
O sorvete sobreviveu ao Ozempic — e o usuário da caneta virou o cliente mais fiel (e exigente) do balcão
Pesquisa da Abrasorvete com a Empresa Júnior da FGV, divulgada no Dia Nacional do Sorvete, mostra consumo declarado de 8,68 litros por pessoa ao ano, 13% acima do levantamento anterior. Quem usa Ozempic e afins come porção menor, mas toma sorvete com mais frequência — e quer zero açúcar, proteína e pagar mais por isso.
Quando as canetas de emagrecimento viraram assunto de mesa de bar, a indústria de doces fez a conta mais óbvia: menos apetite, menos sobremesa, menos pote de dois litros no carrinho. Fazia sentido — em agosto, o SaborCidade mostrou um estudo com famílias americanas em que o gasto com fast-food caía cerca de 8% depois de seis meses de tratamento (leia aqui). Só que, no freezer, o brasileiro resolveu não obedecer à planilha.
Uma pesquisa da Associação Brasileira do Sorvete e Outros Gelados Comestíveis (Abrasorvete), feita com a Empresa Júnior da Fundação Getulio Vargas (EJFGV) e divulgada nesta quarta, 23, Dia Nacional do Sorvete, ouviu 2.500 pessoas em todas as regiões do país. O resultado: cada brasileiro diz tomar, em média, 8,68 litros de sorvete por ano — 13% a mais que os 7,7 litros medidos pela mesma associação dois anos antes.
O usuário da caneta tomou mais sorvete, não menos
O dado que ninguém esperava está no grupo das canetas. Cerca de 30% dos entrevistados disseram usar ou já ter usado remédios da classe GLP-1, como Ozempic, Wegovy e Mounjaro. Entre os que estão em tratamento, 54,1% reduziram a quantidade ou o tamanho da porção — até aí, nada de novo, é o remédio fazendo o que promete.
A surpresa é a frequência. 11,2% dos usuários de caneta tomam sorvete todos os dias, contra 2,5% de quem não usa a medicação — 4,5 vezes mais. "O que surpreende é que o usuário dessas canetinhas não abandonou o sorvete, ele se tornou um consumidor heavy user e exigente", disse Márcio Favaro, presidente da Abrasorvete.
Traduzindo do marketês: essa pessoa não quer mais o pote de dois litros no sofá. Quer uma bola, todo dia, e quer que essa bola valha a pena. 40,5% desse grupo procura versões zero açúcar, 36,2% prefere as proteicas e 22,6% se diz totalmente disposto a pagar mais por linhas funcionais e premium. E quando o tratamento acaba, a restrição despenca: a fatia que limita o consumo cai de 34,1% para 13,8%. O sorvete estava só esperando na fila.
• 8,68 litros por pessoa ao ano, +13% sobre os 7,7 litros de dois anos antes
• 30% usam ou já usaram canetas GLP-1; 54,1% dos que estão em tratamento reduziram a porção
• 11,2% dos usuários de caneta tomam sorvete todo dia, contra 2,5% dos demais
• Diante de aumento de preço, 51,7% compram com menos frequência e só 25,4% pensam em trocar de marca
• 62,6% decidem pelo sabor; 15,6%, pelo preço
• Delivery: só 4% das compras; 50,6% desistem por causa da taxa de entrega
• 73,7% pagariam mais por um sorvete artesanal ou gourmet
Preço sobe, e você toma menos — mas não troca de marca
O outro recado da pesquisa é sobre o bolso. Diante de reajuste forte, 51,7% dos consumidores preferem comprar com menos frequência e 14,5% partem para embalagens menores. Só 25,4% consideram trocar por uma marca mais barata. Três em cada quatro preferem tomar menos a abandonar o sorvete de sempre.
A própria associação tira a conclusão para os fabricantes: fortalecer a marca e oferecer formatos menores para "manter o giro" quando o preço sobe. Leia de novo, agora do lado de cá do freezer: é a receita oficial da reduflação — o pote que encolhe enquanto o preço fica parado. Não há nada de ilegal nisso, desde que a embalagem informe a mudança. Mas é o motivo pelo qual vale olhar o preço por litro, e não o preço do pote.
Na hora da escolha, porém, quem manda é a boca: 62,6% decidem pelo sabor e só 15,6% pelo preço. Segundo o estudo, o sabor pesa 12 vezes mais que a marca no desempate. É por isso que a sorveteria que oferece prova — aquela colherzinha de plástico — vende mais. E é por isso que você deveria pedir a prova sem vergonha nenhuma.
Inverno existe, delivery ainda não
A pesquisa também enterra a velha desculpa do setor de que brasileiro não toma sorvete no frio. O verão continua sendo o pico, com 71,3% consumindo ao menos uma vez por semana, mas só 8,2% disseram nunca tomar sorvete no inverno.
Onde o sorvete ainda patina é no aplicativo. Sorveterias e gelaterias físicas respondem por 43,2% das compras e supermercados por 35,3%; o delivery fica com só 4%. O motivo é o de sempre: 50,6% desistem por causa da taxa de entrega e 39,7% pelo tempo de espera. Pagar frete para receber um pote que chega meio derretido é, convenhamos, pagar pedágio para tomar milk-shake.
E o açaí? Deixou de ser rival para ocupar outro horário. 31,3% o escolhem pela possibilidade de montar o copo do seu jeito, e 18,3% já o tratam como refeição rápida, antes ou depois do treino. O sorvete tradicional segue sendo o do passeio em família, lembrado por 64,4% dos entrevistados.
O "funcional" é o novo "gourmet" — e cobra como tal
Aqui mora o alerta. 73,7% dos entrevistados dizem que pagariam mais por um sorvete artesanal ou gourmet, e as justificativas mais citadas para o preço alto são a produção artesanal (55%) e ingredientes importados ou de origem definida (49,5%). Entre os apelos de saúde, o que mais atrai não é o "zero lactose" ou o vegano, mas o que se adiciona: ingredientes naturais (40,4%) e proteína (34,8%).
A recomendação da Abrasorvete aos fabricantes é investir em linhas premium, artesanais e funcionais. Ótimo para quem faz sorvete bom. Péssimo para quem só troca o rótulo. "Proteico" e "zero açúcar" viraram a nova "trufa" do hambúrguer: uma palavra que justifica alguns reais a mais no pote. Antes de pagar, vire a embalagem e leia quantos gramas de proteína há na porção, qual adoçante substituiu o açúcar e quanto ar entrou na receita — sorvete industrial é vendido por volume, e ar não custa nada para o fabricante.
Se o assunto é artesanal, vale entender o que a palavra garante (e o que não garante) no nosso guia sobre sorvete artesanal e industrial. E, para não pagar bola de sorveteria premium sem saber quanto leva, o guia de peso da bola e preço do pote ajuda a fazer a conta. Para achar uma casa perto de você, o guia de sorveterias está aqui.
Quem ganha com isso: a sorveteria de bairro
Se o cliente quer menos quantidade e mais qualidade, a sorveteria pequena tem uma chance rara. Em Minas Gerais, segundo o sindicato estadual da indústria de sorvetes, 97% do setor é formado por micro e pequenas empresas — são 484 fabricantes no estado, muitos com décadas de balcão. É esse tipo de casa que pode oferecer prova, porção pequena e sabor de verdade sem precisar de campanha de marketing funcional.
A regra, para você, continua simples: a bola pequena e boa vale mais do que o pote grande e aerado. E sorvete que precisa de três adjetivos na embalagem para parecer saudável talvez precise, antes, de um pouco mais de fruta.
No fim, a caneta tirou o apetite, não a vontade. E vontade, a sorveteria sabe: se paga por bola, não por litro.
