
A comida coreana saiu do Bom Retiro — e já chegou à pizza e à grelha de Botafogo
O Rio ganhou um restaurante dedicado ao churrasco coreano, com grelha a carvão na mesa e R$ 320 para dois. Em São Paulo, a Bráz Elettrica lançou uma pizza com gochujang e barriga de porco, e casas coreanas se espalham longe do bairro de origem. Os pedidos no delivery cresceram 430% em cinco anos. Veja o que vale o preço.
Se há cinco anos alguém falasse em gochujang numa mesa de pizzaria paulistana, o garçom ia achar que era nome de jogador. Hoje a pasta coreana de pimenta fermentada está no molho de uma pizza da Bráz Elettrica, o Rio de Janeiro ganhou uma casa inteira dedicada ao churrasco coreano e o hot dog coreano virou o campeão de pedidos da culinária no delivery. A comida coreana, que por décadas morou quase só no Bom Retiro, em São Paulo, fez as malas.
A pergunta é se você está diante de uma cozinha que chegou para ficar ou de mais uma onda de rede social que vai durar até o próximo prato viral. Os sinais desta semana apontam para a primeira opção — mas com preço de novidade.
Botafogo ganha grelha a carvão na mesa
O Banchan, em Botafogo, é descrito pela Veja Rio como o primeiro endereço da cidade voltado ao churrasco coreano. No segundo andar ficam os equipamentos a carvão onde o próprio cliente assa as carnes: são sete mesas, só com reserva. O grupo escolhe entre opções para duas pessoas (R$ 320) ou quatro (R$ 640) e vai grelhando os cortes enquanto divide os acompanhamentos, repostos à vontade.
Esses acompanhamentos, aliás, dão nome à casa. Banchan são as tigelinhas que cercam a refeição coreana — kimchi (a conserva fermentada de acelga com pimenta), brotos temperados, picles, legumes salteados. Na Coreia, reposição de banchan sem custo extra é praticamente lei não escrita. Que a casa carioca siga a tradição é um bom sinal.
No térreo, o cardápio é à la carte: o saeu mandu, pastel de massa fina recheado de camarão e gengibre, cozido no vapor e finalizado na grelha, sai por R$ 49; o bibimbap — tigela de arroz com carne marinada em fatias finíssimas, legumes, ovo, óleo de gergelim e gochujang — custa R$ 110. Para fechar, pudim de doenjang (a pasta de soja fermentada, prima do missô) com espuma de Yakult, por R$ 45. À frente estão o empresário peruano Marco Espinoza e a chef Juliana Palhares, com passagens pelo Si-chou e pelo Mee.
Em São Paulo, a pizza virou coreana
Do outro lado da Dutra, o coreano entrou pela porta mais paulistana possível: a pizzaria. A Bráz Elettrica lançou a Korean Style, criada por Paul Cho — da Paul's Boutique, pizzaria de estilo nova-iorquino — e Anthony Falco, seu antigo mentor, que voltam a trabalhar juntos quase uma década depois da inauguração da casa. A receita, contada pelo Paladar, leva molho de tomate com shoyu e gochujang, muçarela, muçarela de búfala e barriga de porco assada. Depois do forno, ganha salada de repolho com coentro, salsinha e cebolinha, torresmo com chilli crispy e picles de nabo.
É a quarta edição do Elettrica & Co., projeto em que a rede convida profissionais a criar pizzas a partir do próprio repertório. O purista da napolitana e da paulistana vai torcer o nariz; quem gosta de sabor vai entender que barriga de porco, picância fermentada e picles ácido é uma combinação que a cozinha coreana já domina há séculos. A pizza só pegou carona.
Longe do Bom Retiro, o coreano barato e o coreano de degustação
A coluna K-cultura, da Folha, listou dez restaurantes coreanos fora da rota tradicional do Bom Retiro e da Liberdade — e o leque de preço é bom termômetro do momento. Na Santa Cruz, zona sul, o Jung Jib nasceu das receitas que Priscila Jung postava nas redes e aposta em comida de rua: o corn-dog, salsicha no espeto envolta em massa empanada com panko, custa R$ 25; o kim mari, enroladinho de macarrão de batata-doce e legumes na alga, frito, sai a R$ 30 as quatro unidades.
Na Barra Funda, o Komah, do chef Paulo Shin, completa dez anos como um dos responsáveis por popularizar a cozinha coreana na cidade. O menu-degustação de cinco etapas custa R$ 150 por pessoa e termina no samgyeopsal — pancetta assada e glaceada no gochujang para enrolar com arroz em folha de alface e comer com a mão.
• Pedidos de comida sul-coreana no iFood: +430% em cerca de cinco anos, mais de 235 mil pedidos em 2025; São Paulo lidera (iFood, via SBT News)
• Mais pedidos: hot dog coreano, frango apimentado agridoce, kimchi e bibimbap (iFood)
• Banchan (Rio): churrasco para dois R$ 320, para quatro R$ 640; bibimbap R$ 110 (Veja Rio)
• Komah (SP): degustação de cinco etapas R$ 150 por pessoa; Jung Jib (SP): corn-dog R$ 25 (Folha)
• Bráz Elettrica: pizza Korean Style, 4ª edição do Elettrica & Co. (Paladar)
De onde vem essa fome — e quanto ela custa
Segundo levantamento do iFood divulgado no fim de 2025, os pedidos de comida sul-coreana cresceram 430% em cerca de cinco anos e passaram de 235 mil em 2025, com São Paulo na liderança. O ranking dos mais pedidos entrega o caminho da conversão: hot dog coreano, frango apimentado agridoce, kimchi e bibimbap. Primeiro vem o lanche de rua que viraliza; depois, a curiosidade pelo prato de verdade.
Faça a conta do Banchan: R$ 160 por pessoa no churrasco, antes de bebida e serviço. Não é barato, mas está na faixa de uma churrascaria de rodízio de bom nível — com a diferença de que quem assa é você. Já o bibimbap a R$ 110 é preço de prato principal de restaurante da zona sul carioca, e cobra o ingrediente-chave da onda: novidade.
Como comer coreano sem pagar pelo hype
Comece pela porta barata: corn-dog, mandu e frango frito coreano dizem muito sobre a cozinha da casa sem pesar no bolso. Se gostar, aí sim vale o churrasco ou a degustação. No churrasco de mesa, pergunte antes quais cortes e quantos gramas entram no combo para dois — "porção para duas pessoas" é unidade de medida elástica.
Confira se os banchans são repostos sem custo e se há couvert ou taxa embutida; o costume coreano é generoso e você tem direito de saber a regra antes de sentar. E não estranhe comer com a mão, enrolando carne na folha de alface: é assim mesmo.
A cozinha coreana demorou décadas para sair do Bom Retiro. Agora que saiu, vai parar na pizza, na grelha e no delivery. O kimchi chegou para ficar — o preço de novidade é que precisa aprender a ir embora.
