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O Brasil vende vinho a US$ 1,88 o litro e compra a US$ 3,38 — e o melhor cliente é o Paraguai

O Brasil vende vinho a US$ 1,88 o litro e compra a US$ 3,38 — e o melhor cliente é o Paraguai

O primeiro Anuário do Vinho do Ministério da Agricultura põe números onde antes havia palpite: 965 vinícolas, mais de 300 milhões de litros produzidos e uma conta externa que dói. O país exportou 7,35 milhões de litros e importou 165,66 milhões — 22 vezes mais do que vendeu.

SaborCidade · · 6 min de leitura

Sempre que alguém elogia um espumante brasileiro na mesa, vem o mesmo comentário de algum tio: "mas vinho bom mesmo é importado". A discussão nunca terminava porque ninguém tinha número na mão — só opinião e rótulo. Agora tem. O Ministério da Agricultura e Pecuária publicou o Anuário do Vinho 2026, a primeira edição de um documento dedicado só à cadeia do vinho no país, e a foto que saiu é mais interessante do que a briga de boteco.

Um país com 965 vinícolas — e onde elas estão

O Brasil fechou o ano passado com 965 vinícolas registradas, espalhadas por 327 municípios. São 41,5% a mais do que em 2020, quando existiam 682. O crescimento continua, mas desacelerou: na comparação com o ano anterior foram só 18 vinícolas novas, avanço de 1,9%.

O mapa não engana ninguém: o Rio Grande do Sul tem 600 vinícolas, ou 62,2% do total nacional. Santa Catarina vem com 102, São Paulo com 86. Somando os três estados do Sul, dá 79,5% do país. Quatro em cada cinco vinícolas brasileiras estão abaixo do Trópico de Capricórnio.

A curiosidade fica com o Centro-Oeste, que teve o maior crescimento proporcional do ano, 6,3%. É pouco em número absoluto, mas é o sinal de que a fronteira do vinho brasileiro está se mexendo — junto com a vinícola de inverno no Sudeste, que colhe uva em julho e agosto justamente por não ter o clima do Sul.

E não é um setor de fundo de quintal: são 16.258 vinhos registrados no Sipeagro — 10.855 só no Rio Grande do Sul — e 7.361 empregos diretos.

A conta externa, onde mora a piada triste

Aqui a coisa fica boa. O Brasil exportou 7,35 milhões de litros de vinho no ano passado, alta de 25,9%, faturando US$ 13,8 milhões e chegando a 85 países. Crescimento real, comemorável.

Só que no mesmo período o país importou 165,66 milhões de litros, alta de 3,4%, e pagou US$ 560,7 milhões por eles — 12,3% a mais que no ano anterior. Em volume, importamos 22 vezes mais do que exportamos. Em dinheiro, gastamos 40 vezes mais do que ganhamos.

O detalhe mais constrangedor está no preço médio. O vinho que sai do Brasil vale US$ 1,88 o litro. O que entra custa US$ 3,38 o litro — o maior valor de toda a série histórica do anuário. Ou seja: vendemos barato e compramos caro. Não é balança comercial, é escambo desfavorável.

E o principal cliente é o vizinho

Dos 85 países que receberam vinho brasileiro, um sozinho levou 62,52% de todo o volume: o Paraguai, com 4,59 milhões de litros. Haiti e Estados Unidos vieram depois. Do outro lado, o Chile segue como principal origem do que a gente bebe.

Isso diz duas coisas. A primeira é que a maior parte do vinho que o Brasil exporta é vinho de preço, não de prestígio — a US$ 1,88 o litro, ninguém está mandando garrafa de guarda para colecionador europeu. A segunda é que a exportação brasileira é, em boa medida, um fenômeno de fronteira: mercado vizinho, logística curta, produto de giro.

Não há vergonha nenhuma nisso. Todo país produtor começa vendendo volume ao vizinho. O que não dá é para confundir os 25,9% de alta com uma conquista de mundo — é uma conquista de Assunção.

O vinho brasileiro segundo o Anuário do Vinho 2026 (Mapa):

300+ milhões de litros de produção declarada no ano passado
965 vinícolas em 327 municípios — 41,5% a mais que em 2020
600 vinícolas no RS (62,2% do país); Sul concentra 79,5% do total
16.258 vinhos registrados e 7.361 empregos diretos
7,35 milhões de litros exportados (+25,9%) por US$ 13,8 milhões, a US$ 1,88/litro
165,66 milhões de litros importados (+3,4%) por US$ 560,7 milhões, a US$ 3,38/litro
62,52% de tudo o que exportamos foi para o Paraguai

Por que a garrafa nacional custa o que custa

A pergunta inevitável: se produzimos 300 milhões de litros, por que o vinho brasileiro decente ainda sai a R$ 90 na prateleira e a R$ 180 no restaurante?

Porque volume não é escala. A maior parte dessas 965 vinícolas é pequena, com colheita manual, poucas safras de estoque e nenhum poder de compra de garrafa, rolha e barrica — insumos que, em boa parte, chegam importados e em dólar. Uma vinícola que engarrafa 30 mil litros por ano paga por unidade o que uma chilena de 30 milhões paga por caixa.

Some a isso a carga tributária sobre bebida alcoólica no Brasil e o fato de que o consumidor daqui compara o nacional de R$ 90 com um chileno de supermercado a R$ 39. A comparação é injusta na origem: o chileno de R$ 39 é produto de escala industrial, o brasileiro de R$ 90 costuma ser produto de safra pequena. São bebidas diferentes vendidas na mesma gôndola.

O que fazer com essa informação na próxima taça

Regra prática: não compare preço, compare categoria. No espumante, especialmente o método charmat, o Brasil compete de igual para igual com qualquer coisa importada na mesma faixa — é onde nosso clima, com noites frias e uva de boa acidez, joga a favor. É também onde o país acumulou mais medalha internacional.

Nos tintos, o caminho mais honesto costuma ser o da uva que se dá bem aqui em vez da que vende bem lá fora. E vale prestar atenção nas regiões novas — Santa Catarina de altitude, o Sudeste de safra de inverno, o Centro-Oeste que mais cresceu proporcionalmente. É nesses lugares que o preço ainda não embutiu a fama.

E se o seu bar tem um brasileiro na taça por R$ 32 e um importado genérico por R$ 34, experimente o primeiro. A essa altura do campeonato, a chance de você estar bebendo melhor é razoável — e o dinheiro fica em Bento Gonçalves, não em um porto de contêiner.

O Brasil finalmente tem um anuário para provar que faz vinho. O próximo passo é parar de vendê-lo a US$ 1,88 o litro — porque quem produz 300 milhões de litros e exporta 7 já sabe fazer; falta convencer o mundo, e o próprio brasileiro, a pagar por isso.

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