O iFood fica com até 31% do seu pedido — e o restaurante com a sobra

O iFood fica com até 31% do seu pedido — e o restaurante com a sobra

A comissão dos aplicativos de delivery voltou a subir em 2026 e já consome quase um terço de cada venda. Quem paga essa conta, no fim, é você — só que sem ver.

SaborCidade ·

Você pede um prato de R$ 50 no aplicativo. Chega quentinho, em 35 minutos, sem você sair do sofá. Parece um bom negócio para todo mundo. Só que, daquela nota de cinquenta, o restaurante que cozinhou a sua comida pode ficar com menos de R$ 35 — e, se a casa estiver num plano ruim, com bem menos que isso.

O resto evaporou em comissão, taxa de pagamento e tarifa de entrega. A conveniência tem dono, e o dono cobra caro.

Quanto o aplicativo realmente leva

Em 2026, a comissão do iFood varia entre 12% e 23% sobre o valor de cada pedido, dependendo do plano contratado. Parece módico até você somar o que vem junto: a taxa de processamento de pagamento (cerca de 3,2%) e eventuais tarifas fixas mensais. No plano em que a casa usa a logística da plataforma, a mordida por transação chega perto de 27% — e, em algumas combinações, passa de 30%.

Traduzindo do "planês": o restaurante que escolheu errado o pacote pode estar entregando quase um terço de cada venda antes de pagar o primeiro grama de carne.

A matemática do delivery em 2026:

• Comissão iFood: de 12% a 23% por pedido, conforme o plano
• Com logística da plataforma, a mordida chega a ~27% por transação
• Taxa de processamento de pagamento: ~3,2% extra
• Margem líquida média de um restaurante de delivery: 5% a 15% (Abrasel)
• Fatia do iFood no comércio de delivery brasileiro: 82%

Por que isso é um problema, e não só uma reclamação

Faça a conta com calma. Se a margem líquida de um restaurante de delivery no Brasil fica entre 5% e 15%, e a plataforma leva de 23% a 30% do faturamento bruto, a aritmética é desconfortável: a comissão sozinha é maior do que o lucro da casa. O dono trabalha o mês inteiro, e quem termina com a maior fatia do bolo é quem nunca chegou perto do fogão.

A Abrasel, a associação que representa bares e restaurantes, já documentou que a maioria dos estabelecimentos considera que os custos com os marketplaces comprometem a viabilidade do negócio no longo prazo. Não é birra de empresário: é uma estrutura em que o intermediário fica com a parte do leão.

O monopólio que pauta o Congresso

Quando uma empresa controla 82% de um mercado, ela não disputa preço — ela dita preço. É por isso que o tamanho do iFood virou tema de comissão na Câmara, que passou a discutir se a concentração no delivery configura abuso de posição dominante.

A lógica é simples: sem concorrente do mesmo porte, o restaurante não tem para onde correr. Sair do aplicativo significa sumir da vitrine onde o cliente procura comida. Ficar significa pagar o pedágio que a plataforma definir. É o que economista chama de "refém de plataforma" — e o que o dono do boteco chama de "não dá para viver sem, nem com".

Quem paga a conta no fim

Aqui está a parte que te interessa diretamente: essa comissão não some no ar, ela é embutida. Muitos restaurantes mantêm um cardápio mais caro no aplicativo do que no balcão, justamente para compensar a taxa. O preço do mesmo prato pode ser 15% a 25% maior na tela do celular. Você acha que está pagando pela comida; metade do "a mais" está pagando o pedágio da plataforma.

É por isso que tantas casas hoje imploram, num bilhetinho dentro da sacola, para você "pedir direto pelo WhatsApp da próxima vez". Não é fricção gratuita: é o restaurante tentando recuperar a margem que o aplicativo levou — e, de quebra, te oferecer o mesmo prato mais barato.

O que você pode fazer (sem virar militante)

Ninguém vai abrir mão da conveniência do delivery, e tudo bem. Mas dá para ser um cliente mais esperto:

  • Compare o preço no balcão e no app. Se a diferença for grande, o pedido direto quase sempre sai melhor para você e para a casa.
  • Use o canal próprio do restaurante (WhatsApp, site, telefone) quando ele existir — costuma ter o mesmo prato mais barato e a margem fica com quem cozinhou.
  • Retire no local quando der: você corta a taxa de entrega e muitas casas dão desconto na retirada.
  • Avalie e seja gentil com o entregador — ele é o elo mais mal pago dessa cadeia, e a gorjeta vai inteira para ele.

O delivery resolveu a sua preguiça e a sua pressa, e isso tem valor real. Mas a próxima vez que a comida chegar e parecer um pouco cara para o que é, lembre: boa parte do preço não está no prato — está na maquininha invisível que fica entre você e a cozinha.

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