
Comida pesa no bolso de 59% — e o primeiro corte é o jantar fora
Pesquisa da Serasa com o Opinion Box mostra que alimentação e supermercado lideram a lista de gastos que mais apertam o orçamento, e que 36% deixaram de sair de casa para economizar. No mesmo dia, o IPCA-15 de outubro mostrou o mercado subindo 1,01% e a refeição fora de casa, 0,61%.
Terceira semana do mês. O salário já foi para o aluguel, para a luz e para o carrinho do supermercado, que veio mais leve e mais caro do que no mês passado. Aí alguém sugere pizza na sexta. Você faz a conta de cabeça — e manda mensagem dizendo que vai ficar em casa. Se isso soa familiar, você está em boa companhia: é o retrato que a Serasa acaba de publicar.
Segundo pesquisa da Serasa em parceria com o Instituto Opinion Box, divulgada nesta semana, alimentação e supermercado estão entre os gastos que mais pesam no orçamento de 59% dos brasileiros. Bem à frente de moradia, aluguel ou financiamento (40%) e das contas da casa (32%). E 36% dos entrevistados disseram que deixaram de sair de casa para economizar.
O que a pesquisa encontrou
O problema não é só quanto se gasta, mas quando o dinheiro acaba. Para 41%, a terceira e a quarta semanas do mês são as mais difíceis de atravessar; 13% dizem que o aperto dura o mês inteiro. Outros 28% precisam cortar, adiar pagamento ou lidar com conta que não cabe no mês.
Quando percebem que o dinheiro não vai chegar até o fim, 29% reduzem gastos não essenciais e 22% buscam renda extra. O cartão de crédito é o principal tapa-buraco, citado por 28% — e a fatura é justamente a conta que mais ficou sem pagar, para 25%. "Quando os gastos essenciais consomem grande parte da renda, a margem para ajustes fica menor", disse Aline Vieira, especialista da Serasa em educação financeira. "O limite do cartão não deve ser tratado como uma extensão da renda."
O detalhe curioso: 75% afirmam planejar os gastos antes de o mês começar, quase metade em caderno. Planejar, pelo visto, não faz o arroz ficar mais barato.
O IPCA-15 confirma: o mercado subiu mais que o restaurante
A pesquisa saiu na mesma semana da prévia da inflação. O IPCA-15 de outubro, divulgado pelo IBGE na sexta-feira (23), subiu 0,32%, abaixo dos 0,70% de setembro, mas o grupo alimentação e bebidas acelerou para 0,88%. A comida comprada para casa subiu 1,01% no mês, puxada de novo pelo tomate, que avançou 24,54% e já acumula 45,17% em 12 meses — a sequência da disparada que o SaborCidade mostrou no IPCA de setembro.
Fora de casa, a alta foi menor no mês — 0,56% —, mas acelerou em relação a setembro (0,44%). A refeição subiu 0,61% e o lanche, 0,66%. No acumulado de 12 meses, o restaurante continua mais caro que o mercado: 6,47% para a alimentação fora do domicílio, contra 4,89% dentro de casa e 4,62% do índice geral. A exceção simpática é a cerveja no bar, que caiu 0,39% no mês.
• Alimentação e supermercado pesam no orçamento de 59%; moradia, 40%; contas da casa, 32%
• Deixaram de sair de casa para economizar: 36%
• Semanas mais difíceis: 3ª e 4ª do mês, para 41%
• IPCA-15 de outubro: geral 0,32%; alimentação no domicílio 1,01%; fora do domicílio 0,56%
• Refeição fora: +0,61% no mês e +6,24% em 12 meses; lanche: +7,58% em 12 meses
• Tomate: +24,54% no mês e +45,17% em 12 meses
• Vendas de bares e restaurantes em agosto: +7,4% sobre 2025 e -0,2% sobre julho
Fontes: Serasa e Instituto Opinion Box (via Mercado&Consumo), IBGE (IPCA-15, tabela 7062 do Sidra), Índice Abrasel-Stone (via ABIA).
Por que o restaurante é o primeiro a sair da lista
A lógica é cruel e simples. Supermercado é obrigatório; jantar fora não é. Quando o carrinho fica 1% mais caro em um mês, o ajuste não vem do feijão — vem da pizza de sexta, do rodízio do aniversário, do almoço de domingo. É exatamente o "gasto não essencial" que 29% dos entrevistados dizem cortar primeiro.
Os números do setor ainda não mostram tombo. O Índice Abrasel-Stone registrou alta de 7,4% nas vendas de agosto sobre o mesmo mês de 2025, o 11º mês seguido no azul, mas recuo de 0,2% sobre julho. E o presidente-executivo da Abrasel, Paulo Solmucci, fez a ressalva que interessa: os estabelecimentos estão absorvendo parte da pressão de custo e de crédito na margem, e o faturamento sozinho não mostra a saúde do negócio. Tradução: o salão ainda enche, mas o lucro de cada prato encolheu — o mesmo diagnóstico que fizemos quando o setor completou nove meses de alta.
O que o dono de restaurante pode fazer
Se 41% dos clientes sofrem na segunda metade do mês, o movimento também sofre — e o cardápio pode reconhecer isso. Prato executivo com preço fechado, combo de almoço e promoção concentrada na terceira e na quarta semanas costumam render mais que desconto genérico o mês inteiro. Não é ideia de consultor: até o Burger King e a Serasa fazem ação conjunta de "fim do mês" desde o meio do ano, com sanduíche grátis na madrugada da virada.
A outra lição é não repassar tudo de uma vez. Com a refeição já 6,24% mais cara em 12 meses e o cliente contando moeda, aumento grande no cardápio afasta mais do que compensa. Ajustar porção, trocar o tomate de prato que não depende dele e renegociar fornecedor dói menos que perder a mesa.
E para você, que ainda quer comer fora
Sair não precisa ser luxo. O restaurante por quilo continua sendo a forma mais previsível de controlar a conta — você vê o peso antes de pagar. O prato executivo no almoço costuma custar uma fração do mesmo prato no jantar. E vale conferir a regra do couvert e da taxa de serviço: em mês apertado, pagar couvert que você não pediu é dinheiro jogado fora — e você tem o direito de recusar.
Por fim, a dica da própria Serasa vale para a mesa também: o cartão não é extensão do salário. Parcelar o jantar de sexta é a forma mais cara de comer fora.
O brasileiro não deixou de gostar de restaurante. Deixou de caber no restaurante — e quem entender isso primeiro fica com a mesa cheia na terceira semana do mês.
