A Havanna pediu recuperação extrajudicial no Brasil — e quer chegar a 700 lojas mesmo assim

A Havanna pediu recuperação extrajudicial no Brasil — e quer chegar a 700 lojas mesmo assim

A operação brasileira da rede de cafeterias entrou num processo que negocia R$ 127 milhões em dívidas de um grupo de seis empresas. A rede diz que o problema não é dela, abriu mais de 30 lojas no primeiro semestre e mantém a meta de 700 unidades até 2030.

SaborCidade ·

Você provavelmente já pagou R$ 12 num alfajor de doce de leite dentro de um aeroporto, esperando um voo atrasado, e achou caro e justo ao mesmo tempo. Essa cena — repetida em shoppings, rodoviárias e ruas de bairro nobre — é o modelo de negócio inteiro da Havanna no Brasil. E ele acaba de aparecer no noticiário por um motivo desconfortável.

A operação brasileira da rede entrou com pedido de recuperação extrajudicial. A empresa integra um grupo de seis companhias que negocia dívidas somando R$ 127 milhões com credores. O grupo é controlado no Brasil pelo empresário Marcos Rothenberg, e o processo tramita na 1ª Vara Regional de Competência Empresarial e de Conflitos Relacionados à Arbitragem de São Paulo.

O que é recuperação extrajudicial — e por que não é falência

Vale traduzir o termo antes que ele vire boato de WhatsApp. Recuperação extrajudicial não é falência, nem é a mesma coisa que recuperação judicial. Ela é um acordo negociado diretamente com os credores, fora da corte, que depois é levado ao juiz apenas para homologação — para valer também sobre credores que não assinaram, dentro de determinadas classes.

Na prática, é o instrumento de quem tem um problema de estrutura de dívida, e não necessariamente de operação. A empresa continua vendendo, continua pagando fornecedor, continua abrindo loja. Ela só quer reorganizar prazos e condições daquilo que deve — antes que o problema vire o outro tipo de recuperação, aquele que dá manchete pior.

Em comunicado, a Havanna afirmou justamente isso: que o processo foi iniciado "em função de obrigações contratadas por outras empresas do grupo acionista da Havanna, sem relação com questões operacionais ou financeiras da Havanna, que é solidária nas obrigações financeiras do grupo". Traduzindo do juridiquês: a marca do alfajor está pagando pela conta de parentes societários.

O caso Havanna em números:

• Dívidas em negociação: R$ 127 milhões, num grupo de seis empresas
• Instrumento: recuperação extrajudicial — acordo com credores homologado em juízo, diferente de recuperação judicial e de falência
• Pedido apresentado no fim de 2025; plano protocolado no primeiro semestre de 2026
• Aberturas: mais de 30 novas operações só no primeiro semestre deste ano
• Meta declarada: 700 lojas até 2030
• Estratégia anunciada: ampliar categorias com Dulce de Leche Havanna e distribuir produtos no varejo alimentar
(Fontes: comunicado da empresa, Exame e Mercado&Consumo)

Expansão em plena renegociação: contradição ou estratégia?

À primeira vista, soa estranho: uma empresa negociando R$ 127 milhões em dívidas abriu mais de 30 operações no primeiro semestre e diz que quer chegar a 700 lojas até 2030. Mas, no mundo da franquia, isso é menos contraditório do que parece.

Boa parte da expansão de redes como essa não é feita com capital próprio — é feita com o capital do franqueado. Quem paga a obra, o ponto, o estoque inicial e a folha da loja nova é o empreendedor que comprou a franquia. Para a franqueadora, cada unidade adicional é receita de taxa e de venda de insumo, não despesa de expansão.

Isso explica por que uma rede pode crescer em número de lojas enquanto negocia dívida no andar de cima. E também explica onde mora o risco real: no franqueado, que investiu num contrato de longo prazo com uma marca cujo grupo controlador está em renegociação. É a ele que interessa ler as letras miúdas sobre suprimento, exclusividade e reajuste de royalties.

O modelo "café mais doce de assinatura" está sob pressão

Há um pano de fundo maior aqui, e ele vale para muito além de uma marca. A cafeteria brasileira de shopping vive de uma equação delicada: aluguel caro em metro quadrado nobre, ticket médio baixo, alta rotatividade de pessoal e um produto que o cliente considera supérfluo na primeira crise doméstica.

Quando o consumidor aperta o orçamento, o café da tarde e o docinho de R$ 12 estão entre as primeiras coisas a sair da lista. Some a isso a explosão do preço do cacau nos últimos anos, o leite condensado e o doce de leite mais caros, e o custo de ocupação em shopping subindo acima da inflação, e você tem margem espremida dos dois lados ao mesmo tempo.

A resposta que a Havanna anuncia é a mesma que outras redes vêm testando: sair da loja e entrar na gôndola. Vender doce de leite e produtos de marca no varejo alimentar é vender sem pagar aluguel de shopping, sem escala de atendente e sem depender do fluxo de pedestre. É menos glamouroso e muito mais previsível.

O que muda para você, cliente

No curto prazo, nada. Recuperação extrajudicial não fecha loja, não cancela cartão-presente e não invalida programa de fidelidade. A operação segue normal enquanto o plano é negociado.

No médio prazo, vale ficar atento a dois sinais clássicos de aperto em rede de alimentação: redução silenciosa de porção ou gramatura e queda de variedade na vitrine. Quando uma cafeteria começa a operar com metade dos itens que anunciava e o mesmo preço, alguma coisa está sendo espremida na cadeia — normalmente o fornecedor, às vezes a qualidade.

E se você tem crédito acumulado, cartão-presente ou pacote pré-pago em qualquer rede nessa situação, a recomendação é chata e sensata: use. Crédito pré-pago é dívida da empresa com você, e credor pequeno é sempre o último da fila em qualquer renegociação.

Uma marca não quebra por vender alfajor demais; quebra por dever dinheiro no andar de cima da holding. A Havanna diz que o problema não é da operação — e a operação, por enquanto, dá razão a ela. Mas guarde a lição: em rede de franquia, quem sente primeiro nunca é o cliente, é o franqueado.

Compartilhar: