
Um dos melhores bares do mundo ficou quatro meses fechado para deixar o banquinho mais confortável
O Guilhotina, em Pinheiros, chega aos 10 anos com balcão reformulado, banco alto mais macio e uma carta nova assinada por Estella Moraes. A obra parece detalhe — e é exatamente o resumo do que mudou na coquetelaria brasileira.
Existe um momento, sempre por volta do terceiro drinque, em que o banco alto do bar deixa de ser assento e vira instrumento de tortura. Você se remexe, apoia um pé, apoia o outro, descobre que não tem encosto, e conclui que já está na hora de ir embora. Você acha que decidiu sozinho. Não decidiu: o banquinho decidiu por você.
O Guilhotina, um dos bares de coquetelaria mais premiados que o Brasil já produziu, passou quatro meses de portas fechadas antes de completar dez anos — o aniversário oficial cai em dezembro — e uma das obras foi exatamente essa: reformular o balcão e deixar os bancos altos mais aconchegantes. Parece nota de rodapé. É a notícia inteira.
Dez anos numa rua onde ninguém passa por acaso
A casa abriu em 2016, numa rua tranquila de Pinheiros, em São Paulo, longe do fluxo de quem sai andando à toa. Bar em rua sem movimento é uma aposta cara: você não herda cliente da calçada, precisa que ele venha de propósito. Deu certo — em pouco tempo o Guilhotina virou nome recorrente nas listas internacionais de melhores bares do mundo, o tipo de reconhecimento que enche a casa de turista com endereço anotado no celular.
A linhagem do balcão explica parte disso. Por lá passaram Márcio Silva, um dos sócios fundadores, hoje à frente do Exímia, e Ale D'Agostino, que depois abriu o Coda, no centro, e virou jurado de reality de bar. Agora a carta é assinada por Estella Moraes, com passagem pelo Bar do Cofre e anos de trabalho ao lado de D'Agostino. Traduzindo para quem não acompanha a fofoca do setor: é a terceira geração assumindo a mesma cozinha líquida, o que num bar de dez anos é quase troca de dinastia.
• 10 drinques autorais, além de clássicos como penicillin, hanky panky e espresso martini
• Chá do naza (R$ 58): uísque escocês, mate com especiarias, limão e manga
• Arruda nunca falha (R$ 68): vodca, cumaru, arruda e soda de cambuci
• Entre trópicos (R$ 78): cachaça amburana, rum branco, licor de coco, abacaxi, manga e iogurte integral
• 4 mocktails — o xiii sô, com shissô, melão, limão e água com gás, sai por R$ 36
• Alguns clássicos da casa não estão no menu, mas podem ser pedidos no balcão
A era do espetáculo acabou. Começou a era da cadeira
Pense na coquetelaria brasileira de dez anos atrás. Era a fase da fumaça: pinça, defumador, gelo esculpido, garrafa girando, bartender fazendo apresentação de dez minutos para servir um negroni. O drinque era um show, e o cliente, plateia — plateia em pé, geralmente.
O que a reforma do Guilhotina sinaliza é a virada seguinte: o bar de alto nível parou de disputar quem tem o truque mais bonito e passou a disputar quem consegue te segurar sentado por mais tempo. E não é sentimentalismo — é conta de padaria. Cliente confortável pede o quarto drinque. Cliente com dor lombar pede a conta.
Faça a matemática de um balcão de dez lugares. Se o conforto estende a permanência em quarenta minutos e cada mesa consome um drinque a mais, são dez drinques extras por rodada de balcão, várias vezes por noite. A R$ 60 a unidade, o banco novo se paga rápido. O aconchego, nesse setor, não é gentileza: é engenharia de receita — e, felizmente para você, das poucas em que os dois lados saem ganhando.
O cardápio confirma outra virada: o Brasil finalmente virou ingrediente
Olhe a lista de insumos da carta nova: cumaru, arruda, cambuci, amburana, mate, shissô. Não é gin importado nem xarope francês — é mato brasileiro, e mato brasileiro difícil.
Cumaru é a semente amazônica com aroma entre baunilha e amêndoa. Cambuci é a fruta paulista de acidez agressiva que quase ninguém come in natura. Arruda, sejamos honestos, é a planta que sua avó usava contra mau-olhado e que quase ninguém teve coragem de colocar num copo — tem amargor alto e vira sabão se você errar a mão. Amburana é a madeira que dá à cachaça aquele fundo de baunilha com canela e divide opinião até entre alambiqueiro.
Usar isso não é folclore de cardápio: é escolha técnica difícil, porque ingrediente nativo tem safra irregular, fornecedor pequeno e padronização sofrível. É muito mais fácil comprar caixa de bitter italiano o ano inteiro. Que uma casa desse porte insista no caminho complicado é o melhor sinal do texto.
E os quatro mocktails no meio da carta
Quatro drinques sem álcool numa carta de catorze é quase 30% do menu — proporção impensável há cinco anos num bar de coquetelaria autoral, onde não beber era tratado como defeito de caráter. Hoje é linha de produto, com preço próprio: o mocktail da casa sai a R$ 36, contra R$ 58 a R$ 78 dos alcoólicos.
Vale registrar a diferença de margem, porque ela é sua: você paga cerca de metade do preço por um copo que dá trabalho semelhante e leva insumo mais barato. Mocktail bem-feito é ótimo negócio para o bar — e continua sendo o melhor jeito de passar três horas no balcão sem acordar arrependido.
O que levar dessa história
Um bar consagrado, com fila e reconhecimento internacional, fechou por um terço do ano para mexer no balcão. Não para inventar técnica nova, não para instalar equipamento de laboratório, não para contratar nome de fora. Para você ficar mais confortável enquanto bebe.
Depois de uma década de coquetelaria brasileira provando que sabe fazer drinque, a fronteira seguinte é banal e definitiva: saber receber. O drinque perfeito servido em banco ruim é uma promessa que o corpo não deixa cumprir.
O melhor investimento que um bar pode fazer em 2026 não custa R$ 78 e não vem na taça. Vem embaixo de você — e é o único item da casa que decide sozinho a hora em que você vai embora.