
O Brasil faz o melhor gin do mundo — e o bar te empurra o importado
Um gin brasileiro tirou nota máxima em Londres, mas a carta do seu bar ainda começa pelos rótulos de fora. Entenda o paradoxo do destilado nacional em 2026.
Você pede um gin-tônica num bar bom e o garçom recita a carta: tem o inglês clássico, o espanhol da moda, o escocês caríssimo. Lá no finzinho, quase como nota de rodapé, ele menciona "e tem uns nacionais também". A entonação já diz tudo: o importado é o sério, o brasileiro é o tira-gosto.
Tem só um problema com essa hierarquia. Em competição internacional, gin brasileiro já bateu de frente — e venceu — destilarias europeias e americanas com séculos de tradição. O melhor gin do mundo pode ter sotaque brasileiro. Mas a carta do seu bar ainda não recebeu o memorando.
O boom que virou consolidação
O gin não é novidade no Brasil — já passou da fase do hype. Na última década, o consumo cresceu cerca de 200%, e a projeção é que o país beba algo perto de 35 milhões de litros de gin por ano. O que era bebida de nicho de bartender virou item de supermercado, de happy hour de quinta, de geladeira de casa.
E, diferente de outras modas que estouram e somem (lembra do auge do chope artesanal de garagem?), o gin se consolidou. Em cidades do interior, em capitais, em barzinho de bairro: o gin-tônica entrou de vez no repertório do brasileiro. A onda passou da espuma para a maré estável — e é justamente quando o mercado amadurece que o produto nacional ganha espaço para brigar por qualidade, não só por preço.
O selo que mudou a conversa
O virada de chave veio do reconhecimento de fora. Uma destilaria brasileira foi eleita "Best in Class" no International Wine & Spirit Competition (IWSC), em Londres — uma das competições mais respeitadas do setor —, com 98 pontos e medalha de ouro na categoria mais alta. Para quem não é do ramo: é como um vinho brasileiro chegar ao topo de uma prova cega em Bordeaux. Não era para acontecer, segundo o roteiro tradicional. Aconteceu.
E faz sentido técnico. Gin é o destilado mais democrático que existe: a base é álcool neutro e o que define o sabor são os botânicos — as ervas, raízes, cascas e especiarias usadas na destilação. O zimbro é obrigatório (é o que faz gin ser gin), mas o resto é criatividade. E adivinhe qual país tem a maior biodiversidade botânica do planeta? O Brasil destila gin com cumaru, capim-santo, pimenta-rosa, cumbaru, casca de cacau, ervas da Amazônia e do Cerrado — ingredientes que destilaria inglesa nenhuma tem no quintal.
• Consumo de gin no Brasil cresceu cerca de 200% na última década
• Projeção de consumo na casa dos 35 milhões de litros por ano
• Um gin brasileiro foi "Best in Class" no IWSC de Londres, com 98 pontos e ouro
• Diferencial nacional: botânicos da flora brasileira (cumaru, pimenta-rosa, ervas do Cerrado e da Amazônia)
• Mesmo assim, as cartas premium dos bares ainda são dominadas pelos importados
Então por que o bar ainda começa pelo importado?
Por inércia e por margem, não por qualidade. Marca importada tem décadas de marketing global martelando que destilado bom vem de fora — a mesma lógica que por anos fez você achar que cerveja boa só podia ser belga e queijo só francês. A carta do bar reflete esse imaginário, não uma prova cega.
Tem também a conta. O importado de marca consagrada permite ao bar cobrar mais pelo "nome" e ostentar a garrafa bonita na estante. O nacional, por ser visto como "alternativa", muitas vezes é precificado para baixo — o que ironicamente o faz parecer inferior. O cliente associa preço alto a qualidade, o bar percebe isso, e o ciclo se retroalimenta: o bom gin brasileiro fica barato, parece menor, e some no fim da carta.
O que muda para você, do lado de cá do balcão
Muda que você pode pedir melhor e pagar mais justo. O gin nacional artesanal, de pequeno lote, é hoje uma das melhores relações entre preço e qualidade do balcão brasileiro — e ainda carrega sabores que o importado não tem como entregar, porque não tem acesso aos botânicos daqui.
A geração mais jovem já entendeu isso e mudou o jogo: bebe menos em volume e prioriza qualidade, autenticidade e história na garrafa. Coquetelaria autoral, pequeno lote, ingrediente local — é exatamente o terreno onde o destilado brasileiro joga em casa, com vantagem.
Como pedir gin nacional sem medo
- Peça a carta inteira, não a "recomendação". O nacional costuma estar no fim — pergunte ativamente quais gins brasileiros a casa tem.
- Pergunte os botânicos. Bartender bom adora falar disso. Gin com cumaru, pimenta-rosa ou erva regional entrega um perfil que o importado clássico não tem.
- Desconfie da hierarquia de preço. Nacional mais barato não é nacional pior. Muitas vezes é o mesmo nível por menos dinheiro.
- Prove puro ou com tônica neutra primeiro. Antes de afogar em xarope e frutas, sinta o destilado. Se ele se sustenta sozinho, é bom de verdade.
A história se repete em todo produto brasileiro de qualidade: a gente faz, ganha prêmio lá fora, e continua achando que o de fora é melhor. Com o gin, o veredito já saiu de Londres com 98 pontos. Falta só o seu bar — e o seu paladar — pararem de tratar o melhor gin do mundo como nota de rodapé da carta.