Cerveja com whey e colágeno: a Ambev passou 5 anos e 100 protótipos para inventar isso

Cerveja com whey e colágeno: a Ambev passou 5 anos e 100 protótipos para inventar isso

A Spaten Pro chega em agosto a São Paulo e ao Rio com 10 gramas de proteína, menos de 100 calorias, zero álcool e preço de R$ 10 a R$ 13 — o dobro de uma cerveja comum. É a primeira do tipo na AB InBev global, e o Brasil é o laboratório.

SaborCidade ·

Imagine explicar para alguém de 1995 que a maior cervejaria do país passaria cinco anos e mais de cem protótipos tentando colocar whey protein e colágeno dentro de uma cerveja. A pessoa ia rir, e depois ia perguntar se o Brasil está bem. A resposta curta: o Brasil está bebendo menos, indo mais à academia, e a indústria de bebidas notou.

A Ambev anunciou a Spaten Pro, uma cerveja escura sem álcool com 10 gramas de proteína por lata de 350 ml — o mesmo que um copo de leite —, menos de 100 calorias e nada de gordura. A composição proteica é 75% whey protein e 25% colágeno. Chega no fim de agosto a São Paulo e ao Rio de Janeiro, em mercados e no Zé Delivery, a R$ 10 a R$ 13 a lata. Ou seja: o dobro do que você paga numa cerveja comum.

Por que uma cervejaria inventa isso

Não é birra de departamento de marketing. É reação a um número que a indústria não consegue mais disfarçar: o volume de cerveja vendido no Brasil caiu 5,1% em 2025, para 14,75 bilhões de litros. Quando um mercado desse tamanho encolhe, a saída não é vender mais do mesmo — é encontrar uma ocasião de consumo que ainda não existe.

E a ocasião que a Ambev mirou é bem específica: o sujeito que saiu do treino. Historicamente, esse cliente era território perdido — quem passou uma hora na academia não vai tomar uma lager de 150 calorias em seguida. A aposta é transformar o pós-treino, que hoje termina num shake, em um momento de bebida de marca.

O território adjacente já provou que funciona. As cervejas sem álcool saltaram de 140 milhões de litros em 2019 para 702 milhões em 2024, com previsão de 785 milhões em 2025 — alta de 12%. E o portfólio de "escolhas equilibradas" da companhia cresceu 70% no primeiro trimestre de 2026. Enquanto a cerveja tradicional recua, é essa prateleira que puxa o setor.

Spaten Pro em números:

• Proteína: 10 g por lata de 350 ml (75% whey protein + 25% colágeno)
• Calorias: menos de 100; zero gordura; 0% de álcool
• Estilo: Dunkel — escura, com notas de malte tostado, caramelo, baunilha e cacau
• Preço: R$ 10 a R$ 13 a lata (cerca do dobro de uma cerveja comum)
• Lançamento: fim de agosto de 2026, em SP e RJ, com produção em Ribeirão Preto
• Desenvolvimento: 5 anos e mais de 100 protótipos, no CIT da Ambev, no Parque Tecnológico da UFRJ
• Contexto: cerveja no Brasil caiu 5,1% em 2025 (14,75 bilhões de litros)
• É a primeira cerveja com proteína da AB InBev no mundo — o Brasil é o mercado piloto

Por que demorou cinco anos: proteína e cerveja se odeiam

Aqui vale entender o problema técnico, porque ele é genuinamente difícil e explica o preço. "Colocar proteína na cerveja não é fácil", resumiu Lucas Dato, mestre-cervejeiro e diretor do centro de inovação da companhia. Não é modéstia.

Proteína em meio líquido ácido tende a fazer duas coisas indesejadas: precipitar — ou seja, se separar e formar aquela nuvem turva que afunda no fundo da lata — e coagular quando aquecida, o mesmo fenômeno que transforma clara de ovo transparente em clara branca na frigideira. Cerveja passa por pasteurização. Faça as contas.

Some a isso o sabor. Whey protein tem gosto próprio, levemente lácteo e adstringente, que briga com o amargor do lúpulo. Não é coincidência que o resultado final tenha virado uma Dunkel — escura, com malte tostado, caramelo, baunilha e cacau. Esse perfil é o esconderijo perfeito: notas torradas e achocolatadas cobrem o resíduo do whey do mesmo jeito que café forte disfarça remédio. Não é acaso, é engenharia de camuflagem.

Vale como suplemento? Vale como cerveja?

Vamos ser diretos, porque é aqui que a conversa costuma virar propaganda. Dez gramas de proteína é uma quantidade real, mas modesta — é um copo de leite, não um shake. Um scoop de whey comum entrega de 20 a 25 gramas por cerca de R$ 4 a R$ 6. A lata sai por R$ 10 a R$ 13, com metade da proteína.

Então, como suplemento, é péssimo negócio. Se o seu objetivo é bater a meta diária de proteína pelo menor custo, a resposta continua sendo ovo, frango, leite e whey em pó — nessa ordem, e sem chegar perto de R$ 13.

E como cerveja? Aí a conversa muda, porque o produto não está competindo com whey. Está competindo com a lata que você tomaria de qualquer jeito. Se você já ia beber alguma coisa depois do treino ou no encontro do fim de tarde, trocar uma lager de 150 calorias com álcool por uma escura de menos de 100 calorias, sem álcool e com 10 g de proteína é uma troca objetivamente melhor. O preço dobrado é o pedágio de ser produto novo e complicado de fazer.

Sobre o colágeno, cabe o ceticismo de sempre: os 2,5 gramas que compõem o quarto restante da proteína não têm efeito milagroso comprovado sobre pele ou articulação nessa dose. Colágeno ingerido é quebrado em aminoácidos na digestão como qualquer outra proteína — ele não viaja intacto até o seu joelho. É proteína boa, não é poção.

O bar entra nessa história?

Por enquanto, não muito — o lançamento é de mercado e delivery, não de chope na torneira. Mas o recado para quem toca bar é claro, e vale prestar atenção nele.

Uma bebida sem álcool, de perfil escuro e com apelo de bem-estar, ocupa exatamente a lacuna do cliente que hoje pede "só uma água" e libera a mesa em quarenta minutos. Custa igual a uma cerveja comum na geladeira, vende pelo dobro e mantém alguém sentado. Se existe um item de margem escondido no cardápio do bar brasileiro em 2026, ele está justamente na coluna que quase ninguém quer imprimir.

A cerveja perdeu 5,1% de volume num ano e a resposta da maior cervejaria do país foi contratar uma equipe para passar cinco anos misturando whey com malte. Quando a indústria começa a caçar o cliente na porta da academia, é porque ele já não estava mais no bar.

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