Seu drink agora leva tucupi e castanha de baru — e o gin importado que se cuide

Seu drink agora leva tucupi e castanha de baru — e o gin importado que se cuide

A coquetelaria brasileira de 2026 trocou o rótulo escocês pela dispensa nacional: tereré, cajuína, quirera de milho e tucupi preto viraram ingrediente de drink autoral. O movimento também é sobre beber menos — e melhor.

SaborCidade ·

Tem uma pergunta que separa o bar careta do bar que vale a pena hoje: quando você pede a carta de drinks, tem alguma coisa ali que só existe no Brasil? Faz cinco, dez anos, a resposta padrão era gin importado, whisky de rótulo caro e xarope comprado pronto. Em 2026, o bartender que se leva a sério está indo na direção contrária — e o ingrediente da vez pode ser tucupi, tereré ou castanha de baru.

Não é frescura de menu de degustação. É um movimento real, puxado por bares premiados como o Tan Tan, eleito melhor bar do Brasil, que constrói cartas percorrendo as cinco regiões do país sem passar pelos clássicos óbvios. Cajuína no lugar de xarope simples, gorgonzola em combinação improvável, quirera de milho dando corpo a um drink — a lista de ingredientes parece cardápio de restaurante regional, não carta de coquetel.

Por que o balcão virou vitrine de biodiversidade

A explicação é dupla. De um lado, o consumidor brasileiro descobriu que pode comparar preço: um bitter artesanal feito com fruta nativa custa uma fração de um importado, e ainda carrega uma história que o cliente consegue contar no story do Instagram. De outro, virou estratégia de diferenciação — qualquer bar compra a mesma garrafa de gin no mesmo distribuidor. Poucos têm acesso a baru fresco, tucupi de qualidade ou tereré em pó.

O resultado é uma safra de "narrativas líquidas": drinks batizados com nome de bairro, de pessoa ou de momento específico, contando uma história através do copo. É bebida pensada para significar alguma coisa, não só para embriagar — o oposto do drinkão genérico de balada.

Ingredientes brasileiros que viraram tendência de balcão:

Tucupi preto — usado em drinks salgados/umami, puxando para coquetelaria mais gastronômica
Tereré e cajuína — substituindo xaropes e vermutes importados em receitas autorais
Quirera de milho e castanha de baru — dando corpo e untuosidade sem álcool extra
Bitters artesanais e fermentados caseiros (kombucha) — no lugar de amargos industrializados
• Tendência combinada com low e no-ABV: menos dose, mais experiência

"Beber menos, beber melhor" não é slogan de campanha de saúde

A outra metade da equação é o quanto o brasileiro está bebendo — e como. A coquetelaria deixou de ser sequência de doses fortes para virar experiência de menos volume e mais complexidade: drinks com baixo teor alcoólico, versões sem álcool com técnica de bar de verdade (não suco de caixinha decorado) e fermentados naturais como kombucha ganhando espaço na carta ao lado do old fashioned.

Isso não é modismo vegano de bar chique. É resposta direta a uma geração que bebe com mais consciência — de calorias, de ressaca, de lei seca — mas não abre mão do ritual do bar. O drink sem álcool deixou de ser suco caro para virar coquetel de verdade, com técnica, amargor e acidez calculados como qualquer outro.

Tecnologia e inclusão completam o quadro

No balcão, entram impressoras de decoração comestível, dispensadores automáticos para manter consistência e QR code no menu sugerindo harmonização — tudo para tirar a variação de qualidade que sempre foi o calcanhar de aquiles da coquetelaria (o mesmo drink sair diferente dependendo de quem está atrás do balcão). E a carta está mais inclusiva: opção sem glúten, sem lactose, sem açúcar, e receitas que homenageiam culturas diferentes, não só a europeia de sempre.

Some sustentabilidade nisso — reaproveitar casca e talo em xarope, cortar plástico descartável, compostar o resíduo do bar — e o retrato fica completo: o bar de 2026 quer parecer menos balada genérica e mais projeto com identidade.

O que isso muda para quem só quer um drink bom

Na prática: vale procurar o bar que troca de carta com frequência e explica o ingrediente estranho sem soberba — se o bartender sabe de onde veio o tucupi do seu drink, ele provavelmente também sabe fazer um daiquiri decente. Desconfie do lugar que só reproduz clássico americano com nome pomposo e preço de importado; hoje, isso é o caminho mais fácil, não o mais interessante.

E vale também dar uma chance ao drink sem álcool do cardápio — ele deixou de ser o parente pobre da carta e, em bar bom, é feito com o mesmo cuidado do coquetel forte ao lado.

No fim, o balcão brasileiro descobriu o que a cozinha já sabia: não precisa importar sofisticação quando o quintal tem baru, tucupi e cajuína. O drink careta ainda existe — só que agora ele é a exceção, não a regra.

Compartilhar: