A comida do mercado caiu de novo — a do restaurante subiu

A comida do mercado caiu de novo — a do restaurante subiu

Em agosto, a alimentação no domicílio recuou 0,83% e a de fora do domicílio subiu 0,50%. É o terceiro mês seguido de alívio na gôndola que não chega ao cardápio — e existe uma explicação estrutural para isso.

SaborCidade ·

Você fez a feira nas últimas semanas e teve uma sensação estranha, quase esquecida: a conta veio menor. Tomate mais barato, manga em conta, até o café moído recuou. Aí você almoçou fora na quarta-feira e o prato executivo estava R$ 3 mais caro que no mês passado. Não é impressão, não é o seu restaurante sendo ganancioso, e a diferença está medida no mesmo índice.

Em agosto, o grupo de alimentação e bebidas caiu 0,46%, puxando o IPCA do mês para baixo em 0,10 ponto percentual. Só que esse número é a média de dois mundos que não se falam: a comida que você leva para casa recuou 0,83%, enquanto a comida que você come na rua subiu 0,50%. O supermercado deu trégua pelo terceiro mês seguido. O restaurante, não.

Onde a queda apareceu

A deflação da gôndola tem nome e sobrenome, e quase toda ela é hortifrúti. Manga despencou 18,4%, tomate caiu 13,39%, mamão recuou 10,90% e a batata-inglesa, 8,59%. O café moído entrou na lista com queda de 2,17% — modesta, mas simbólica para quem viu esse item virar artigo de luxo nos últimos dois anos.

Do outro lado da tabela, o limão subiu 24,90%, o pimentão 9,76% e a melancia 7,18%. É o comportamento normal de safra: chuva, colheita e oferta mandam mais na sua salada do que qualquer política econômica. E vale a nota de rodapé para não confundir alívio com festa — em 12 meses, alimentação e bebidas ainda acumulam alta de 7,42%.

O IPCA de agosto na sua mesa:

• Alimentação e bebidas: -0,46% no mês
• Alimentação no domicílio: -0,83%
• Alimentação fora do domicílio: +0,50% (contra +0,87% em julho)
• Maiores quedas: manga -18,4%, tomate -13,39%, mamão -10,90%, batata -8,59%, café moído -2,17%
• Maiores altas: limão +24,90%, pimentão +9,76%, melancia +7,18%
• Acumulado em 12 meses: alimentação e bebidas +7,42%; no domicílio, +7,01%
(Fontes: IBGE/IPCA, compilação CNA)

Por que o cardápio não acompanha a gôndola

A resposta curta: porque a comida é a menor parte do que você paga quando come fora. A resposta longa é a planilha do dono.

Num restaurante saudável, o insumo representa algo entre 25% e 35% da receita. O resto é aluguel do ponto, folha de pagamento, energia, gás, taxa de cartão, delivery, impostos e a margem — que, no setor de alimentação fora do lar, costuma ser de um dígito. Quando o tomate cai 13%, o efeito sobre o custo total do prato é de centavos. Quando o aluguel comercial sobe, ou a folha é reajustada, o efeito é imediato e permanente.

Some a isso a rigidez do cardápio. Trocar preço no supermercado é uma etiqueta; trocar preço num restaurante é reimprimir menu, reprogramar sistema, atualizar aplicativo e explicar para o cliente que voltou na semana seguinte. Por isso o restaurante sobe devagar e desce menos ainda — ele ajusta uma vez, quando não dá mais, e segura pelo maior tempo possível.

A desaceleração é a boa notícia escondida

Vale ler o número com atenção antes de xingar o garçom: a alta de 0,50% de agosto vem depois de 0,87% em julho. Ou seja, o preço de comer fora continua subindo, mas subindo mais devagar. É a diferença entre um carro acelerando e um carro que começou a tirar o pé.

Isso importa porque, historicamente, a alimentação fora do domicílio é o subgrupo mais teimoso da inflação de comida — o que sobe rápido e demora a ceder, justamente por causa da estrutura de custo fixo que descrevemos. Quando ele desacelera dois meses seguidos, é sinal de que a queda dos insumos finalmente começou a chegar na cozinha profissional, com o atraso de sempre.

O que fazer com essa informação na prática

Primeiro: o momento é bom para transferir refeições para casa sem perder qualidade. Com hortifrúti em queda, o custo de cozinhar caiu de verdade — e é agora que a diferença entre o prato feito em casa e o de fora fica mais gritante.

Segundo: ao comer fora, olhe o modelo antes do preço. A escolha entre rodízio, à la carte e por quilo muda a sua conta muito mais do que a inflação do mês, e nós abrimos essa matemática no guia sobre qual dos três compensa mais. Num cenário de cardápio rígido, escolher o formato certo é o único desconto que continua disponível.

Terceiro: desconfie de quem culpa a inflação por reajuste fora de hora. Se o restaurante da esquina subiu o prato em agosto alegando "alta dos insumos", o índice do mês está dizendo o contrário — os insumos caíram. Pode ser aluguel, pode ser folha, pode ser margem. Mas não foi o tomate.

O supermercado deu trégua. O restaurante ainda está fazendo as contas — e, como sempre, ele desce pela escada enquanto sobe pelo elevador.

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