Pizza, hambúrguer e temaki saindo da mesma cozinha — a fusão que quer virar R$ 72 milhões

Pizza, hambúrguer e temaki saindo da mesma cozinha — a fusão que quer virar R$ 72 milhões

Três redes se juntaram num grupo só: uma pizzaria de Maricá, uma casa de hambúrguer e uma temakeria do ABC. São 23 lojas, mais 9 franquias vendidas e um modelo em que o franqueado opera até três marcas no mesmo balcão. O nome disso é hub multimarca — e ele explica muito sobre o delivery que chega na sua casa.

SaborCidade ·

Você pede uma pizza numa noite de sexta. No sábado, no impulso da preguiça, pede um hambúrguer. No domingo, temaki. Três aplicativos, três marcas, três cardápios diferentes — e, cada vez mais, a mesma cozinha, o mesmo estoque e o mesmo dono.

É exatamente essa a aposta da fusão que acaba de criar um grupo reunindo Oliver's Pizza, Ogro Steaks e Temakeria Universitária. Somadas, as três operações faturavam cerca de R$ 59 milhões. Juntas, a meta para 2026 é fechar em R$ 72 milhões.

O que exatamente foi fundido

A Oliver's Pizza nasceu em Maricá, no Rio, e trabalha com produção de massa centralizada — a padronização que permite abrir loja sem depender de um pizzaiolo virtuose em cada esquina. A Ogro Steaks cuida do hambúrguer. A Temakeria Universitária veio do ABC paulista e entra com a cozinha japonesa de rua, aquela do temaki grande, rápido e sem cerimônia.

Hoje são 23 unidades em operação — 12 da Ogro, 9 da Oliver's e 2 da Temakeria — mais 9 franquias já vendidas e ainda não inauguradas. Na cadeira de CEO está Mathias Almeida; o marketing fica com Matheus Busson, e Felipe Vecchi, fundador da temakeria, segue no grupo.

A fusão em números:

• Faturamento projetado para 2026: R$ 72 milhões (antes da integração: ~R$ 59 milhões)
23 unidades em operação: 12 Ogro Steaks, 9 Oliver's Pizza, 2 Temakeria Universitária
• Mais 9 franquias vendidas e ainda não abertas
• Investimento em unidade só de delivery: a partir de R$ 350 mil
• Investimento no hub multimarca: a partir de R$ 800 mil
• Investimento em tecnologia do grupo: cerca de R$ 300 mil
• Meta de cinco anos: 34 unidades só no estado do Rio de Janeiro
(Fonte: comunicado do grupo, agosto de 2026)

Por que juntar pizza, carne e peixe cru faz sentido econômico

Para o cliente, são três comidas que não conversam. Para quem opera, são três curvas de demanda que se completam com uma precisão quase indecente.

Pizza vende forte no fim de semana e à noite. Hambúrguer vende todo dia, com pico no almoço e na madrugada. Temaki vende bem em dia útil, com público que quer algo "mais leve" na terça-feira. Uma cozinha só de pizza fica ociosa metade da semana; uma cozinha com três marcas dilui essa ociosidade — mesmo aluguel, mesma coifa, mesma equipe, três fluxos de pedido.

O aluguel não cai pela metade porque você vende pizza; ele cai pela metade quando o mesmo metro quadrado gera duas ou três receitas. É esse o cálculo. E é por isso que o formato se chama hub: não é um restaurante com cardápio grande, são marcas separadas dividindo infraestrutura.

A conta do franqueado — e onde ela pode doer

Uma unidade só de delivery começa em R$ 350 mil. O hub multimarca, em R$ 800 mil. A diferença de R$ 450 mil compra o direito de operar até três marcas no mesmo ponto.

No papel, é diversificação: se uma marca desanda numa região, as outras seguram o caixa. Na prática, é também concentração de risco — o mesmo ponto, a mesma equipe e o mesmo gestor respondendo por três operações com padrões de qualidade diferentes. Peixe cru e chapa de hambúrguer no mesmo espaço exigem disciplina de manipulação que não é opcional nem negociável.

O grupo diz que investiu cerca de R$ 300 mil em tecnologia. Faz sentido: sem sistema decente para separar estoque, integrar aplicativos e medir a margem de cada marca isoladamente, o hub multimarca vira um restaurante com três cardápios e nenhuma clareza sobre qual deles está dando prejuízo.

"Expansão estilingue" — o erro que o setor está tentando não repetir

A estratégia declarada é consolidar o Rio de Janeiro primeiro, depois São Paulo, depois o resto do país. A meta é de 34 unidades no estado do Rio em cinco anos. A liderança do grupo tem até um nome para o que quer evitar: expansão estilingue — aquela em que a rede atira uma loja em Manaus, outra em Porto Alegre e outra em Recife antes de dominar o próprio quintal.

Quem acompanha franquia de alimentação já viu esse filme. Rede vende licença para qualquer um com dinheiro, ganha manchete de "crescimento explosivo", e dois anos depois passa a fechar unidades em silêncio porque não conseguiu entregar insumo, treinamento e suporte a mil quilômetros da matriz. Massa centralizada não viaja bem para o outro lado do país sem uma cadeia logística que custa caro.

Consolidar região por região é mais lento, rende menos manchete e quebra menos franqueado. Vale acompanhar se a prática vai seguir o discurso.

O que muda para quem só quer jantar

Primeiro: aquela sensação de que o cardápio do aplicativo tem mil opções e o sabor é sempre parecido tem explicação estrutural. Marcas diferentes cada vez mais compartilham cozinha, fornecedor e processo.

Segundo: isso não é necessariamente ruim. Cozinha compartilhada com padronização séria costuma entregar mais constância do que a casa artesanal que depende do humor do dono. O problema não é o modelo — é quando ele é escondido, e você acha que está pedindo de três cozinhas independentes.

Terceiro, e mais prático: se você quiser saber com quem está lidando, olhe o endereço de retirada no aplicativo. Quando três marcas diferentes apontam para o mesmo número da mesma rua, você acabou de descobrir um hub — e ganhou a chance de pedir tudo numa entrega só.

O delivery está deixando de ser uma vitrine de restaurantes para virar uma prateleira de marcas com a mesma cozinha atrás. Não há nada de errado nisso, desde que a etiqueta diga a verdade — e a chapa do hambúrguer nunca encoste no salmão.

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