O Tuju é o melhor restaurante do Brasil — e a conta de R$ 1.650 explica por quê

O Tuju é o melhor restaurante do Brasil — e a conta de R$ 1.650 explica por quê

O ranking dos 100 Melhores Restaurantes do Brasil coroou o Tuju, de Ivan Ralston e Katherina Cordás, com a terceira estrela Michelin. Enquanto isso, o setor inteiro cresce 12% ao ano — só que a distância entre o restaurante da lista e o boteco da esquina nunca foi tão grande.

SaborCidade ·

Você já deve ter visto a notícia circulando: o Tuju, em São Paulo, foi eleito o melhor restaurante do Brasil em 2026 e faturou a terceira estrela Michelin no mesmo ano. O que a manchete não conta é o tamanho do abismo entre esse título e o prato que você comeu ontem no rodízio do bairro. Um jantar completo com harmonização de vinhos no Tuju passa de R$ 1.650 por pessoa. Isso é mais do que muita gente gasta em mercado no mês inteiro.

E não é hipérbole de cronista indignado: é o retrato exato de dois Brasis gastronômicos que crescem juntos, mas em direções opostas. Um é rarefeito, autoral, premiado por 49 jurados que nunca pisaram na sua cidade. O outro é o que sustenta 12% de crescimento no setor inteiro, mesa por mesa, sem imprensa nenhuma prestando atenção.

O pódio da alta gastronomia brasileira

A lista, na sua quinta edição, ouviu 49 jurados — jornalistas, críticos e influenciadores de gastronomia — que enviaram, cada um, os dez melhores lugares onde comeram nos últimos 12 meses, sem ranquear internamente. O resultado deu o Tuju em primeiro (21 votos), o Nelita em segundo (20 votos) e o Evvai em terceiro (19 votos) — os três em São Paulo, e o Evvai também estreando com três estrelas Michelin este ano. Origem, em Salvador, e Lasai, no Rio, completam o top 5.

A lista cobre 19 cidades nas cinco regiões do país, incluindo endereços fora do óbvio como Santarém (PA), Piranhas (AL) e Fernando de Noronha (PE) — sinal de que a alta gastronomia brasileira já não é sinônimo automático de São Paulo, mesmo que São Paulo ainda domine o topo. Das entradas desta edição, 33 são estreantes ou retornantes, o que mostra uma cena em movimento, não estagnada.

O ranking em números:

49 jurados — cada um enviou os 10 melhores restaurantes visitados no ano
19 cidades representadas, nas cinco regiões do Brasil
33 estabelecimentos novos ou retornantes nesta 5ª edição
• Ticket de harmonização no topo da lista: pode passar de R$ 1.650 por pessoa
• Crescimento do setor de bares e restaurantes: 12% em maio de 2026 ante mesmo mês de 2025 (10% acumulado em 12 meses)

O que separa um "melhor restaurante do Brasil" do resto

Ingrediente sazonal e de origem rastreada, técnica de cozinha francesa aplicada a produto amazônico ou nordestino, releitura contemporânea de prato regional — é essa combinação que os jurados premiam. Não é sobre porção grande nem sobre "bater o olho no cardápio e reconhecer". É cozinha de autor, no sentido literal: cada prato carrega a assinatura de quem cozinhou, com uma história por trás.

Isso tem valor real — chef bom de verdade muda a forma como você entende ingrediente que achava banal. Mas também tem um preço que poucos "melhores restaurantes do mundo" escondem: menu degustação de dez, doze passos, harmonização à parte, serviço de sala treinado para explicar cada garfada. A conta reflete isso, e reflete também o aluguel de São Paulo, o salário de uma brigada grande e o desperdício controlado de quem trabalha com ingrediente de safra.

Enquanto isso, o setor que sustenta o país cresce fora do holofote

O dado que a badalação em torno do ranking geralmente engole: bares e restaurantes no Brasil cresceram, em média, 12% em maio de 2026 na comparação com maio de 2025 — e 10% acumulado nos últimos 12 meses. Quem lidera essa expansão não é São Paulo (8,2% no mês, a reboque de um mercado já maduro), mas Rio Grande do Sul (17%), Sergipe (16,1%) e Tocantins (15,1%). Caxias do Sul, no RS, cresce 20,2% sozinha.

Ou seja: o crescimento de verdade do setor não está nos 21 votos que coroaram o Tuju — está na padaria que virou café, no bar de bairro que abriu uma segunda unidade, no restaurante de comida caseira que finalmente conseguiu abrir aos domingos. É gente pagando R$ 35, R$ 60, R$ 90 por uma refeição, não R$ 1.650.

Vale pagar caro por um "melhor do Brasil"?

Depende do que você está comprando. Se é experiência, narrativa e técnica de ponta, o valor está lá — coisas assim não se replicam em qualquer cozinha. Se é "comer bem", a resposta é mais simples e mais barata: tem restaurante de bairro com arroz feito na hora e carne no ponto certo cobrando um décimo disso, sem estrela nenhuma no nome.

A dica prática, se o orçamento não é elástico: trate o "melhor restaurante do Brasil" como você trataria um show internacional — uma vez, planejado, sem culpa, sem comparar com o dia a dia. E deixe o dia a dia para o lugar que te conhece pelo nome e não cobra R$ 1.650 para isso.

No fim, o Brasil tem dois rankings gastronômicos rodando ao mesmo tempo: o que sai em revista, com 49 votos e estrela no peito, e o que sustenta 12% de crescimento sem ninguém fotografar o prato. Os dois são reais. Só um deles cabe no seu salário.

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