O sorvete desistiu do verão — e descobriu que o inverno paga melhor

O sorvete desistiu do verão — e descobriu que o inverno paga melhor

Mais da metade das indústrias de sorvete espera crescer até 10% na estação mais fria do ano. O truque não é vender casquinha em julho: é entrar pela porta dos fundos do restaurante, em cima de um brownie quente, cobrando o dobro.

SaborCidade ·

Pergunte a qualquer pessoa quando se vende sorvete e ela vai responder a mesma coisa: no calor. É uma daquelas certezas tão óbvias que ninguém checa. Só que quem fabrica sorvete no Brasil parou de acreditar nisso — e está ganhando dinheiro justamente na estação em que você jurava que a sorveteria fecha as portas e o dono vai viajar.

O levantamento da Abrasorvete mostra que 54% das indústrias do setor projetam alta de até 10% no faturamento durante o inverno. Não é otimismo de release. É o resultado de uma mudança de estratégia que aconteceu longe da vitrine da sorveteria: o sorvete deixou de brigar pelo consumidor de rua no calor e foi ocupar a sobremesa do restaurante o ano inteiro.

A bola de sorvete virou coadjuvante — e ganhou com isso

A lógica é quase óbvia depois que alguém aponta. Ninguém sai de casa em julho, a 12 graus, para tomar uma casquinha. Mas quase todo mundo que janta fora num dia frio aceita uma sobremesa quente. E sobremesa quente, no Brasil, tem uma regra não escrita: vem com uma bola de sorvete em cima.

Os números confirmam que a indústria leu isso e agiu. Entre os fabricantes, 68% desenvolvem produtos pensados para acompanhar brownie e 59% elegem o petit gâteau como principal combinação. Além disso, 45% investem em bases neutras — baunilha e creme — e 41% desenvolvem sorvetes para contrastar com frutas quentes e fondues.

Repare no detalhe: baunilha e creme. A indústria não está inventando sabor de trufa branca com flor de sal. Está aperfeiçoando o sorvete mais chato do cardápio — porque é justamente ele que derrete direito sobre uma massa a 70 graus, que não briga com o chocolate quente e que serve de contraponto sem roubar a cena. Sofisticação, aqui, é fazer o simples com técnica.

O sorvete brasileiro em números:

• Faturamento do setor: R$ 12,1 bilhões em 12 meses
• Indústrias que esperam crescer até 10% no inverno: 54%
• Avanço nas vendas em 12 meses: +18% — com -8% no número de operações
• Empresas para quem o food service já é canal de alta relevância: 23%
• Canais que mais puxam: redes de sobremesa (18%), cafeterias (13%), restaurantes (13%)
• Fabricantes desenvolvendo sorvete para brownie: 68% · para petit gâteau: 59%
• Investem em bases neutras (baunilha e creme): 45%
• Consumo per capita: 5,4 litros por ano
(Fontes: Abrasorvete, ABIS, Instituto Foodservice Brasil)

Menos lojas vendendo mais: o dado que ninguém comenta

Tem um par de números no levantamento que merece leitura atenta, porque conta uma história que o resto do release não conta. As vendas de sorvete avançaram 18% em doze meses. No mesmo período, o número de operações caiu 8%.

Isso significa que menos pontos de venda estão movimentando mais sorvete. Em português claro: alguém fechou. O mercado está se concentrando — as operações que sobreviveram absorveram o volume das que morreram, e o crescimento agregado esconde uma limpeza de mercado embaixo do tapete. É um padrão que se repete em quase todo segmento de alimentação no país e que quase nunca aparece na manchete, porque "setor cresce 18%" rende muito melhor do que "setor cresce 18% e perde 8% dos pontos".

Márcio Favaro, presidente da Abrasorvete, resume a virada estratégica sem rodeios: o foco saiu do volume puro e entrou na era do valor agregado. É uma frase de executivo, mas ela é honesta. Vender menos litro por um preço bem maior é exatamente o plano.

Onde essa conta chega até você

No preço da sobremesa — e você provavelmente nem percebeu. Aquela bola de sorvete que acompanha o petit gâteau custa ao restaurante algo entre R$ 1,50 e R$ 3, dependendo da marca e do overrun (a quantidade de ar batida na massa, que é o que separa sorvete premium de sorvete de balde industrial). O petit gâteau completo sai da cozinha a R$ 32, R$ 38, às vezes R$ 45.

A sobremesa é, disparada, o item de maior margem percentual de qualquer cardápio. Farinha, ovo, açúcar, chocolate e uma bola de creme não custam nem 20% do que você paga. E está tudo bem — sobremesa é a última chance de o restaurante recuperar a margem que ele perdeu no prato principal, onde a proteína come o lucro vivo. Só é bom você saber a matemática antes de decidir se aquele R$ 42 valeu.

A dica prática: se a sobremesa quente vier com sorvete industrial de baunilha aguada e o restaurante cobrar preço de casa artesanal, você está pagando marca. Sorvete bom se reconhece em três segundos — derrete devagar, não vira poça esbranquiçada em vinte segundos e não deixa aquela película de gordura no céu da boca. Sorvete com muito ar e gordura vegetal hidrogenada faz exatamente o contrário.

A sorveteria de bairro tem saída?

Tem, e ela é o oposto da estratégia da indústria. Enquanto a fábrica vai atrás do canal food service, a gelateria de rua sobrevive no inverno fazendo o que a fábrica não faz: produto fresco, rotação de sabor sazonal e coisa quente no cardápio. As casas que aguentam julho são as que colocaram café coado decente, chocolate quente de verdade — feito com chocolate, não com pó solúvel e água — e affogato, aquele espresso despejado sobre a bola de creme, que é a melhor invenção italiana depois da própria pizza e custa ao dono menos de R$ 4 para produzir.

O Brasil consome 5,4 litros de sorvete por pessoa ao ano — muito abaixo dos cerca de 20 litros dos maiores consumidores do mundo, o que é meio constrangedor para um país tropical. O espaço para crescer existe e ele não está no verão, que já está saturado. Está exatamente nos meses em que todo mundo decidiu, sem nenhuma boa razão, que sorvete é fora de época.

O veredito

Vale reconhecer o mérito: a indústria de sorvete fez uma das leituras de mercado mais espertas do food service brasileiro dos últimos anos. Em vez de gastar fortuna tentando convencer o consumidor a comer picolé no frio — briga perdida contra a termodinâmica e contra o bom senso —, ela se enfiou dentro de um prato que já vendia bem no inverno e cobrou pela participação.

O sorvete parou de brigar com o inverno e virou sócio dele. Da próxima vez que você pedir o brownie quente porque está frio demais para sobremesa gelada, lembre: essa bola em cima foi planejada há dois anos numa sala de reunião.

Compartilhar: