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O Rio ganha um matsuri de três dias — e a comida japonesa vai muito além do hot roll

O Rio ganha um matsuri de três dias — e a comida japonesa vai muito além do hot roll

O Carioca Matsuri ocupa o Riocentro de sábado a segunda, no feriado de Finados, com restaurante temático do chef André Kawai, atum bluefin, vieiras de Hokkaido e oficinas gratuitas de cozinha japonesa. A organização espera 35 mil pessoas e R$ 7 milhões de impacto econômico. Veja o que vale o seu dinheiro — e o que é de graça.

SaborCidade · · 6 min de leitura

Você já comeu "comida japonesa" no Rio — aquela que vem num barco de isopor com doze hot rolls, cream cheese em tudo e molho tarê escorrendo pelas bordas. Agora imagine o contrário: chirashizushi, tendon, unagi japonesa e um bolinho de arroz moldado à mão por senhoras japonesas de 70 e 80 anos. É essa a promessa do Carioca Matsuri, que ocupa o Riocentro, na Barra Olímpica, entre sábado (31) e segunda-feira (2), das 11h às 22h.

A segunda-feira é feriado de Finados, o que transforma o festival num programa de fim de semana prolongado. A organização espera 35 mil pessoas nos três dias, um impacto econômico estimado em R$ 7 milhões e mais de 300 empregos diretos e indiretos, segundo os números divulgados na coletiva de lançamento, feita na Associação Nikkei do Rio de Janeiro com a presença do cônsul-geral do Japão no Rio, Takashi Manabe.

O que é um matsuri — e por que o Rio estava sem um

Matsuri é o nome dos festivais populares japoneses: festa de rua, de bairro, de comunidade, com barraca de comida, música, dança e gente de todas as idades. É a quermesse japonesa, guardadas as proporções.

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O Rio já teve o seu. O Rio Matsuri fez a última edição em 2020 e somou mais de 120 mil visitantes ao longo da história, segundo a Veja Rio. O Carioca Matsuri se apresenta como herdeiro dessa tradição, depois de seis anos de lacuna. A programação inclui apresentações de taikô (os tambores japoneses), danças tradicionais, artes marciais, desfiles de cosplay e dubladores de anime — mas, para quem lê o SaborCidade, o que interessa está no prato.

O restaurante do chef André Kawai: o lado premium

O destaque gastronômico é um restaurante temático comandado pelo chef André Kawai, presidente da Nagoya Sushi School e da Associação Geral de Sushi do Brasil. Kawai tem o título de Embaixador da Boa Vontade para a Difusão da Culinária Japonesa, concedido pelo Ministério da Agricultura, Silvicultura e Pesca do Japão a profissionais que promovem a cozinha do país no exterior, e a Veja Rio o descreve como detentor de uma estrela Michelin.

O menu especial terá chirashizushi (arroz de sushi servido numa tigela, com peixes e acompanhamentos por cima — o "sushi desmontado"), tendon (tigela de arroz com tempurá e molho), combinados de sushi, sashimis e hand rolls. Na lista de ingredientes estão atum bluefin importado, vieiras de Hokkaido, unagi japonesa (enguia), caviar de mujol espanhol e hamachi, o olhete japonês.

Leitura honesta: isso é ingrediente de restaurante de omakase, não de praça de alimentação. Bluefin e vieira de Hokkaido chegam de avião, e frete aéreo de peixe fresco não sai barato para ninguém. O material de divulgação não traz os preços dos pratos, então a recomendação é simples — olhe o cardápio com valor antes de entrar na fila. Experiência premium em festival costuma ter preço premium, e "Michelin" no cartaz não é cupom de desconto.

Carioca Matsuri 2026 — o essencial

• Quando: sábado (31) a segunda-feira (2), das 11h às 22h
• Onde: Riocentro, Av. Salvador Allende, 6555, Barra Olímpica
• Público esperado: 35 mil pessoas; impacto estimado de R$ 7 milhões e 300+ empregos
• Restaurante temático do chef André Kawai: bluefin, vieiras de Hokkaido, unagi, hamachi
• Auditório Gastronômico com 10 chefs e especialistas e oficinas gratuitas por ordem de chegada
• Ingressos pela Ticketmaster; crianças de até 10 anos e 11 meses não pagam, acompanhadas de adulto pagante; há meia-entrada nos termos da lei
• Antecessor: o Rio Matsuri, última edição em 2020, com mais de 120 mil visitantes no histórico

Fontes: Veja Rio, Sopa Cultural (anúncio oficial da programação) e página do evento na Ticketmaster.

O lado gratuito: o auditório e as oficinas

A melhor notícia, para o bolso, está no Auditório Gastronômico. Por lá passam Douglas Kenji, Carlos Ohata, Alissa Ohara, Eric Ueda (chef dos restaurantes Casa Ueda e Kakurenbo), Eduardo Nakahara, Nao Hara, Sany Mizuki, Laura Kiyoko Ide, Mayumi Muto e Shinichiro Kinoshita. Entre os nomes estão uma especialista em washoku — a cozinha tradicional japonesa, reconhecida pela Unesco — e uma professora de gastronomia asiática da UFRJ.

As oficinas gratuitas mostram técnicas e preparos da cozinha nipônica, com entrada por ordem de chegada, sem inscrição prévia, limitada à capacidade de cada espaço. Traduzindo: chegue cedo. Meia hora de demonstração com um profissional rende mais do que dez vídeos de receita.

A atração mais bonita do anúncio talvez seja a mais simples: o bolinho de arroz japonês moldado à mão — o onigiri — preparado por senhoras japonesas entre 70 e 80 anos. É comida de casa, de lancheira, de estação de trem. E é o oposto do sushi de rodízio que virou sinônimo de "japonês" por aqui.

Comida de rua japonesa: o que o carioca quase não encontra

A organização promete também comidas de rua famosas no Japão e ainda pouco encontradas no circuito de restaurantes cariocas. Esse é o ponto que mais interessa. A comida japonesa no Brasil foi filtrada, por décadas, por um único formato: o rodízio de sushi, com salmão em tudo. O Japão real come muito mais coisa — e muita dela é barata, quente e feita na hora.

Quem quiser entender a diferença antes de ir pode começar pelo nosso guia dos tipos de sushi e pela conta do rodízio japonês. E, num evento com 35 mil pessoas circulando, vale reler o básico sobre peixe cru e segurança: barraca com fila enorme, peixe exposto sem refrigeração e sushi montado horas antes são três sinais para seguir andando.

Vale a pena?

Depende do que você vai buscar. Se a ideia é provar um bluefin de verdade, o restaurante do Kawai é uma chance rara — desde que o preço caiba e esteja claro na entrada. Se a ideia é entender a comida japonesa para além do cream cheese, as oficinas gratuitas e as barracas de comida de rua são o melhor custo-benefício do festival.

E se o Rio já perdeu um festival este mês — o Mondial de la Bière foi adiado para 2027 —, ganhar um matsuri de três dias no feriado não é pouca coisa. Só não confunda a festa com o seu rodízio de sexta: no Japão, matsuri é para comer devagar, andando, conversando. O hot roll fica para outro dia.

Comida japonesa nunca foi só sushi. Foi o Brasil que esqueceu de pedir o resto.

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