O sorvete resolveu virar barra de proteína — e a sorveteria vai ter que escolher um lado

O sorvete resolveu virar barra de proteína — e a sorveteria vai ter que escolher um lado

Proteína, zero açúcar e porções menores dominaram os lançamentos apresentados no setor neste ano, enquanto a premiumização puxa o gelato para o lado oposto. O mercado deve crescer cerca de 50% até 2033 — e o consumidor está pedindo as duas coisas ao mesmo tempo.

SaborCidade ·

Existe uma cena nova nas sorveterias brasileiras e ela é levemente esquizofrênica. De um lado do balcão, um pote com selo de "15 g de proteína" e "zero açúcar adicionado". Do outro, um gelato de pistache siciliano com nome de vilarejo e preço de almoço. O mesmo cliente compra os dois — em dias diferentes, com justificativas diferentes, e sem ver contradição nenhuma nisso.

O setor percebeu. Nos lançamentos apresentados no principal encontro de sorvetes do ano, as duas linhas apareceram lado a lado: mais de 20 novidades de ingredientes e 66 receitas exclusivas de gelato, divididas entre saudabilidade e indulgência. Não é indecisão da indústria. É retrato fiel de um consumidor que quer se sentir bem e se sentir premiado — e não aceita mais escolher.

A proteína invadiu a sobremesa

"O consumidor entendeu a importância da proteína e busca produtos que entreguem esse benefício", resume Vinicius Jesus, da DR Aromas & Ingredientes, empresa que completa cem anos em atividade — fundada em 1926, ela sobreviveu a mais modismos alimentares do que qualquer influenciador vai ver na vida.

O movimento não é bobagem de marketing. Ele tem um motor concreto: as sobremesas passaram a disputar espaço direto com barras de proteína, iogurtes altos em proteína e snacks funcionais. Se a barrinha entrega 20 gramas de proteína e 200 calorias, o sorvete precisa responder alguma coisa — ou perde o momento do lanche da tarde, que nunca foi território dele, mas virou.

Existe ainda um fator que mudou o cardápio sem pedir licença: os medicamentos da classe GLP-1, os análogos que reduzem apetite. Quem usa come porções menores e com mais frequência escolhe densidade nutricional em vez de volume. A indústria respondeu com potes menores, versões individuais e reformulação para caber num consumo mais controlado.

Zero açúcar deixou de ser sinônimo de sorvete ruim

Quem provou sorvete diet nos anos 1990 tem trauma legítimo: cristal de gelo, textura arenosa, gosto residual metálico. A diferença hoje é técnica, não de intenção. Com combinações de fibras, alulose, eritritol e proteínas do leite, dá para controlar o ponto de congelamento e o corpo da massa sem depender exclusivamente da sacarose.

É importante saber por quê. No sorvete, o açúcar não está ali só para adoçar: ele impede que a água congele em cristais grandes e é responsável direto pela textura cremosa. Tirar o açúcar sem substituir sua função física é o caminho garantido para um bloco de gelo com sabor. Quando você encontra um "zero açúcar" que derrete bem e não arranha a língua, alguém resolveu um problema de engenharia — não só de rótulo.

O que segue valendo a pena checar: "zero açúcar" não significa zero caloria, e sorvete proteico costuma ter mais gordura ou mais aditivos para compensar textura. É uma sobremesa melhor equilibrada, não um alimento saudável por decreto.

Para onde vai o sorvete brasileiro:

• Projeção de crescimento do mercado: cerca de +50% até 2033
• Lançamentos do ano: mais de 20 novidades de ingredientes e 66 receitas exclusivas de gelato
• Eixo 1 — saudabilidade: proteína, zero açúcar, ingredientes funcionais, porções reduzidas
• Eixo 2 — premiumização: ingredientes naturais, experiência multissensorial, narrativa de origem
• Fator novo de consumo: dietas influenciadas por GLP-1 e concorrência direta com barras de proteína
• O que o consumidor busca, segundo a Mintel: intensidade — na cor, na mordida e nas sensações
(Fontes: DR Aromas & Ingredientes, Mintel e apresentações da Fispal Sorvetes 2026)

Do outro lado: o gelato quer ser caro mesmo

Enquanto uma metade do setor corta açúcar, a outra investe em tudo aquilo que faz o preço subir: creme de leite fresco de verdade, pasta de pistache em vez de aroma, chocolate de origem única, fruta de safra em vez de polpa industrial. É a premiumização — palavra feia para uma ideia simples: vender menos por mais.

"O consumidor busca intensidade na experiência, seja na cor, na mordida ou nas sensações", diz Carla Oliveira, da Mintel. É o motivo pelo qual gelaterias sérias apostam em contrastes: crocante dentro de cremoso, salgado dentro de doce, ácido cortando gordura. A bola de R$ 22 precisa justificar a diferença nos primeiros três segundos, porque é só isso que você dá a ela.

E aqui vale um alerta honesto ao consumidor: montanha de sorvete na vitrine, com cor vibrante e pico decorado, quase sempre é sinal de excesso de emulsificante e ar batido, não de qualidade. Gelato de verdade é servido em cuba fechada ou vitrine discreta, tem cor apagada (pistache é bege esverdeado, não verde-piscina) e não fica em pé sozinho.

O que isso muda na sua bola de sorvete

Três coisas práticas. Primeiro: leia a ordem dos ingredientes. Se leite ou creme aparece antes de xarope de glicose, você está diante de um produto melhor construído — vale tanto para o proteico quanto para o premium.

Segundo: repare no overrun, o ar incorporado na massa. Sorvete industrial de baixo custo pode chegar a 100% de ar — literalmente metade do pote é atmosfera. Gelato artesanal fica perto de 20% a 35%. É por isso que um pote pequeno e pesado costuma render mais que um pote grande e leve.

Terceiro: escolha por ocasião, não por culpa. Se a intenção é sobremesa, coma sobremesa boa. Se a intenção é lanche depois do treino, o proteico faz sentido. O erro é pagar preço de gelato artesanal por um produto formulado para parecer academia — e o inverso, achar que sorvete precisa se desculpar por ser sorvete.

A sorveteria brasileira vai passar os próximos anos servindo dois clientes no mesmo balcão: o que quer proteína e o que quer prazer. Os dois têm razão. O único inaceitável é o meio-termo covarde — o pote que não é saudável, não é gostoso e ainda custa caro.

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