Antes de o vinho brasileiro virar assunto de sommelier, ele era isto: a uva Niágara rosada, de casca grossa e cheiro de "uva" de bala, plantada por italianos em Jundiaí e nos morros em volta desde o fim do século 19, vendida em caixote na beira da estrada e transformada em vinho de mesa e suco no fundo da casa. O Circuito das Frutas é a organização turística dessa colônia: dez cidades entre Jundiaí e Campinas, cada uma com uma fruta e uma festa, com pomar de colhe-e-pague e adega de família aberta no fim de semana.
Do outro lado da capital, a 60 km pela Raposo Tavares, São Roque fez o mesmo com portugueses e italianos e hoje tem a Estrada do Vinho, uma rota de 20 km com vinícolas, cantinas, alambiques e restaurantes de comida de fazenda. Nenhuma das duas rotas vai ganhar medalha em Londres. As duas vão te alimentar bem por pouco dinheiro, a uma hora de São Paulo, e vender a garrafa que os paulistanos compram por 20 reais na banca da estrada há 100 anos.
A uva e o vinho de colônia
Jundiaí é o maior produtor de uva Niágara do país, e a Niágara é uma uva americana, não europeia: resistente à chuva e à doença, doce, de aroma "foxado" que os enólogos torcem o nariz e que o brasileiro comprou por um século como sinônimo de vinho. Produz o vinho de mesa (rótulo "vinho de mesa" ou "vinho colonial", nunca "vinho fino"), o suco integral e a própria uva, que se compra por R$ 8 a R$ 15 o quilo na beira da estrada de janeiro a março.
As vinícolas do Circuito e de São Roque são cantinas de família: visita grátis ou por R$ 20, prova no balcão, garrafa entre R$ 20 e R$ 50, e uma lista crescente de vinhos finos com uvas europeias, porque a nova geração quis provar que dá. Vale provar o vinho fino da casa, mas o que se compra é o suco e o vinho de mesa seco, que é o que eles fazem bem. Para entender por que a mesma bebida custa tanto mais no restaurante, esta é a rota onde a conta é mais didática.
As festas e o colhe-e-pague
Cada cidade tem a sua fruta e a sua festa. Jundiaí tem a Festa da Uva, desde 1934, em janeiro e fevereiro, com a Festa do Vinho junto. Vinhedo faz a sua Festa da Uva no mesmo período. Valinhos é a capital do figo roxo e faz a Festa do Figo em janeiro. Jarinu e Atibaia dividem o morango, com festas entre agosto e setembro. Louveira tem a goiaba, Itupeva a caqui, Itatiba a ameixa e o pêssego, Indaiatuba (no diretório) o pesque-pague e a comida caipira.
O colhe-e-pague é a versão de fim de semana: entra-se no pomar, colhe-se uva, figo ou morango, pesa-se na saída, R$ 10 a R$ 25 o quilo conforme a fruta. Funciona de janeiro a março para uva e figo, de julho a outubro para morango. As adegas ficam ao lado dos pomares e o almoço é polenta, frango e macarrão de família, entre R$ 40 e R$ 70 por pessoa. Leve criança; é a única rota de vinho onde isso faz sentido.
São Roque: a Estrada do Vinho
São Roque, a 60 km de São Paulo pela Raposo Tavares e a 50 de Sorocaba, tem uma rota mais concentrada: a Estrada do Vinho, entre o centro e o bairro do Canguera, enfileira 30 estabelecimentos, entre vinícolas, alambiques, cantinas e restaurantes de comida de fazenda e portuguesa. É rota de um dia, feita em geral aos sábados por paulistanos, com almoço demorado e lotação a partir do meio-dia.
A cidade é também a capital paulista da alcachofra, e a Expo São Roque, em outubro, junta as duas coisas: vinho e alcachofra, num mês em que a estrada fecha para carro nos fins de semana e vira feira. A vinícola mais visitada é a Góes, com parque e restaurante; as menores, no fim da estrada, vendem o vinho de mesa que o pai fazia. Quem quiser esticar segue para Itu, a 40 km, com o centro histórico e a Fazenda do Chocolate, ou para Bragança Paulista, do outro lado, com a Festa da Linguiça e os pesqueiros.
As cidades da rota
Na ordem do roteiro. As que estão no diretório levam à lista de restaurantes, bares e cafeterias com endereço e telefone.
A capital da uva Niágara e a base do Circuito: Festa da Uva em janeiro e fevereiro, estradas rurais com adegas e a Serra do Japi ao lado.
A 15 km de Jundiaí, com vinícolas de família, a Festa da Uva própria e um cluster de cantinas na estrada velha.
Capital do figo roxo, com a Festa do Figo em janeiro e pomares de colhe-e-pague na zona rural.
Morango e caqui, adegas pequenas e o lado mais rural do Circuito.
A porta oeste do Circuito, com pesque-pague, comida caipira e o Parque Ecológico.
A metrópole do Circuito, a 30 km de Vinhedo, com a maior cena de restaurantes do interior e o aeroporto de Viracopos.
A Estrada do Vinho, a alcachofra e a Expo São Roque em outubro. Rota de um dia a partir da capital.
A 50 km de São Roque, é a cidade grande da rota oeste e serve de base alternativa para quem vem do interior.
Entre São Roque e o Circuito, com o centro histórico, os doces portugueses e a Fazenda do Chocolate.
Ao norte de Jarinu, com a Festa da Linguiça, a represa e a saída para a Serra da Mantiqueira.
A uma hora de tudo. É de onde a rota inteira recebe visita e para onde volta o vinho, a uva e o figo.
Onde parar
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1
Festa da Uva de Jundiaí · Jundiaí
Desde 1934, no parque da Uva, de janeiro a fevereiro, com a Festa do Vinho, shows e barracas das adegas.
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2
Estrada do Vinho · São Roque
20 km com 30 vinícolas, cantinas e alambiques; aos sábados, almoce cedo ou espere.
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3
Vinícola Góes · São Roque
A maior e mais estruturada da Estrada do Vinho, com parque, restaurante e loja.
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4
Colhe-e-pague de Valinhos · Valinhos
Figo roxo de janeiro a março; entre no pomar, colha, pese e pague por quilo.
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5
Adegas de Vinhedo e Louveira · Vinhedo
As cantinas de família na estrada velha, com vinho de mesa, suco, salame e almoço de polenta.
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6
Serra do Japi · Jundiaí
A reserva de Mata Atlântica ao lado dos vinhedos, com trilhas e a Ermida do Japi.
Quando ir
Festas da Uva de Jundiaí e Vinhedo, Festa do Figo de Valinhos, colhe-e-pague a todo vapor. O auge da rota.
Jarinu e Atibaia, com as festas do morango e os pomares abertos.
Vinho e alcachofra na Estrada do Vinho, que fecha para carro nos fins de semana.
Sem fruta, mas com as cantinas abertas, o fogão a lenha e menos gente na estrada.