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🐟 Cozinha amazônica · PA · Região Norte

Belém e o Ver-o-Peso: tacacá, açaí de verdade e a cozinha amazônica na Cidade Criativa da Gastronomia

O mercado mais antigo do Brasil, o açaí sem açúcar, o peixe de rio de dois metros e a ilha de cacau a 15 minutos de barco: Belém é a única rota do país que cabe numa cidade e ainda sobra.

O Mercado de Ferro do Ver-o-Peso, em Belém, na beira da baía do Guajará
O Mercado de Ferro do Ver-o-Peso, em Belém, na beira da baía do Guajará. Foto: Cayambe, CC BY-SA 3.0, via Wikimedia Commons.

A UNESCO declarou Belém Cidade Criativa da Gastronomia em 2015, e a razão é uma que nenhuma outra capital brasileira tem: uma cozinha inteira que não passa pelo resto do país. Tucupi, jambu, maniçoba, pirarucu, filhote, cupuaçu, bacuri, pupunha, castanha, farinha d'água: a despensa é amazônica e o supermercado de São Paulo não tem quase nada disso. O que se come em Belém se come em Belém.

A rota começa e termina no Ver-o-Peso, o complexo de mercado na beira da baía do Guajará que existe desde 1625, quando a Coroa instalou ali o posto de "ver o peso" das mercadorias para cobrar o imposto. São 26 mil metros quadrados com o Mercado de Ferro do peixe, o Mercado de Carne, a feira do açaí que abre antes do amanhecer, as barracas de ervas e as de comida. De lá saem os barcos para a Ilha do Combu e as caminhadas para a Estação das Docas. E em outubro, o Círio de Nazaré, a maior procissão do país, tem o almoço mais importante do calendário paraense.

O açaí, o tacacá e o pato: os três ritos

O açaí em Belém é almoço, não sobremesa. Vem batido na hora, grosso, sem açúcar e sem guaraná, numa tigela, para comer com farinha d'água e peixe frito ou camarão seco. Custa R$ 15 a R$ 25 o litro na feira do Ver-o-Peso e é vendido por classificação: "popular", "médio" e "especial", conforme a proporção de fruta e água. Quem chega achando que açaí é aquela pasta roxa doce com granola vai levar o choque que explicamos no guia açaí de verdade vs açaí de sorveteria.

O tacacá é o rito da tarde: caldo de tucupi quente, goma de mandioca, camarão seco e jambu, a folha que adormece a boca, servido na cuia às 17h nas barracas de esquina, por R$ 15 a R$ 25, e tomado em pé, de goles, sem colher. O pato no tucupi com jambu é o prato de festa, o do almoço de Círio, e sai entre R$ 90 e R$ 150 a porção para dois. A maniçoba, feita com a folha da mandioca cozida por sete dias para tirar o veneno, é a feijoada paraense sem feijão e é o outro prato do Círio.

Os barcos de pesca atracados na frente do Ver-o-Peso
Os barcos de pesca atracados na frente do Ver-o-Peso. Foto: Cayambe, CC BY-SA 3.0, via Wikimedia Commons.

O peixe, a fruta e o chocolate

O Mercado de Ferro do Ver-o-Peso vende de madrugada o que o rio pescou: filhote (o bagre de dois metros que é o peixe nobre da região), pirarucu fresco e salgado, dourada, tucunaré, tambaqui, pescada amarela. Nos restaurantes da cidade, filhote na brasa ou na caldeirada custa de R$ 80 a R$ 140 para dois. A unha de caranguejo e o casquinho são o petisco de bar, e o caranguejo toc-toc, comido com martelo de madeira, é programa de fim de semana nos bares de Belém e de Icoaraci.

A fruta é a segunda despensa: cupuaçu, bacuri, taperebá, muruci, uxi, pupunha (cozida, no café da manhã), castanha-do-pará no ponto. E o cacau: a Ilha do Combu, a 15 minutos de barco do centro, tem produtores de chocolate de origem que colhem, fermentam e fazem a barra na própria ilha, com visita e degustação por R$ 30 a R$ 60. O restaurante de palafita na ilha, com filhote e camarão, é o almoço mais bonito de Belém. Do outro lado, a Ilha de Marajó, a 3 horas de balsa, tem o queijo de búfala e o filé de búfalo que os paraenses consideram a melhor carne do estado.

Tacacá na cuia, com camarão e jambu
Tacacá na cuia, com camarão e jambu. Foto: Ridiculopathy, CC0, via Wikimedia Commons.

Como andar pela rota

Belém tem aeroporto internacional e é destino de voo direto das grandes capitais. O centro histórico, com o Ver-o-Peso, a Estação das Docas, o Forte do Castelo e a Cidade Velha, se anda a pé em um dia, começando antes das 7h no mercado, porque às 10h o peixe já foi. A Estação das Docas, na antiga zona portuária, é o lado turístico e limpo do mesmo rio: cervejaria, sorveteria de frutas regionais, restaurantes e o pôr do sol na baía. A ida ao Combu sai do mesmo cais.

Um roteiro de três dias: dia 1 Ver-o-Peso de madrugada, Cidade Velha, Estação das Docas e tacacá às 17h; dia 2 Ilha do Combu, com chocolate e almoço, e bares de Icoaraci à noite; dia 3 Mercado de São Brás, Basílica de Nazaré, Mangal das Garças e o almoço de pato no tucupi. Ananindeua é a cidade conurbada, com a metade da região metropolitana, e Castanhal, a 70 km, é a porta para as praias de Salinópolis e o farol que os belenenses procuram em julho.

O interior do Ver-o-Peso, com as bancas de fruta e as ervas
O interior do Ver-o-Peso, com as bancas de fruta e as ervas. Foto: Fernando Stankuns, CC BY-SA 4.0, via Wikimedia Commons.
A feira do açaí do Ver-o-Peso, que abre de madrugada
A feira do açaí do Ver-o-Peso, que abre de madrugada. Foto: Túllio F, CC BY-SA 4.0.

As cidades da rota

Na ordem do roteiro. As que estão no diretório levam à lista de restaurantes, bares e cafeterias com endereço e telefone.

Onde parar

  1. 1
    Ver-o-Peso · Belém

    O complexo de mercado de 1625, com o Mercado de Ferro do peixe, a feira do açaí, as ervas e as barracas de tacacá. Vá antes das 7h.

  2. 2
    Estação das Docas · Belém

    O antigo porto restaurado, com restaurantes, cervejaria e sorvete de frutas regionais. O lado organizado do rio.

  3. 3
    Ilha do Combu · Belém

    Barco do cais, chocolate de origem com visita ao produtor e almoço de filhote na palafita.

  4. 4
    Barracas de tacacá · Belém

    As esquinas do centro e de Nazaré às 17h, com a cuia quente e o jambu adormecendo a boca.

  5. 5
    Mercado de São Brás · Belém

    O mercado de bairro de 1911, restaurado, com feira de manhã e boxes de comida regional.

  6. 6
    Mangal das Garças · Belém

    Parque na beira do Guamá com borboletário, mirante e o restaurante de cozinha paraense contemporânea.

Quando ir

Segundo domingo de outubro
Círio de Nazaré

Dois milhões de pessoas na procissão e o almoço de Círio, com pato no tucupi e maniçoba, em todas as casas. Hotel reservado com meses de antecedência.

Julho a novembro
Verão amazônico

Menos chuva, o açaí em safra e a cidade nas praias de Salinópolis em julho.

Dezembro a maio
Inverno amazônico

Chuva todo dia às 14h, em ponto, e o rio cheio. Também funciona; a chuva dura uma hora.

O ano inteiro
Feira do açaí

Abre de madrugada no Ver-o-Peso e fecha quando acaba. A safra maior é no segundo semestre.