quando ir
A cidade dobra de tamanho; pousada reservada com meses de antecedência e programação paga e gratuita.
O concurso de petiscos de boteco de Belo Horizonte, que hoje acontece em 20 cidades, começa aqui todo outono.
Aos sábados de quinzena, com a estação seca e o casario iluminado.
Programação cultural da universidade, cidade cheia e frio de 5 graus nas ladeiras.
Tapetes de serragem e procissões; a época em que as cidades estão mais bonitas e mais lotadas.