Uma fechou 50 lojas, a outra abriu 29: a guerra das cafeterias brasileiras em 2026

Uma fechou 50 lojas, a outra abriu 29: a guerra das cafeterias brasileiras em 2026

A Starbucks encolheu no Brasil e agora promete 30 aberturas — 80% delas em São Paulo. Enquanto isso, redes nacionais cresceram 52% em um ano e miram centenas de unidades. O país que toma café desde sempre virou o campo de batalha mais disputado do varejo de alimentação.

SaborCidade ·

Se você anda por qualquer capital brasileira reparando em fachadas, já notou: nunca houve tanta cafeteria. E, ao mesmo tempo, você provavelmente viu alguma fechar — talvez uma daquelas grandes, com sofá e logo verde, que parecia intocável. As duas coisas estão acontecendo simultaneamente, e não é contradição. É consolidação.

O caso mais didático é o da Starbucks. A rede fechou cerca de 50 lojas no Brasil e agora anuncia a retomada: 30 novas unidades em 2026, uma expansão de 27% sobre as 112 em operação. Detalhe revelador: 80% das aberturas serão em São Paulo, e o restante dividido entre Rio, Belo Horizonte, Salvador e Porto Alegre. Ou seja — a estratégia deixou de ser cobrir o país e passou a ser adensar onde já dá dinheiro.

Enquanto a gigante recuava, as nacionais correram

O espaço que a rede americana abriu não ficou vazio nem por um trimestre. A Sterna Café abriu 29 unidades ao longo de 2025 — crescimento de 52% na base de operações —, começou 2026 com 90 lojas e projeta encerrar o ano com 130. A Grão Espresso já opera mais de 240 lojas em 23 estados. A Casa Bauducco montou um programa para triplicar o número de multifranqueados, mirando a marca das 500 unidades.

Repare no que esses números dizem juntos. A rede global tem 112 lojas depois de mais de duas décadas no país. Uma rede nacional tem 240 e mira meio milhar. O Brasil não rejeitou a cafeteria — rejeitou um modelo específico de cafeteria e adotou outro.

O mapa das cafeterias brasileiras — 2026:

• Starbucks: fechou cerca de 50 lojas; hoje 112 em operação; prevê +30 em 2026 (+27%), 80% em São Paulo
• Sterna Café: +29 unidades em 2025 (crescimento de 52%); 90 lojas em janeiro, meta de 130 até o fim de 2026
• Grão Espresso: mais de 240 lojas em 23 estados
• Casa Bauducco: programa de multifranqueados mirando 500 lojas
• Consumo: 95% dos brasileiros tomam café
• Cafés premium: crescimento de 15% ao ano

Por que o modelo importado emperrou aqui

A cafeteria global foi desenhada para um mercado onde o café não fazia parte da rotina — ela vendeu a experiência, o copo com seu nome, o sofá, o "terceiro lugar" entre casa e trabalho. Funcionou brilhantemente em países que não tinham cultura de balcão.

Só que o Brasil tem. Aqui, 95% da população toma café, e toma há gerações, em pé, no balcão da padaria, por dois ou três reais, várias vezes ao dia. Vender a experiência de tomar café para quem já toma café a vida inteira é uma proposta muito mais difícil — porque o cliente tem parâmetro de preço, de sabor e de rapidez.

Some a isso o custo. O modelo de loja grande, com muitos assentos e permanência longa, precisa de metro quadrado caro em ponto nobre e de um ticket alto para pagar a conta. Já os formatos que estão crescendo são outros: loja compacta, foco em consumo rápido, quiosque em shopping e supermercado, operação enxuta. Menos sofá, mais giro. É a mesma lógica que fez a padaria brasileira sobreviver a tudo — ela nunca dependeu de ninguém ficar duas horas sentado.

A parte boa: o café melhorou de verdade

Aqui vai um crédito honesto, porque seria injusto não dar. A expansão das cafeterias, importadas e nacionais, treinou o paladar do brasileiro. O consumo de cafés premium cresce 15% ao ano — e isso é consequência direta de uma década em que muita gente experimentou, pela primeira vez, café que não era queimado.

Hoje é comum encontrar em rede de shopping coisas que eram exóticas há dez anos: grão de origem identificada, moagem na hora, método coado como opção de cardápio, barista que sabe explicar a diferença entre um café de acidez cítrica e um de corpo achocolatado. A concorrência empurrou todo mundo para cima, incluindo a padaria da esquina, que hoje frequentemente serve um espresso melhor do que servia — porque perdeu cliente e reagiu.

Onde vale a pena gastar o seu dinheiro

Três recomendações práticas, sem torcida por marca. Primeira: preço alto não é sinônimo de café melhor. Boa parte do que você paga num copo de R$ 18 é aluguel de ponto nobre, assento e tempo de permanência. Se você vai pegar e sair, está pagando por uma estrutura que não vai usar.

Segunda: o melhor indicador de qualidade não é a decoração, é a informação. Cafeteria que diz de onde vem o grão, quando foi torrado e qual o perfil da bebida está apostando no produto. Cafeteria que só fala de tamanho de copo e sabor de xarope está apostando na sobremesa — o que é legítimo, mas então você está comprando doce, não café.

Terceira: teste o espresso puro antes de julgar a casa. Todo o resto — o leite, o caramelo, o chantilly, o gelo — mascara defeito. O café curto no balcão não tem onde se esconder. Se ele for bom ali, o restante do cardápio provavelmente também é.

O Brasil é o país que exporta café para o mundo, toma café desde criança e passou as últimas décadas assistindo a redes gigantes tentarem lhe ensinar a fazer isso. No fim, quem está ganhando a guerra das cafeterias são as que entenderam que o brasileiro não precisa aprender a gostar de café — precisa só de um bom motivo para trocar o balcão de sempre.

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