
Mil cervejas em nove anos: a cervejaria da Vila Madalena que lança um rótulo a cada 3 dias
A paulistana Croma Beer chegou à cerveja de número 1.000 — uma stout envelhecida em barril de bourbon batizada de Milésime. São 8,7 lançamentos por mês desde 2017, um ritmo que talvez não tenha paralelo na América Latina e que diz muito sobre o que virou a cerveja artesanal brasileira.
Pense na última vez que você provou uma cerveja nova. Não um chope qualquer — uma receita que você nunca tinha bebido antes. Agora imagine criar, produzir e lançar comercialmente uma receita nova a cada três ou quatro dias, sem parar, durante nove anos. Parece maratona de louco? É a rotina da Croma Beer, o brewpub da rua Harmonia, na Vila Madalena, que acaba de cravar a marca de mil cervejas lançadas.
A número 1.000 ganhou nome de champagne e cerimônia à altura: Milésime, uma bourbon barrel aged stout — cerveja escura e encorpada envelhecida em barril de bourbon, especialidade da casa. Por enquanto, o rótulo só existe no site da marca, em garrafa elegante, como manda o padrão da Croma.
O tamanho do feito, em números
Não existe registro oficial nem fiscalização de "quantas receitas uma cervejaria já lançou". Mas as contas ajudam a dimensionar: a Croma completou nove anos há pouco e, para chegar à milésima, precisou lançar em média 8,7 rótulos por mês — mais de uma novidade por semana, todas as semanas, desde o início. É bem possível que seja a única cervejaria do Brasil, e talvez da América Latina, a atingir a marca.
Para efeito de comparação: o Brasil tem hoje dezenas de milhares de cervejas registradas somando todas as cervejarias do país. Uma única casa de bairro responder por mil delas é estatisticamente absurdo — é como se uma única cozinha de restaurante tivesse criado mil pratos autorais enquanto a maioria dos concorrentes vive de dez receitas de sucesso.
Da cigana ao brewpub
A história começou em fevereiro de 2017, quando a marca ainda era "cigana" — jargão do setor para cervejaria sem fábrica própria, que produz alugando estrutura de terceiros. A estreia foi a Hop Quintet, uma IPA com cinco lúpulos. De lá para cá vieram o brewpub arejado na Vila Madalena, o reconhecimento internacional e uma prateleira de experimentos que não parou de girar.
"É um misto de orgulho, gratidão e responsabilidade. Quando lançamos a primeira cerveja, em 2017, jamais imaginávamos chegar à marca de mil receitas. Cada cerveja representa um experimento, um aprendizado, um risco e uma história", conta Rodrigo Nogueira, cervejeiro e sócio da marca.
A ideia da Milésime, aliás, nasceu em 2023 — ano em que a Croma foi apontada pelo aplicativo Untappd, espécie de rede social mundial dos bebedores de cerveja, como a terceira melhor cervejaria do mundo no ranking da plataforma. Desde então, a milésima cerveja era um horizonte planejado, não um acaso.
• 1.000 cervejas lançadas em 9 anos — média de 8,7 rótulos por mês
• Cerveja nº 1.000: Milésime, bourbon barrel aged stout, venda só no site da marca
• Primeira cerveja: Hop Quintet (IPA de 5 lúpulos), lançada em fevereiro de 2017
• Em 2023, a Croma foi eleita 3ª cervejaria do mundo no ranking do Untappd
• Brewpub próprio na rua Harmonia, Vila Madalena, em São Paulo
(Fonte: blog Copo Cheio/Folha, Croma Beer)
Por que lançar tanto — e o que isso diz do mercado
O ritmo frenético não é vaidade: é modelo de negócio. A cerveja artesanal brasileira virou um mercado de novidade — o público que frequenta brewpub e acompanha lançamento se comporta como quem acompanha série: quer episódio novo toda semana. Quem lança pouco sai do feed, do tap list e da conversa. A rotatividade de rótulos é o que enche o balcão às terças-feiras.
Há um efeito colateral honesto de admitir: nesse volume, nem toda cerveja é memorável — nem precisa ser. O lançamento semanal funciona como bancada de testes em público: o que faz sucesso vira linha permanente ou volta em novas versões; o que não faz vira aprendizado. O barril de bourbon da Milésime, aliás, é o tipo de técnica que só se domina errando algumas dezenas de vezes primeiro.
Vale a pena entrar nessa roda?
Se você é do time que bebe sempre a mesma pilsen gelada, nada contra — cerveja boa é a que você gosta, e esnobar pilsen é bobagem de iniciado. Mas se tem curiosidade, um brewpub com rotatividade alta é o melhor custo-benefício para educar o paladar: em vez de comprar garrafas caras às cegas, você prova estilos diferentes em doses pequenas, no lugar onde a cerveja foi feita, fresca — que é como toda cerveja lupulada deveria ser bebida.
E uma dica de quem olha o copo e o bolso: cerveja envelhecida em barril, como a Milésime, é produto de ocasião, não de sessão. Alta graduação, preço alto, complexidade de vinho. Compre uma, divida com alguém, beba devagar. Mil cervejas foram feitas para chegar até ela — o mínimo é não virar o copo com pressa.
Enquanto as grandes marcas passam décadas vendendo a mesma fórmula, uma casa de bairro em São Paulo fez mil. A cerveja brasileira não está em crise de criatividade — está em crise de quem ainda não provou.