A safra de trigo encolheu 12% — e o pãozinho de todo dia vai custar mais caro

A safra de trigo encolheu 12% — e o pãozinho de todo dia vai custar mais caro

O pão francês é o item mais automático da sua compra — você nem olha o preço. Mas atrás dele tem clima nos Estados Unidos, dólar alto e uma mudança de imposto que já estão empurrando a farinha para cima

SaborCidade ·

Ninguém pergunta o preço do pão francês antes de pedir. Você chega na padaria, aponta pro saquinho, paga sem olhar o valor no visor — é o item mais barato e mais automático da sua rotina. Só que essa despreocupação está com os dias contados, porque o trigo que vira essa farinha anda em crise silenciosa há meses.

A Conab estima uma safra de trigo 12,3% menor em 2026, com produção nacional de cerca de 6,9 milhões de toneladas — insuficiente para o consumo do país. E quando a oferta interna não fecha a conta, o Brasil importa o que falta, e aí entra o dólar na equação.

Por que a safra encolheu justo agora

A combinação é feia: clima ruim nas lavouras americanas, que também afeta o mercado internacional do grão, somado à valorização do dólar frente ao real — o pior cenário possível para quem depende de importação. O Brasil consome cerca de 12 milhões de toneladas de trigo por ano e importa mais de 6 milhões dessas toneladas, ou seja, metade do trigo que vira pão no país vem de fora.

O mercado internacional já registrou alta mensal superior a 6% no preço do grão — e isso chega ao Brasil na conversão cambial antes mesmo de chegar no porto.

A crise do trigo em números:

• Safra nacional de 2026 estimada 12,3% menor (Conab), produção de 6,9 milhões de toneladas
• Trigo negociado a R$ 1.253/tonelada no Paraná e R$ 1.114/tonelada no Rio Grande do Sul
• Trigo importado passa de R$ 1.700/tonelada
• Reajuste projetado na farinha: entre 5% e 10% nas próximas semanas
• Repasse esperado ao consumidor: até 10% no balcão da padaria
(Fontes: Conab, Band, Sindustrigo)

Tem imposto pesando na conta também

Além do clima e do câmbio, uma mudança tributária ajuda a empurrar o preço: a Lei Complementar nº 224/2025 reduziu o crédito presumido do trigo de 3,23% para 2,91% a partir de 1º de abril — uma fatia menor de desconto fiscal que, na prática, o setor repassa direto pro preço da farinha, e a farinha repassa pro seu pão.

Não é só o pão francês que sente: massas e biscoitos, que também dependem de farinha de trigo, devem sofrer o mesmo tipo de reajuste nos próximos meses.

O pão francês já custa diferente dependendo de onde você mora

Antes mesmo dessa nova rodada de alta, o preço do quilo do pão francês já variava até R$ 8 dentro do próprio Brasil — o que mostra como a cadeia de distribuição, o custo de energia e a concorrência local pesam tanto quanto o trigo em si. No Rio de Janeiro, o quilo sai entre R$ 17,90 e R$ 19,50. Em São Paulo, a região oeste cobra R$ 22,90 (por volta de R$ 2,90 os 90 gramas de sempre), enquanto bairros do leste vendem a R$ 16,90.

Em Manaus, o quilo custa R$ 14,90 — o mais baixo entre as capitais pesquisadas. No Paraná, a faixa vai de R$ 15 a R$ 18 na capital e região metropolitana. Fortaleza cobra entre R$ 16 e R$ 20, e Salvador fica na casa dos R$ 18,50.

O que fazer com esse aumento chegando

Vale trocar o hábito de comprar "no olho" pelo hábito de comparar preço por quilo, não por unidade — é a única forma de saber se a padaria da esquina está repassando o aumento de forma razoável ou aproveitando a onda para arredondar pra cima. Padaria de bairro, sem a estrutura de rede grande, tende a sentir o reajuste do trigo primeiro, mas também costuma ajustar a margem com mais moderação do que cadeia grande.

Se notar uma alta muito acima da média regional da sua cidade, vale perguntar — a farinha subiu para todo mundo igual, a diferença de repasse é decisão de cada casa.

O pão francês sempre foi o alimento que ninguém questiona o preço. Só que quando a safra encolhe e o dólar sobe, até o item mais barato do balcão vira notícia de economia.

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