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Você paga quase o dobro pela mesma garrafa — e quem está dizendo isso é um auditor do Banco Central

Você paga quase o dobro pela mesma garrafa — e quem está dizendo isso é um auditor do Banco Central

Mauro Salvo é economista, auditor do Banco Central, sommelier formado pela ABS-RS e bebe vinho há 40 anos. Ele acaba de lançar um livro para dizer uma frase que o setor não gosta de ouvir: as margens dos restaurantes sobre a garrafa são injustificáveis. Vale entender a conta antes de abrir a carta.

SaborCidade · · 6 min de leitura

Você conhece a cena. A carta de vinhos chega, você abre, e lá está aquele rótulo que você compra no mercado da esquina por R$ 79 — só que com um zero a mais de autoconfiança e um preço que passou dos R$ 150. Você fecha a carta, pede a taça da casa e passa o resto do jantar fazendo aritmética em vez de conversar.

Quem descreveu esse constrangimento em voz alta agora tem currículo para isso. Mauro Salvo é economista, auditor do Banco Central, sommelier formado pela Associação Brasileira de Sommeliers do Rio Grande do Sul e bebedor de vinho há quatro décadas. Em entrevista à Folha, ele resumiu assim: "tomar vinho fora de casa está se tornando uma experiência frustrante e até desagradável". A palavra que ele usou para descrever como se sente ao pedir uma garrafa num restaurante foi mais dura: idiota.

O motivo é simples de enunciar e difícil de defender: algumas garrafas chegam à mesa por quase o dobro do preço que você pagaria pela mesma garrafa no varejo. Salvo chama as margens de injustificáveis, e ele acaba de publicar 178 páginas sobre o assunto — Ensaios de Economia do Vinho (Diálogo Freiriano, R$ 79,90), que discute o preço dos rótulos no Brasil, o problema de reputação do vinho nacional e a falta de informação de quem bebe.

A conta que o salão faz enquanto você lê a carta

A precificação de vinho em restaurante tem uma regra de bolso antiga: multiplique o custo da garrafa por três. Garrafa que custou R$ 25 à casa vira R$ 75 no cardápio. Nas cartas mais baratas, o multiplicador cai para algo perto de 1,6 — e nas cartas mais caras ele tende a encolher em percentual, porque ninguém consegue triplicar uma garrafa de R$ 400 e continuar vendendo.

Traduzindo o jargão: markup é o multiplicador aplicado sobre o custo; margem é a fatia do preço final que sobra para a casa. São coisas diferentes, e boa parte dos restaurantes erra justamente aí — aplica multiplicador de vinho barato em vinho caro e cria um número que só faz sentido numa planilha.

A defesa do restaurante existe e é legítima: garrafa parada na adega é capital congelado, taça boa quebra, vinho aberto e não vendido vira prejuízo, e alguém precisa saber servir na temperatura certa. Tudo verdade. O problema é que nada disso escala com o preço do rótulo. Abrir uma garrafa de R$ 300 não dá três vezes mais trabalho do que abrir uma de R$ 100 — a rolha é do mesmo tamanho, a taça é a mesma, o garçom é o mesmo. Quando o markup é percentual e o custo de servir é fixo, quem bebe melhor paga proporcionalmente mais por um serviço idêntico.

A anatomia do preço da sua garrafa:

• Regra de bolso do setor: custo × 3 na carta; cartas mais baratas trabalham perto de 1,6×
• No restaurante, algumas garrafas saem por quase o dobro do preço do varejo
• O alimento menos taxado do Brasil (cesta básica) carrega cerca de 25% de tributação, contra 7% a 10% em outros países
• O vinho não entra nessa conta: é tributado como bebida alcoólica, faixa ainda mais alta
• Efeito preço-guarda-chuva: o importado de R$ 300 na prateleira autoriza o nacional a subir junto

(Fontes: entrevista de Mauro Salvo à Folha de S.Paulo; práticas de precificação do setor de food service)

Não, não é só o imposto

A resposta padrão de todo mundo que vende vinho no Brasil é apontar para o Leão, e o Leão realmente come. Salvo lembra que até o alimento da cesta básica — o item menos taxado do país — carrega algo em torno de 25% de tributação, enquanto em outros países a faixa fica entre 7% e 10%. O vinho, por ser bebida alcoólica, apanha ainda mais.

Só que o próprio economista se recusa a encerrar o assunto aí. A pergunta que ele faz é ótima: se a tributação fosse zerada amanhã, o vinho ficaria mais barato na mesma proporção? Ele tem sérias dúvidas. E quem já viu o que aconteceu com outros produtos após desoneração no Brasil sabe exatamente por quê — a alíquota cai, o preço de gôndola fica onde está, e a diferença vai para algum lugar que não é o seu bolso.

Há ainda um mecanismo mais sutil, que Salvo chama de efeito preço-guarda-chuva. Quando chega vinho estrangeiro a R$ 300 na prateleira, o produtor nacional não precisa mais justificar um preço alto — ele só precisa ficar um pouco abaixo do importado. O teto de referência não é o custo de produção; é o rótulo de fora. É um guarda-chuva que protege a margem de todo mundo, menos a sua.

O custo real de fazer vinho no Sul

Para ser justo com o produtor: no Rio Grande do Sul, fazer vinho é caro por motivos que não têm nada a ver com ganância. A umidade aumenta o gasto com problemas fúngicos e correção de solo. Colheita feita em encosta tem que ser manual. E cuidar de vinhedo exige mão de obra especializada, capaz de identificar problema na parreira e aplicar defensivo na hora certa. Nada disso é barato, e nada disso cabe numa frase de Instagram.

Também vale registrar que o vinho brasileiro melhorou de verdade. A reputação ruim que o produto carregou por décadas, segundo Salvo, foi merecida e tem explicação técnica: quando os produtores migraram do vinho de mesa para o vinho fino, escolheram a cabernet sauvignon — uma uva de maturação tardia — e a plantaram numa região onde a época da colheita é úmida. O resultado foram vinhos herbáceos e aguados, sem característica de terroir. Não foi preconceito do consumidor; foi uma reputação construída sobre fatos. Hoje, os brasileiros são os que mais crescem em premiações como a da revista inglesa Decanter.

O que fazer na próxima carta que chegar à sua mesa

Primeiro: fuja da segunda garrafa mais barata da carta. É a linha que quase todo mundo pede — o cliente não quer parecer pão-duro pedindo a primeira — e é justamente onde muitas casas colocam o markup mais agressivo. O meio da carta costuma ter margem menor e vinho melhor.

Segundo: vinho a copo mudou de patamar e virou seu aliado. Casas sérias investiram em conservação, e a taça bem servida dá acesso a rótulo bom sem comprometer a noite inteira em uma única aposta.

Terceiro: pergunte pela taxa de rolha. Cada vez mais restaurantes aceitam que você leve a sua garrafa mediante um valor fixo. Quando esse valor é honesto, é o arranjo mais transparente que existe — você paga pelo serviço, não por um multiplicador.

E quarto, o mais barato de todos: puxe o rótulo no celular antes de pedir. Trinta segundos de consulta é o que separa o cliente informado do cliente que descobre a conta depois da sobremesa.

Cobrar pela hospitalidade é legítimo. Cobrar o dobro da prateleira e chamar isso de curadoria é outra coisa — e agora tem um auditor do Banco Central com formação de sommelier disposto a dizer isso em 178 páginas.

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