A melhor IPA do mundo é de Campinas — e nasceu para ser bebida atrás do bloco

A melhor IPA do mundo é de Campinas — e nasceu para ser bebida atrás do bloco

A Atrás do Bloco, da cervejaria Landel, venceu 8.166 rótulos de 50 países e levou o título de World's Best IPA no World Beer Awards 2026. A receita foi criada em 2023 para o Carnaval — e a lata custa R$ 36.

SaborCidade ·

Quando um júri internacional se reúne no Reino Unido para decidir qual é a melhor IPA do planeta, você espera que a vencedora venha de Portland, de San Diego, no máximo de alguma vila inglesa com nome impronunciável. Em 2026, ela veio de Campinas. E o nome dela não é nenhum trocadilho em inglês com lúpulo — é Atrás do Bloco, uma cerveja criada para dar conta do Carnaval.

O anúncio saiu numa quarta-feira, 12/08, em Norwich, na etapa internacional do World Beer Awards, um dos concursos mais disputados do circuito: 8.166 rótulos inscritos, de 1.644 cervejarias, vindos de 50 países, todos avaliados às cegas. No fim da escada, a cervejaria Landel, do interior paulista, segurando o troféu de World's Best IPA — a melhor do estilo mais concorrido do mundo cervejeiro.

Uma escalada em quatro degraus

O título não veio num sorteio de categoria obscura. A Atrás do Bloco subiu degrau por degrau. Primeiro, medalha de ouro na fase nacional. Depois, o posto de melhor do estilo no Brasil, que garantiu a vaga na final internacional. Lá, venceu o mundo no subestilo New England/Milkshake IPA. E aí veio a fase de mata-mata que interessa: as campeãs de todas as divisões de IPA do planeta, frente a frente.

"Para você ter ideia, essa supercategoria, nesse superprêmio, só são 10. É a melhor dark, a melhor IPA, a melhor lager e assim sucessivamente. São 10 só", explica Samuel Faria, um dos sócios da Landel. A brasileira despachou a American IPA do Japão, a Black IPA da Alemanha e a Imperial IPA do Canadá — currículo de quem não ganhou por distração do júri.

O que tem dentro da lata

A Atrás do Bloco é uma New England IPA — a vertente turva, macia e frutada do estilo, que trocou o amargor agressivo das IPAs clássicas por aroma e textura. Traduzindo o rótulo técnico: cerveja de aparência enevoada, corpo aveludado e cheiro de fruta tropical, que desce com uma facilidade perigosa para os 7,5% de álcool que carrega.

A campeã mundial, em números:

• Estilo: New England/Hazy IPA, com 7,5% de teor alcoólico
• Receita: malte de cevada, flocos de aveia e de trigo (daí o corpo aveludado) e lúpulos americanos
• Concurso: 8.166 rótulos, 1.644 cervejarias, 50 países, degustação às cegas
• Preço: R$ 36 a lata de 473 ml
• Na torneira da cervejaria, em Campinas: copo de 300 ml a R$ 26, 450 ml a R$ 34, 1 litro a R$ 69
• Criação: 2023, para atender a demanda do Carnaval

Criada pelo cervejeiro e fundador Bruno Oliveira Cardoso, a receita nasceu em 2023 com uma missão nada solene: dar conta da sede dos blocos de Carnaval. "Depois de conquistar o ouro novamente, avançou para disputar com as melhores dentre todos os estilos de IPA. E ganhou de novo. A sensação é indescritível", contou Bruno após o anúncio.

R$ 36 na lata: caro ou barato?

Vamos ao assunto que interessa ao seu bolso. R$ 36 por 473 ml dá R$ 76 o litro — preço de cerveja importada de prateleira alta, e mais que o dobro de uma artesanal comum. Só que o raciocínio muda quando o rótulo em questão acabou de ser eleito o melhor do mundo na categoria: o vinho equivalente em prestígio não sairia por menos de três dígitos, e o uísque nem entraria na conversa.

E aqui vale a comparação honesta: a taça de vinho "premiado" no bar da moda custa R$ 45 e o prêmio geralmente é uma medalha de participação de concurso que ninguém sabe onde fica. A melhor IPA do planeta na sua geladeira por R$ 36 é, dentro da lógica torta dos produtos premiados, uma pechincha.

O interior paulista no mapa-múndi da cerveja

O prêmio não é ponto fora da curva — é a confirmação de uma tendência. O Brasil mantém uma média histórica de um título mundial de cerveja a cada dois anos, e Campinas vem se consolidando como polo cervejeiro há uma década, com dezenas de cervejarias artesanais num raio de 50 quilômetros. O que faltava era o troféu de peso máximo, e ele chegou.

Há uma ironia deliciosa no percurso: a cerveja artesanal brasileira passou anos tentando impressionar o mundo imitando receitas americanas e belgas com nomes em inglês. Aí uma cervejaria batiza o rótulo de Atrás do Bloco, assume o Carnaval como identidade, faz uma cerveja pensada para o calor e o corso — e é essa que os jurados europeus coroam. A lição estava aí o tempo todo: ninguém ganha concurso internacional sendo cópia de outro país.

Se você quiser provar, os caminhos são a lata de 473 ml ou a peregrinação a Campinas para beber direto da torneira — programa que, dado o histórico do rótulo, tende a exigir paciência de fila. Cerveja campeã do mundo tem dessas: no dia seguinte ao anúncio, todo mundo vira especialista em Hazy IPA.

A melhor IPA do mundo não tem nome em inglês, não imita Portland e nasceu para o bloco de Carnaval. O mundo levou três anos para descobrir o que o folião de Campinas já sabia.

Compartilhar: