
O Brasil vendeu 15,7% menos café e faturou quase o mesmo — adivinhe quem cobre a diferença
A saca brasileira foi exportada a US$ 379,48, preço recorde, e agosto começou com embarques 48,5% acima do ano passado. O mundo aceitou pagar mais caro pelo nosso grão — e o seu coado entrou na mesma conta.
Existe um truque de mágica acontecendo no café brasileiro, e ele merece a sua atenção porque a plateia paga o ingresso: na safra 2025/26, o país embarcou 15,7% menos café para o exterior — e a receita caiu apenas 1%. Vendeu bem menos, faturou praticamente igual. Nenhum outro produto da sua despensa consegue esse número sem que alguém, em algum elo da cadeia, esteja pagando a diferença. Esse alguém toma café. Esse alguém é você.
Os dados são do Cecafé, o conselho dos exportadores: 38,462 milhões de sacas de 60 kg embarcadas para 125 países na safra encerrada em junho, contra uma queda de só 1% na receita, que fechou em US$ 14,595 bilhões — o segundo maior faturamento da história da série. O segredo do truque tem nome e sobrenome: preço médio de US$ 379,48 por saca, recorde absoluto, 17,4% acima da safra anterior.
Agosto começou em ritmo de corrida
E o filme não desacelera. Segundo a Secex, a secretaria de comércio exterior, a média diária de embarques de café verde até a segunda semana de agosto foi de 10,1 mil toneladas — alta de 48,5% sobre agosto do ano passado, com cerca de 101 mil toneladas acumuladas no mês. Isso logo depois de um julho em queda de 5%, porque a chuva atrasou a colheita.
Traduzindo o economês: o mundo está comprando café brasileiro no maior preço da história e, ainda assim, acelerando os pedidos. Quando o cliente aceita pagar recorde e aumenta o volume, o vendedor não tem nenhum motivo para baixar o preço — e o vendedor, nesse caso, é quem abastece também a prateleira do seu mercado e o moinho da sua cafeteria.
• Safra 2025/26: 38,462 milhões de sacas exportadas, queda de 15,7% — para 125 países
• Receita: US$ 14,595 bilhões, queda de só 1% — 2º maior faturamento da história (Cecafé)
• Preço médio: US$ 379,48 por saca, recorde, alta de 17,4%
• Agosto/2026: embarques diários de 10,1 mil toneladas, alta de 48,5% sobre agosto/2025 (Secex)
• Próxima safra: consultorias já projetam colheita recorde de até 75 milhões de sacas em 2026/27
Por que a safra recorde não salva o seu coado
"Mas se a próxima colheita vai ser recorde, o preço cai, certo?" Em tese. As consultorias projetam até 75 milhões de sacas para 2026/27, um salto de mais de 20% — e, num mercado de manual, oferta a mais derrubaria cotação. O problema é que o café não opera no manual: os estoques mundiais vêm magros de anos de quebra, o consumo global segue subindo e o dólar faz o resto do serviço.
E existe o efeito catraca, velho conhecido desta coluna: preço de prateleira sobe de elevador e desce de escada — quando desce. O pacote de 500 g que remarcou três vezes desde 2024 não volta ao preço antigo porque a saca deu uma aliviada na bolsa de Nova York. A cafeteria que reajustou o coado para R$ 10 não imprime cardápio novo para cobrar R$ 8,50.
A parte que ninguém fala: é uma boa notícia
Aqui, uma honestidade que costuma faltar nesse debate: o preço recorde é uma notícia excelente — para o Brasil. São US$ 14,6 bilhões entrando, boa parte indo parar em regiões produtoras onde o café é a economia inteira. O produtor que passou décadas vendendo commodity barata para o gringo estocar agora vende produto valorizado. Reclamar disso seria torcer contra o próprio time.
O ponto é outro: entender que o seu cafezinho está atrelado a esse jogo global. O Brasil produz o café, mas o preço dele se decide entre Nova York, o clima em Minas e a demanda asiática — e a cafeteria da esquina é a última ponta do chicote. Quando ela remarca, não é ganância do balcão; é a saca de US$ 379 chegando na xícara.
O que fazer na prática
Primeiro: se o seu consumo é doméstico, fuja da guerra de marca e olhe o quilo — a diferença entre o pacote "tradicional" e o "extraforte" da mesma torrefação raramente justifica o rótulo. Segundo: nas cafeterias, o coado segue sendo o melhor negócio da casa; é no espresso duplo com leite vegetal que a margem mora. Terceiro: aceite que café barato como o de 2019 não volta — aquele preço era o produtor brasileiro subsidiando o seu hábito, e essa conta fechou.
O mundo finalmente aceitou pagar caro pelo café brasileiro. Só tem um detalhe: você mora no Brasil, mas na hora de pagar a xícara, o balcão te cobra como se você fosse o mundo.