
Newcastle numa granja de perus em SC fecha a China e o México — e o frango pode sobrar aqui
O Ministério da Agricultura confirmou a doença em 6 mil perus de Nova Itaberaba, no oeste catarinense. A China barrou só Santa Catarina, o México barrou o Brasil inteiro. Para quem come, nada muda na segurança do prato; para quem compra frango para a cozinha, o preço pode mudar.
Você pede o PF com frango grelhado, o restaurante cobra o mesmo de sempre e ninguém pensa em granja nenhuma. Só que, desde domingo, uma granja de perus no oeste de Santa Catarina passou a decidir quanto a carne de frango vai valer no atacado nas próximas semanas — e, por tabela, quanto custa o seu almoço.
O Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) confirmou um foco da doença de Newcastle numa granja comercial com cerca de 6 mil perus em Nova Itaberaba (SC). A confirmação saiu do Laboratório Federal de Defesa Agropecuária de São Paulo, referência da Organização Mundial de Saúde Animal (OMSA) para a doença. Nenhuma ave tinha sintoma: o vírus foi achado pela vigilância ativa da Cidasc, em amostras colhidas em 21 de setembro.
O que aconteceu na granja
Newcastle é um vírus de ave — galinha, peru, ave silvestre. Num galpão fechado, a mortalidade pode chegar a 100% do lote, e não há tratamento. Por isso o protocolo é duro: granja interditada, aves sacrificadas, limpeza e desinfecção. O Mapa declarou emergência zoossanitária por 60 dias em quatro municípios — Nova Itaberaba, Águas Frias, Coronel Freitas e Nova Erechim — e uma zona de restrição de cerca de 10 km com 133 granjas sob monitoramento.
É o primeiro caso em criação comercial desde julho de 2024, quando a doença apareceu numa granja de frangos em Anta Gorda (RS). Segundo o ministério, o vírus já circula entre aves silvestres no país. O Brasil tem 90 dias para pedir à OMSA a volta ao status de livre da doença, contados depois que o foco for declarado extinto.
Pode comer frango? Pode
Vamos tirar isso da frente antes que o grupo da família tire por você. O Mapa diz, em nota, que "o consumo de produtos avícolas submetidos à inspeção oficial permanece seguro, sem contraindicações". A doença não passa para quem come a carne. Em humanos, o máximo que o vírus faz é uma conjuntivite leve, e só em quem tem contato direto com secreção de ave doente — ou seja, o tratador, não o cliente do restaurante.
"Foi encontrado o DNA do vírus em mais de uma ave. Elas serão sacrificadas sanitariamente e não há risco de que a doença se espalhe, nem para o consumo do produto", disse Ricardo Santin, presidente da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA). As entidades catarinenses repetiram a frase que resume tudo: é questão de sanidade animal, não de segurança alimentar. Quem trocar o frango pelo bife por medo vai pagar mais caro por um susto que não existe — a arroba do boi, aliás, anda em recorde.
Quem fechou a porta
O problema real é comercial. O protocolo sanitário com a China obrigava o Brasil a suspender os embarques de carne de aves. Na terça-feira (20), o Mapa informou que, depois de negociação com Pequim, a restrição chinesa ficou limitada a Santa Catarina: "A atuação do Mapa permitiu evitar a suspensão das importações provenientes de todo o território nacional", diz a nota. O Chile fez o mesmo, também só para o estado, mas com lista ampla — carne fresca, ovos de consumo e produtos com carne de ave.
O México foi mais longe e suspendeu as compras do Brasil inteiro: aves vivas, carne, miúdos, ovos férteis e pintinhos. O argumento do governo mexicano é que o país é livre de Newcastle e quer continuar assim. No mercado financeiro, a MBRF (dona da Sadia) teve a maior queda do Ibovespa na segunda, de mais de 4%, e perdeu cerca de R$ 1,1 bilhão em valor de mercado.
• Foco: ~6 mil perus em Nova Itaberaba (SC), sem sinais clínicos
• Emergência zoossanitária: 60 dias em 4 municípios; 133 granjas monitoradas
• China: suspensão só de Santa Catarina; 61 frigoríficos brasileiros habilitados a exportar para lá
• México: suspensão nacional; comprou 153.957 t de frango brasileiro de janeiro a agosto (US$ 338,2 milhões)
• China, no mesmo período: 379.757 t (US$ 1,043 bilhão)
• Exportação brasileira de frango no último ano: recorde de 5,324 milhões de t
Fontes: Mapa (via Metrópoles e Tribuna do Sertão), Deral/Seab-PR (via RIC), ABPA.
O que isso faz com o preço do frango
Frango que não embarca fica aqui. E frango que fica aqui, em quantidade, derruba o preço no atacado. O Brasil já viu esse filme em 2025: depois do caso de gripe aviária de maio, com vários países fechados, o quilo do frango congelado no atacado da Grande São Paulo saiu de R$ 8,60 em maio e só voltou a subir em setembro, ainda a R$ 7,40, segundo o Cepea (Esalq/USP). Quatro meses seguidos de queda.
Desta vez o choque deve ser menor. Em 2025 a China fechou para o país inteiro; agora fechou só para Santa Catarina, e o Paraná — maior produtor e exportador, que vendeu 1,6 milhão de toneladas lá fora até agosto — continua embarcando para Pequim. O México pesa, mas é o oitavo comprador, não o primeiro. A tendência é de alguma folga no preço, não de uma liquidação. Quanto, ninguém sabe ainda: depende de quanto tempo as portas ficam fechadas. Em 2024, a China reabriu ao Brasil em menos de um mês, mas deixou o Rio Grande do Sul de fora por um ano e meio.
O que fazer na cozinha e na mesa
Se você é dono de restaurante, de por quilo ou de marmitaria, é hora de conversar com o fornecedor de frango, e não de travar contrato longo no preço de setembro. Coxa, sobrecoxa, peito e filé são justamente os cortes que mais giram para exportação; se sobrar, é ali que o desconto aparece primeiro.
Se você é cliente, olhe o cardápio com atenção nas próximas semanas. Insumo que cai e preço que não cai é margem — legítima, mas é bom saber. E o peru do Natal? O foco foi numa granja de perus, mas a carne inspecionada continua liberada para consumo e a granja interditada não abastece ninguém. Não há motivo para pânico na ceia, só para acompanhar a gôndola.
No fim, o vírus não chega ao seu prato. Quem chega é o efeito colateral, e esse vem pela nota fiscal.
Newcastle não faz mal a quem come frango. Faz mal a quem vende frango para fora — e, por um tempo, pode fazer bem a quem compra aqui dentro.
