
Lei seca na eleição: sete estados fecham a torneira do bar no domingo — e Alagoas desistiu na véspera
Não existe lei seca nacional no dia da votação. Quem decide é cada estado, com o TRE, e o mapa do primeiro turno, neste domingo (4), proíbe a venda de bebida em todo o território de sete estados, quase todos do Norte, e em parte de outros cinco. São Paulo, Rio, Minas, Paraná e Santa Catarina ficam liberados. Alagoas anunciou a proibição e revogou cinco dias depois.
Você vota de manhã, encontra os amigos no boteco da esquina para comentar a fila da seção e pede uma cerveja. Em Belém, o garçom vai dizer que não pode. Em São Paulo, vai trazer o balde. A diferença não está no bom senso do dono do bar: está numa portaria estadual que muita gente só descobre no balcão.
O primeiro turno das eleições gerais de 2026 é neste domingo, 4 de outubro, e a chamada "lei seca eleitoral" voltou a virar uma colcha de retalhos. Levantamento da Agência Brasil publicado nesta quinta-feira mostra sete estados com proibição em todo o território, cinco com restrição só em algumas cidades ou zonas eleitorais e onze sem restrição nenhuma.
Não existe lei seca nacional
Essa é a primeira confusão a desfazer. Nenhuma lei federal proíbe vender ou beber álcool no dia da eleição. O que existe é a prerrogativa de cada estado: o Tribunal Regional Eleitoral, em conjunto com a Secretaria de Segurança Pública, decide se haverá restrição, em que horário e para quem. Por isso a regra muda de uma divisa para a outra, e às vezes de uma cidade para a vizinha.
A lógica oficial é a ordem pública: evitar briga perto de seção eleitoral, eleitor alterado na fila e boca de urna regada a cachaça. A lógica do dono de bar é outra: domingo de eleição costuma ser dia de casa cheia, com gente na rua desde cedo e assunto de sobra para a mesa.
Onde o bar fecha a torneira
Segundo a Agência Brasil e o portal Migalhas, que compilaram as portarias, a proibição vale em todo o território de Pará, Amazonas, Amapá, Acre, Roraima, Piauí e Maranhão. Os horários não batem entre si:
• Pará: da 0h às 18h de domingo; vale também para bebida dada de graça
• Amazonas: das 2h às 17h de domingo
• Amapá: das 22h de sábado às 18h de domingo, incluindo entrega
• Acre: da 0h às 16h; delivery em casa também proibido
• Roraima: das 23h de sábado às 17h de domingo
• Piauí: das 18h de sábado às 18h de domingo
• Maranhão: da 0h às 22h de domingo, a mais longa no próprio dia
• Restrição só em parte do estado: Bahia, Goiás, Mato Grosso, Sergipe e Tocantins
• Sem restrição: SP, RJ, MG, ES, PR, SC, DF, PE, PB, MS e AL (que revogou)
Fontes: Agência Brasil, Migalhas, Metrópoles e portarias estaduais, até 1º/10. A regra pode mudar até sábado.
A concentração no Norte salta aos olhos: dos sete estados com proibição total, seis ficam na região, e o sétimo, o Maranhão, faz divisa com ela. No Nordeste, além do Maranhão, só o Piauí mantém a proibição em todo o estado.
Nos cinco estados de restrição parcial, a decisão desceu para os juízes eleitorais. Em Tocantins, Palmas proíbe da 0h às 17h, e Araguaína e Porto Nacional, das 18h de sábado às 18h de domingo. Em Goiás, a regra pega Valparaíso de Goiás, Cidade Ocidental e Cocalzinho. Na Bahia, são 11 municípios, como Morro do Chapéu. Em Mato Grosso, sete zonas eleitorais têm horários próprios, e a portaria avisa que descumprir pode configurar crime de desobediência eleitoral.
Ceará e Rio Grande do Norte ainda não tinham regra estadual confirmada pela Agência Brasil até a publicação; alguns veículos cearenses falam em proibição das 8h às 18h. Se o seu bar fica nesses estados, a recomendação é olhar o Diário Oficial antes de abrir a porta no domingo.
Alagoas: proibiu na sexta, liberou na quarta
O caso alagoano resume a bagunça. A Secretaria de Segurança Pública publicou em 25 de setembro a Portaria nº 1.138/2026, que proibia a venda das 3h às 18h de domingo em bares, restaurantes, hotéis e para ambulantes. Na quarta-feira (30), o secretário Flávio Saraiva da Silva assinou a Portaria nº 1.163/2026, que revogou a anterior. Resultado: bares, restaurantes, hotéis, supermercados e ambulantes podem vender normalmente durante todo o domingo de votação.
Para o dono de bar, cinco dias de diferença mudam tudo: compra de chope, escala de garçom, promoção no Instagram, gelo encomendado. Quem cancelou o pedido do distribuidor na sexta teve de correr atrás na quinta. Quem não leu a revogação talvez fique de portas fechadas sem precisar.
O que pode e o que não pode
Onde não há portaria, não há proibição: você pode beber em casa, no bar ou no restaurante, antes ou depois de votar. O que nenhuma liberação autoriza é atrapalhar a votação. Eleitor alterado que tumultua a seção pode responder por crime eleitoral, e o artigo 347 do Código Eleitoral prevê detenção de três meses a um ano, mais multa, para quem desobedece ordens da Justiça Eleitoral.
Onde há portaria, o alvo principal é o estabelecimento. O bar que vende no horário proibido se arrisca a ter a bebida apreendida e o responsável levado à delegacia por desobediência. Em vários estados a regra vale também para bebida "cortesia", entrega em domicílio e consumo em local público, ou seja, não adianta servir de graça nem mandar pelo motoboy.
E vale lembrar o calendário: se houver segundo turno, em 25 de outubro, os estados podem publicar portarias novas, com horários diferentes. A regra de agora não se repete automaticamente.
Como se programar
Se você é cliente: confira a regra do seu estado e, nos estados de restrição parcial, a da sua cidade. Nos estados com proibição até 16h, 17h ou 18h, o happy hour de domingo existe, só começa mais tarde. Se você quer aproveitar o fim da tarde, o nosso guia de happy hour e o guia de bares ajudam a escolher onde.
Se você é dono de bar: guarde o número da portaria do seu estado, imprima e deixe no caixa. É o melhor argumento quando o cliente insiste na cerveja às 11h, e a melhor defesa se a fiscalização aparecer onde não há restrição. Ajuste o pedido de chope ao horário real de venda, e não ao de um domingo comum. E, se a regra for até 18h, a noite de domingo pode compensar parte do movimento perdido. Para quem trabalha com chope, entender a diferença entre chope e cerveja na hora de dimensionar o barril evita sobra quente na segunda.
No Brasil, a cerveja do domingo de eleição depende do CEP. Leia a portaria antes de gelar o balde, porque ela muda até na véspera.
