
Cacau dá sinal de trégua no mundo — mas seu chocolate segue 25% mais caro
A tonelada de cacau caiu da máxima histórica e a arroba na Bahia despencou de R$ 803 para R$ 238 em um ano. Só que o preço do chocolate nas prateleiras não sentiu nada disso — subiu quase 25% em 12 meses. A conta não fecha, e você é quem paga a diferença.
Você já reparou que, toda vez que o insumo de alguma coisa fica mais barato, o produto final demora uma eternidade para acompanhar — mas quando o insumo sobe, o preço na prateleira reage no dia seguinte? Com o chocolate está acontecendo o exemplo mais didático disso em anos. O cacau, vilão oficial da crise dos últimos três anos, já dá sinais claros de alívio. E o seu ovo de Páscoa, a sua barra de todo dia, seguem cobrando a conta antiga.
Os números batem de frente. Há três anos, a tonelada de cacau custava cerca de US$ 2,3 mil no mercado internacional. Ela chegou a bater US$ 8 mil a US$ 9 mil no pico da crise — uma multiplicação por quase quatro que jogou a indústria mundial de chocolate de joelhos. Só que, na ponta produtora brasileira, o desmonte já começou: a arroba do cacau na Bahia, que valia em média R$ 803,69 há um ano, hoje sai por R$ 238,19. Uma queda de mais de 70%. E o seu chocolate? Subiu.
A conta que não desce junto
No consumidor final, o preço do chocolate acumulou alta de 24,77% nos últimos 12 meses. Só no primeiro trimestre de 2026, a inflação da categoria já bateu 4,44%. Ou seja: o produtor de cacau já está recebendo bem menos pela mesma arroba, mas a indústria e o varejo não repassaram nada disso para quem compra a barra no mercado ou o ovo na vitrine da confeitaria. É o repasse de mão única mais clássico da economia brasileira — sobe rápido, desce nunca.
Isso não é exclusividade brasileira. Segundo Adalbert Lechner, presidente-executivo da Lindt & Sprüngli, e Lydia Toth, porta-voz da associação suíça Chocosuisse, a indústria global também segurou os preços no teto mesmo com o cacau perdendo força — ninguém corre para devolver margem que já embolsou. Tracey Allen, estrategista de commodities do J.P. Morgan, projeta que o preço deve se estabilizar num patamar estrutural de cerca de US$ 6 mil por tonelada — mais que o dobro do valor de três anos atrás, mesmo "aliviado".
• Tonelada de cacau: de US$ 2,3 mil para até US$ 9 mil em 3 anos
• Arroba na Bahia: de R$ 803,69 para R$ 238,19 em 1 ano (queda de mais de 70%)
• Preço do chocolate ao consumidor: +24,77% em 12 meses
• Alta na Páscoa de 2025: 18,9%, a maior em 13 anos
• Produção de ovos de Páscoa: -22% no ano
• Consumo domiciliar (1º tri/2025): -19% em volume, -10% em unidades
(Fontes: Lindt & Sprüngli, Chocosuisse, J.P. Morgan, Capital Economics, Worldpanel by Numerator)
Por que ninguém devolve o dinheiro
A explicação técnica tem nome: assimetria de repasse. Quando o custo da matéria-prima sobe, a indústria reajusta o preço quase em tempo real — afinal, margem é sagrada. Quando o custo cai, o reajuste inverso demora meses, às vezes nunca acontece, porque a mesma indústria prefere "recompor margem perdida" nos meses de crise antes de considerar qualquer alívio ao consumidor. Hamad Hussain, economista da Capital Economics, resume o que todo mundo já sentia no bolso: o repasse de preço no setor de alimentos é estruturalmente mais rápido para cima do que para baixo.
Some a isso um detalhe local: mesmo com a arroba baiana em queda livre, o Brasil ainda depende de cacau importado de qualidade específica para blends finos, e o dólar caro anula boa parte do alívio doméstico antes de chegar à fábrica. O produtor brasileiro sente a queda no bolso dele; a indústria continua pagando caro lá fora pelo que falta aqui.
O consumidor já reagiu — comendo menos
A crise de preço já deixou marca no comportamento. Segundo dados do Worldpanel by Numerator citados por Yuri Parra, o consumo domiciliar de chocolate caiu 19% em volume e 10% em unidades no primeiro trimestre de 2025. A produção de ovos de Páscoa recuou 22% no mesmo período. E a Páscoa de 2025 já tinha registrado a maior alta de preço em 13 anos: 18,9%. O brasileiro não parou de comer chocolate — mas passou a comer menos, ou a trocar o nobre pelo "sabor chocolate", a versão de cobertura que não leva cacau de verdade e custa metade do preço.
Ainda assim, o produto resiste no hábito nacional: 92,9% dos lares brasileiros tinham chocolate em casa em 2024, ante 85,5% em 2020 — a pandemia consolidou o chocolate como item de despensa, não só de data comemorativa. O consumo médio é de 3,9 kg por habitante ao ano. É produto de recorrência, o que explica por que a indústria aposenta pouco do preço: sabe que você volta.
O que esperar da Páscoa de 2026
A boa notícia, se é que existe uma, é que os próprios analistas do mercado projetam algum alívio para a Páscoa de 2026 — não porque a indústria vá abrir mão de margem por bondade, mas porque a Organização Internacional do Cacau estima um superávit global de cerca de 200 mil toneladas neste ano. Superávit historicamente empurra preço para baixo, cedo ou tarde. A pergunta de sempre é quanto tempo esse "tarde" vai demorar a virar desconto na etiqueta.
Na prática, para o seu bolso: desconfie do ovo "sabor chocolate" vendido como se fosse chocolate nobre — a diferença de preço entre os dois (algo como R$ 60 contra mais de R$ 120 em versões artesanais de 200 gramas) geralmente reflete exatamente essa troca de ingrediente. E não espere o supermercado anunciar "baixamos o preço porque o cacau caiu" — isso não está no roteiro de nenhuma indústria de alimentos, em nenhum país.
O cacau já devolveu boa parte do que subiu. O chocolate, não — e não vai devolver sozinho. Desconto em matéria-prima é notícia de jornal de economia; desconto na gôndola é milagre que ninguém viu acontecer.